o dia em que nossa amizade não sobreviveu a uma reavaliação ideológica

peter doig

Até que acontece. Nem as previsões epistemológicas e análises dóxicas mais precisas conseguem antever o dia em que será, o assunto do qual brotará a cabal divergência – aquela decisiva opinião que será o ponto de chegada ou o ponto de partida para as carteiradas vindouras -, a germinante centelha que, espalhando-se como o fogo no cerrado, terminará incendiado os ânimos, os amigos, ou o casal, ou os pais e os filhos (caso em que o fenômeno é mais frequente, e às vezes até mesmo procurado pelas partes envolvidas), pra depois esfriá-los dentro da geladeira pra onde vão depois de mortos.

Até que acontece. Ou já somos suspeitos há algum tempo, e a patrulha à paisana está num dia muito atribulado, não nos é permitido tolerar certas transgressões, incompatibilidades, humores caprichosos e insensatos, belicosos, fleumáticos, uma distância enorme entre os lugares que habitamos nos espectros políticos e a certeza absurda de que é justamente aí que devemos firmar pé.

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