aquela vez em que cozinhamos pra uns stalinistas

Quando meu amigo me disse que tinha conseguido encontrar ópio em Coimbra, resolvi imediatamente colocar a cidade na rota de minha viagem.

Foi um janeiro alegre como há muito não vivia. Junto de uma outra viajante, telepata e dona de todos os outros talentos necessários aos viajores, atendendo pelo nome das musas de Manoel Carlos (Helena, para os desinformados), perfiz uma viagem que bem poderia ter sido mais longa, mas que, dentro de suas limitações, nos colocou para conhecer aquele belíssimo triângulo que desponta na esquina do Atlântico: Portugal, Espanha, e Marrocos.

Voltávamos das terras marroquinas, ainda um pouco embriagados de haxixe e perdidos nas sutis mudanças dos fusos horários. Na brevidade de uma semana no Marrocos, conseguimos colecionar algumas historietas interessantes, depois de termos nos perdido na Medina, depois de muita barganha e de padecer nas corcovas de um camelo um tanto rude, depois de ter dançado ao som do batuque berbere à semelhança de uma odalisca barbuda, depois de dormirmos agarrados um ao outro sob o aconchego de quatro camadas de pesados cobertores numa tenda no deserto Saara, próxima da fronteira com a Argélia, depois de uma sacolejante carona com um motorista árabe que adorava danoninho e se vestia como um membro dos Panteras Negras, depois de conviver alguns dias com uma caravana de turistas chineses que tinham mesmo muita dificuldade de mastigar com a boca fechada, e finalmente, depois de termos suportado até o limite do tolerável aquele tempero marroquino a que chamam za’atar, cuja serventia se mostrou de uma polivalência ímpar, posto que o colocavam até na pizza e na macarronada, regressamos à saudade da união ibérica, e fomos apoitar numa república universitária centenária, na zona alta de Coimbra.

Era inverno e a cidade estava fria e chuvosa. Depois dos dias ensolarados que eu já tinha visto em Lisboa e em Marrakesh, não foi uma boa primeira impressão. O táxi nos levou até a Alta, na Rua da Matemática, e não demorou pra que encontrássemos a Real República dos Inkas, em meio a um monte de outras moradias universitárias cuja semelhança remeteria àquelas que encontrei um dia na longínqua Ouro Preto.

Meu amigo, Lucas, foi quem nos recebeu. Conheci-o no Brasil, e nessa altura cursava Filosofia em Portugal. Estava sozinho em casa quando chegamos. Os outros moradores tinham saído pra fazer não sei o quê.

Pra quem já entrou numa república de estudantes tradicional, no Brasil ou em Portugal, a descrição da casa dispensaria comentários. Lucas fez questão de nos explicar a decoração, e nos apresentou os quartos. O chão era todo de madeira, mas o pé-direito, ao contrário das casas com mais de trezentos anos, não era tão alto porque a casa ficava então numa espécie de subsolo de um sobrado. A moradora de cima, dona de ânimos um tanto incompatíveis com aqueles em que viviam os universitários boêmios, sempre se envolvia em atritos com alguns deles, conforme assim fiquei sabendo.

Numa das paredes li uma citação de Mao Tse-Tung da qual já não me lembro. No muro do quintal, nos fundos, notei a presença repetida de inúmeros símbolos comunistas. Eu já tinha presenciado um ou outro fora Temer pichado nos muros do bairro, mas não pensei que a adesão aos símbolos fosse tão severa no Velho Continente, acostumado que eu estava ao desapego, à falta de seriedade e à pós-modernice imperante nas terras tupiniquins.

A casa era forrada de livros velhos, imagens cômicas, frases de efeito, fotos de antigos moradores, e desenhos feitos direto na parede. Na sala central, uma pintura combinava motivos incas com uma paisagem tipicamente andina. Naquele instante, lembrei-me de uma outra viagem que tinha feito, há alguns anos, para Cuzco, e da qual não guardava recordações muito boas. É que, naquela ocasião, fui levado para conhecer a maravilhosa Machu Picchu num estado de ressaca que, de tão colossal, me parecia de fato algo completamente novo, sendo a maravilha arquitetônica uma novidade menor do que a enxaqueca – resultado da noite anterior na qual passei bebendo pisco na companhia de duas brasileiras que tinha conhecido ali mesmo. Pois a ressaca me era tanta, e tão dolorosa, que não consegui suportar o som das flautinhas peruanas que tocavam clássicos da música universal, tais como Hotel California e Let it Be, que vomitei lá mesmo, no meio das históricas e milenares ruínas pré-colombianas.

Nessa pintura na parede da república também notei a figura de uns ícones de pedra nos quais estava inscrita a filosofia da casa.

“O que é isso?”, perguntei.

E Lucas então recitou pra nós, com alguma dificuldade, a mensagem embutida ali. Era algo sobre comer e beber na companhia dos seus melhores amigos.

Na parede da frente havia outra pintura: uma mulher de cabelo cor de laranja, em meio às folhas de uma floresta, soprava os nomes dos fundadores da casa com a fumaça verde que tragava de um bongue.

Como todas as tradicionais repúblicas de Coimbra, os Inkas (com k mesmo) comungavam com certa simbologia onipresente na cultura universitária local, tais como as colheres de pau que os veteranos usam para castigar os calouros, batendo-lhes nas mãos até sangrarem as unhas.

Segundo meu amigo Lucas, no entanto, essa barbárie que cabia aos trotes mais antigos, não tinha sido preservada pelos últimos moradores. Pra colocarmos a conversa em dia, resolvemos sair pra comer alguma coisa e beber um vinho num bar ali próximo e que ficava acho que só a duas esquinas de distância. Deixamos nossas mochilas ali mesmo, nos sofás da sala, guardadas por um cachorro velhaco e ranzinza a quem chamavam Bóris, não sei se em homenagem ao Iéltsin ou ao Karloff, e que ficava eternamente repousando num puff.

No bar, que se chamava Biafra Bambolê, e que combinava aquele climazinho cult universitário com uma atmosfera aconchegante, bebemos vinho e conversamos sobre muitas coisas que nos passavam pela cabeça, como assim costuma suceder aos viajantes que por acaso se encontram pelo caminho. Ele estava ansioso pra me relatar sobre as suas descobertas envolvendo os gurus da consciência, tais como Robert Anton Wilson e Timothy Leary. A psiconáutica e a ampliação da consciência eram temas recorrentes no meu círculo de amizades naquela época.

“Tive de fichar o Prometheus Rising. E você precisa ler o Illuminatus.”

Depois Lucas me contou algumas de suas aventuras, tais como uma malsucedida tentativa de mochilão pela Espanha e a sua séria dificuldade em compreender as dinâmicas das rodas de baseado lusitanas.

“Porra, você sabe como é no Brasil, não sabe? A gente faz a roda, cada um fuma uma quantidade razoável de tragadas, e aí passa, não é?”

“Pois sim, nada demais.”

“Aqui eu já vi um indivíduo resolver fumar o baseado inteiro até o final, no meio da roda, e as coisas ficarem por isso mesmo!”

Papo vai, papo vem, não lembro de qual assunto surgiu entre nós a convicção de que, dentre os povos da Europa, os irlandeses são os mais loucos, não apenas pela sua reconhecida aptidão para o alcoolismo, mas também pela coleção de causos estranhos que qualquer um poderia contar e nos quais sempre encontraríamos um irlandês atuando ou como protagonista ou coadjuvante, em alguma medida.

Assim foi o dia em que o um irlandês apareceu subitamente na República dos Inkas, sem ter sido convidado, e ficou pra participar dos festejos e feriados de fim de ano, tendo mesmo estragado todos esses eventos devido ao seu excesso de embriaguez, e ainda levado um soco no meio da boca, desferido por um dos moradores da casa.

Essa, pelo que eu soube, havia sido a primeira de muitas discordâncias entre Lucas e os outros moradores dos Inkas.

Meu amigo ainda me contou sobre as celeumas e conflitos que punham em contraste as diferentes repúblicas universitárias, aquelas que lutavam pelo fim do trote (que por eles era chamado de praxe) e as outras que brigavam para preservá-lo tal e qual sempre havia sido (os ditos praxistas).

Foi lá que eu soube de onde nascera então a inspiração para o modelo escolhido como o uniforme dos bruxinhos de Hogwarts. Dois manequins vestidos a caráter estavam pendurados na varanda de uma república, como que enforcados, um aviso muito bem-dado àqueles que ousassem compactuar com o estilo conservador e tradicionalista dentro do qual funcionavam as irmandades mais arraigadas à prática da praxe violenta.

Lucas me explicou sobre o complicado esquema das hierarquias, mas não eram coisas lá tão interessantes, apesar de constrangedoras e bizarras. O assunto, no entanto, serviu como introdução para a notícia mais engraçada que poderíamos ter compartilhado naquele dia: ele tinha acabado de ser expulso da Real República dos Inkas, e era ali mesmo que ficaríamos hospedados.

“Qual a razão?”, perguntei a ele.

“Segundo eles, eu não tenho espírito coletivo o suficiente, e minha individualidade é um problema pra casa.”

“Quê?!”

“Provavelmente porque não respeitei a hierarquia, não compactuei com algumas pequenas regras que envolviam o dinheiro a ser gasto, ou então porque levantei demais a minha voz em alguma reunião.”

Eu e Helena nos entreolhamos, e acho que tínhamos a mesma pergunta pra fazer:

“Mas será boa ideia a gente ficar hospedado ali, nessa situação?”

“Ah, não esquenta não. Vou ficar por mais um mês ainda. Eles não se importam muito.”

Fiquei pensando na falta de educação que havia sido deixar as mochilas jogadas nos sofás.

“Eles também não vão ligar pra isso”, Lucas quis me tranquilizar.

Mas, em tese, isso lançava dúvidas sobre a possibilidade de concretizar um dos mais nobres e verdadeiros propósitos que me levaram até Coimbra: a chance de fumar ópio de verdade. A mercadoria só poderia ser conseguida mediante a ajuda de um de seus amigos e moradores da casa.

Lucas havia me contado sobre os efeitos e a experiência: “olha, é questão de fumar e aterrar. Deixe pra fazer isso num dia em que não existam compromissos”.

Então perguntei a ele se o contato responsável pelo fornecimento teria algo pra nos conseguir até o fim de nossa estadia ali, e ele me deu a resposta que eu não queria ouvir:

“Pouco provável”.

Tentei esconder um pouco da minha decepção, mas o restante da conversa foi suficientemente interessante pra que eu não permanecesse muito tempo desapontado.

Foi quando meu amigo me explicou a ideologia segundo a qual funcionava aquela estranha comunidade instalada na tal República dos Inkas. A maior parte dos membros era assumidamente stalinista. Até então, em toda minha preguiçosa e ambígua vida política, o único adepto dessa absurda facção do marxismo que conheci tinha sido um velho senhor que encontrei numa das únicas reuniões de partido da qual participei em minha vida, no comitê do Partido Comunista Brasileiro, no interior do estado de São Paulo.

Naquele dia pude ouvir inúmeros elogios à política de estado do camarada Stálin, da sua honesta luta contra a burocracia e contra o complô judaico no Kremlin, de seu compromisso com os trabalhadores do mundo, além de muitas outras críticas ao distanciamento dos nossos intelectuais brasileiros, intelectuais de gabinete, em relação ao povo e à classe operária, que não mais compreendiam aquela que deveria ser a sua base de apoio para as próximas eleições ou, para quem sabe, a futura revolução socialista que ninguém quando é que vai ser.

Pensei que absurdos desse tipo estivessem em extinção. Pensei ainda que os europeus fossem um tantinho mais inteligentes, principalmente estes que aqui estudavam na 16ª universidade mais antiga do mundo e que deviam saber que, a essa altura, assim como a suástica, a foice e o martelo também teriam sido proibidos em alguns lugares no mundo nos quais tal ideologia se associou a massacres, genocídios, perseguições e proibições.

Ledo engano, ou um tolo romantismo de minha parte, talvez um romantismo até maior que o deles, esse de imaginar que a juventude universitária europeia fosse mais esclarecida que a brasileira.

“Afinal, são só um bando de jovens sem muitas oportunidades de botar à prova suas convicções”, lamentei.

Tontos de vinho, no retorno à casa, pensei ainda em cantarolar pros meus amigos alguns versos daquela canção do Zeca Afonso, Grândola Vila Morena, um hino da Revolução dos Cravos que eu havia memorizado para cantar exatamente neste momento, quando estivesse bêbado, inspirado, e caminhado ao lado de boas pessoas. Mas tive ainda de ouvir a admoestação de meu amigo:

“Eles não são muito simpáticos à Revolução dos Cravos”.

“Deixa eu adivinhar”, eu disse, “pra eles foi uma revolução burguesa, estou certo?”

“Corretíssimo”.

Helena deu risada.

“Só porque não houve derramamento de sangue, não é?”

“Além disso, o Zeca Afonso também foi morador dos Inkas. Eles tiveram vários moradores ilustres”.

“Como é?!”, por essa eu não esperava, simplesmente porque eu realmente gostava das músicas dele, sem nenhuma ironia.

“Morou aqui nessa casa e ainda foi expulso. Disseram que ele era muito bagunceiro. Então também não gostam muito dele.”

“Meu Deus!”

“E o Saramago costumava frequentar essa casa aqui ó”, ele apontou para a porta antiga de uma casa ainda mais antiga.

Alguns momentos antes, eu tinha reparado que na porta de um velho casarão alguém colocou uma placa:

Aqui viveu o poeta fulano de tal, nascido em X e morto em Y, que nos deixou grandes obras tais como bla bla bla bla bla bla”.

Voltamos à casa e lá já estavam os outros moradores, ouvindo no último volume, com um som bastante potente, aquele disco muito interessante do La Femme: Psycho Tropical Berlim.

“Bom gosto, pelo menos, eles têm”, pensei comigo mesmo.

Era muita gente. Pareciam mais velhos do que a idade que tinham, todos barbados e agasalhados. Cumprimentamo-nos. Entreguei a meu amigo a encomenda que ele me havia pedido pra trazer desde o Brasil: dois maços de cigarros de palha, inencontráveis em qualquer outro lugar do mundo que não na Terra de Santa Cruz. Seus olhos brilharam e ele dividiu alguns cigarrinhos com os seus camaradas, que aprovaram o fumo. Então ele resolveu nos levar aos nossos aposentos. Era uma edícula que ficava no quintal, um tanto bagunçada, com um colchão de casal e lençóis e travesseiros embevecidos de um perpétuo cheiro de cachorro molhado.

Fiquei sabendo que os moradores costumavam espalhar boatos sobre aquela edícula, alegando que ali, durante os anos da ditadura do Salazar, chegou a funcionar uma imprensa clandestina e subversiva. Mas eram só lorotas.

Antes que o jantar ficasse pronto, saímos pra comprar mais vinho e voltamos com, ao todo, 16 garrafas de ótimos vinhos.

Ao início de todas as refeições, os membros da casa tinham o costume de bater um sino pra convocar a todos. Sentamo-nos numa grande mesa retangular, e iniciamos o jantar. Não lembro em quantos éramos, mas muitos, na maior parte homens, e acho que três mulheres, contando com Helena.

Acho que foi ali que me senti de novo tão turista quanto em Marrakesh ou em Lisboa. Vícios de um historiador, prestava atenção em tudo como se aqueles gajos fossem exemplares de uma realidade exótica que deveria ser preservada para futuros estudos. Conversavam sobre as eleições na França, sobre o primeiro transexual português, que foi violentamente morto por uma perseguição do governo, mas a verdade é que, enquanto eu comia aquele delicioso feijão preto, a minha vontade era de perguntar a eles, tal e qual o antropólogo que pergunta ao aborígene sobre os aspectos de suas crenças:

“Mas e essa história de stalinismo? Por favor, me expliquem.”

E pra um ocasional desentendimento entre nós, eu daria um murro na mesa e diria em alto e bom som:

“Eu sou um anarquista! Um amante da liberdade, e um inimigo de todos os governos humanos ou divinos!”.

Mas jamais cheguei a ter oportunidade, e essa bravata toda nunca foi além de um mero ensaio mental de minha parte.

Vendo-os falar com tanta liberdade, e entre seus semelhantes, naquela dicção do português ibérico, ainda cheio de gírias e maneirismos, eu era visitado por outra lembrança, conservada em minha memória pela insistência de um velho tio que, durante os anos de juventude, vivera em Portugal, onde estudou engenharia. Era uma história frequentemente citada em minha família, segundo a qual este mesmo tio, ao contratar os serviços de uma prostituta, foi por ela perguntado:

“Não queres comer minha peida?” – pergunta que teria alcançado no idioma brasileiro uma variação mais palatável: “não quer comer meu cu?”, ou “não quer comer meu rabo?”.

Ao que ele teria respondido: “eu até queria, mas agora já não quero mais”.

Sabendo que os lusitanos tinham essa preferência por expressões que na nossa língua vernácula brasileira alcançam sentidos inevitavelmente cômicos, também me recordei que “afiambrar uma miúda” era o equivalente a “fazer sexo com uma mulher bem nova”.

Assim era, assim seria.

Decidimos cozinhar pra eles no dia seguinte, como pagamento por nossa estadia. Eu não sabia cozinhar receita alguma, então a responsabilidade seria toda de Helena, por sinal a única vegetariana naquela mesa toda. Lucas e os outros aprovaram a ideia.

Findada a janta, iniciamos os trabalhos, começamos a beber, e, de baseado em baseado, iniciamos um pequeno tour pelas repúblicas universitárias da Alta, seguindo Lucas na sua busca por entorpecentes. Acho que fomos em ao todo três outras moradias, mas não me lembro o nome de nenhuma delas. Lembro-me é de entrar em pequenas salas e cozinhas enfumaçadas e abarrotadas de gente doida, alguns vestindo trapos e com os dentes podres, gente tendo conversas malucas, e então cumprimentar todo mundo, participar com três ou quatro comentários de cada uma dessas conversas e responder a uma ou duas perguntas feitas por esses curiosos, depois sair e nunca mais ver de novo nenhuma dessas pessoas.

Mas foi numa dessas que Lucas conseguiu um pouco de MDMA pra utilizarmos naquela noite. Na ausência do ópio, resolvemos ingerir todas as substâncias coletadas ao longo daquelas poucas horas, e acabamos misturando tudo e rumando pra uma provável balada onde nos teriam prometido uma discotecagem de drum techno, em que o DJ era o próprio traficante e principal fornecedor de toda aquela malta universitária.

Até então nunca em minha vida eu tinha parado pra escutar drum techno, então não sabia muito bem o que esperar. Era uma vertente da música eletrônica que não me interessava nem um pouco. Se me tivessem dito que era o mesmo estilo de música que a gente costuma ouvir nesses filmes pornôs russos obscuros e que servem de trilha sonora pra modelos loiras e de olhos azuis ficarem se exibindo pra estranhos eslavos do submundo, acho que eu teria proposto outra coisa ou pensado duas vezes antes de embarcar.

Era uma música tão rápida e poluída, tão cheia de viradas e mudanças de ritmo, que me parecia simplesmente impossível de dançá-la. O único capaz de fazer isso, na pista de dança, era um português vestindo um macacão ADIDAS que dançava como se estivesse correndo ou fazendo um exercício intenso de aeróbica. A balada acontecia numa galeria de vidro e piso branco de quatro andares. Entrava-se pelo térreo, mas a pista ficava no subsolo, e o banheiro no terceiro andar. Num determinado momento, conforme as substâncias se misturaram, tudo ficou muito bagunçado e brilhante, então é difícil recordar a verdadeira sequência dos fatos. Mas eu me lembro de alguns deles.

Lembro-me de que, num dado momento, eu, meu amigo, Helena, e mais uma garota polonesa ou húngara, entramos todos juntos no banheiro pra dividirmos uns comprimidos de ecstasy. Lembro-me de discutir apaixonadamente sobre assuntos de religião e paganismo com Lucas e de que, enquanto conversávamos, Helena fazia amizade com todos os outros moradores da República dos Inkas, tendo neste meio-tempo divulgado a todos eles alguns de seus conhecimentos recém-obtidos na área da bioconstrução e permacultura. E lembro-me também, não sei como, de uma conversa que tivemos a três, eu, ela, e um outro traficante (um careca) que apareceu no elevador nos oferecendo ketamina ou metanfetamina, não sei bem o que era, mas sei que preferimos não levá-lo a sério, e isso o deixou um tanto ofendido, mas curioso com aqueles dois brasileiros loucos e tagarelas.

“O que vocês dois são?”, ele nos perguntou, querendo saber se éramos marido e mulher, namorados, ou apenas amigos.

Olhei para Helena.

“Somos uns viajantes amantes que estão se iniciando nos mistérios da telepatia”.

E lembro-me do que, mais tarde, subindo ou descendo naquele movimentado elevador, ela me teria perguntado:

“Você não tem ciúmes de mim?”

“Eu adoro te ver conversando com todo mundo e fazendo amizade desse jeito”.

Falávamos como se tivéssemos cheirado um caminhão de cocaína.

“É sério”, ela enfatizou a pergunta.

“Eu fico admirado de ver, porque é um talento que eu não tenho. Eu adoro, eu amo, eu acho lindo de ver”.

Não sei se pareci irônico no que eu dizia, mas eu pensava naquilo como os verdadeiros dons dos viajantes, os sorrisos e as palavras que nos abrem os caminhos, desde o Ulisses descrito por Homero, muito mais do que a beleza colérica e cismática de sua Helena de Tróia: a boa fala, a amizade de todos, como uma ninfa imortal conhecida por todos e por ninguém.

Estava chuviscando quando saímos dali e tomamos a direção de outra balada. No meio do caminho passamos por baixo da muralha.

“Isso aqui foi construído pelos romanos”, Lucas comentou.

Não foi uma caminhada fácil. As ruas eram subidas bem longas, e os degraus estavam molhados. Comentei com um dos inkas, enquanto caminhávamos com dificuldade subindo íngremes ladeiras, a respeito da máxima de um velho viajante português, a quem teria um dia parecido muito mais aceitável e preferível urinar em um muro do que numa privada.

Mas ele não entendeu bem o que foi que eu disse.

À frente do estabelecimento escolhido para o restante da nossa noite de diversões, encontramos um cão felpudo e molhado, amarrado a um poste iluminação, tremendo de frio sob a chuva. Sua dona, supostamente, teria entrado na casa noturna e deixado o cão ali, padecendo sob condições climáticas adversas. Chegamos a ponto de impedir que uma brasileira roubasse o cão sob o pretexto de salvá-lo. Logo em seguida chegou a dona, incomodada com a intervenção da brasileira.

Entramos e lá dentro as condições não eram tão melhores que as de fora. Estava tudo um tanto escuro, e nos encontramos logo vulneráveis à seleção de clássicos do rock chiclete tais como Roadhouse Blues Sweet Child O’Mine,  enquanto éramos ainda bombardeados por televisores que traziam uma incessante exibição de mulheres vestindo biquínis em praias paradisíacas.

“Eu acho que os portugueses precisam disso pra se excitar”, Helena comentou comigo. “São um povo triste, de pouquíssimo apetite sexual”.

“Bem observado”, respondi.

“Estou com vontade de xavecar essas portuguesas lindas”.

Olhei ao redor e notei que o padrão da balada era mesmo bem alto.

“Vá em frente. Não passe vontade”, sugeri a ela.

Em vez disso ela terminou fazendo amizade com o segurança do estabelecimento, um brasileiro dono de péssimos conselhos.

Na pista de dança uma garrafa d’água com MDMA era compartilhada pelos inkas, e eu não conseguia parar de ir ao banheiro.

Naquele turbilhão todo, acho que foi a primeira vez que eu e Helena dissemos “eu te amo” um pro outro.

O dia amanhecia e ainda chovia quando fomos embora. Devia ser domingo. No caminho de volta fomos mais uma vez interpelados por aquele traficante careca, que dessa vez gritava do alto de uma escadaria:

“Helena! Helena! Venha cá!”

Ao que ela comentou comigo, bem baixinho:

“Que cara mais louco, vamos embora daqui…”

De volta ao quartel-general, fomos direto pra cama, enquanto Lucas e os outros ouviam música num volume bem alto, acordando inclusive os outros moradores da casa que dormiam tranquilamente àquela hora. Lembro-me de adormecer enquanto ouvia as suas vozes entrando pela fresta da porta da edícula. Lá no quintal, conversavam sobre Hunter S. Thompson e o jornalismo gonzo.

Fiquei entediado naquele momento, como se estivesse a sentir a ressaca antes mesmo dela chegar de verdade. Fazia frio, e um cobertor a mais não seria má ideia.

Helena estava quieta, mergulhada em pensamentos inacessíveis, como se houvesse desligado a sua telepatia. Balbuciava alguma coisa ou outra sobre si mesma, e dizia que não tomaria nunca mais nenhum tipo de MDMA barato. Abracei-a, e ficamos assim, abraçados sob as cobertas. Meus pés estavam frios, e os pés dela fugiam dos meus.

Demorei muito pra adormecer, e mesmo quando consegui, meu sono foi leve e entrecortado por todo tipo de interrupção sonora.

Levantamo-nos às 16 horas e iniciamos os devidos ritos de higiene necessários a um bom despertar. Pedi ao Lucas por umas toalhas.

“Não dormi até agora”, ele me disse. “Estou como naquela música do Queens of the Stone Age.”

“Qual?”

Nicotine, Valium, Vicodin, marijuana, ecstasy and alcohol, as drogas todas que o camarada usou na mesma noite”.

“Mas com algumas mudanças, claro”.

“Nicotina, maconha, MD, ecstasy, cocaína, e vinho”.

“Ah, a juventude!”, exclamei, lembrando-me neste momento de que meu amigo era algo como cinco anos mais novo que eu, e por isso, muito mais dado à pilhéria e ao otimismo de conviver com essas trupes de pândegos.

Helena e eu não nos recuperamos muito bem da noite anterior. Lucas e alguns dos outros que não tinham dormido, pareciam ainda engatados em ponto-morto, como zumbis ou sonâmbulos.

“Vamos cozinhar?”, perguntei a Helena. “Qual é o cardápio?”

“Pensei em bruschettas e num risoto de queijo com cogumelos”.

“Belíssima ideia.”

Fomos atrás dos ingredientes, e tudo saiu bem mais demorado do que eu imaginava, a caminhada, o supermercado, e até a preparação da janta.

A cozinha era apertada e desconhecida. As proporções das panelas eram enormes, e as facas não eram nem um pouco afiadas. Enquanto cozinhávamos, notei que um dos líderes da casa, ou, se assim é possível dentro de um contexto mais ou menos stalinista, o membro mais velho e mais imbuído de autoridades, discutia com Lucas sobre o seu comportamento e a sua inadequação ao regime dos inkas.

Fiquei profundamente incomodado com aquilo. Não com o teor da conversa, mas incomodado em ver que meu amigo realmente estava disposto a cooperar e a colaborar com o esquema, dando mesmo demonstrações de que considerava injusta aquela arbitragem, e que queria de fato ser admitido na associação.

Helena ficou preocupada, mas, concentrada em preparar com eficiência a janta, e entregá-la o mais rápido possível, passou a me dar ordens.

“Mexa com a colher enquanto eu ponho água, e não pare”, ou, “lave essa panela”, ou “corte essa cebola e esse queijo”.

Foi até o quintal e voltou com uns limões sicilianos que cresciam numa árvore ali mesmo, e então ralou umas lascas da casca e colocou no risoto.

Minha dor de cabeça era lancinante, e eu parecia viver um sonho. O dia não tinha começado de verdade, estava tudo cinzento e chuvoso, e a noite caiu muito cedo. A casa era naturalmente bagunçada, mesmo que tudo estivesse limpo. Eu olhava para o quintal e via uma única toalha molhada com a chuva, estendida no varal. Pessoas entravam e saíam o tempo todo, e os estilos musicais sofriam guinadas bruscas à vontade dos membros da casa que revezadamente se levantavam e iam até o computador trocar de música.

Felizmente as coisas melhoraram depois da janta. O alimento foi o combustível de que todos precisávamos pra uma mudança no humor. Não deixamos de beber vinho em momento algum. Um dos moradores bateu o sino, e nos juntamos mais uma vez à mesa. Estávamos em menor número do que na noite anterior, e alguns amigos da república, provenientes da vizinhança, compareceram e acharam as bruschettas deliciosas.

“Nunca vi fazerem desse jeito um risoto, mas está ótimo”, um deles comentou.

“Muito bom. Obrigado”, foi o que um outro disse.

As conversas se tornaram mais brandas. Enquanto ouvíamos uma seleção de músicas angolanas, falamos sobre literatura, precisamente Lobo Antunes e a sua experiência de escrever sobre um acidente cardiovascular. Depois Lucas mencionou que tinha começado sua leitura de Graça Infinita, de David Foster Wallace, e eu disse que o achava muito prolixo e preciosista.

“Por falar nisso, quando é que você vai terminar aquele seu livro?”, ele me perguntou, a respeito do romance que eu escrevia.

“O de 800 páginas? Nunca. Já até desisti.”

Depois discutimos sobre a influência celta nas palavras portuguesas, conversa que me rendeu o conhecimento da proveniência da palavra manteiga. Ainda tivemos tempo de considerar a hipótese de o povo hebreu ser originariamente politeísta, questão levantada por uma notícia oriunda dos meios dos estudos clássicos. E, por fim, me surpreendi ao constatar que era, dentre todos os presentes, a pessoa mais velha, muito embora na aparência me achasse bem mais jovial que os lusitanos.

Depois fomos curiosamente visitados por um casal de outros viajantes que na verdade ninguém ali conhecia. Tinham, segundo eles, ouvido falar da Real República dos Inkas pela Internet, em algum fórum, e, sabendo que ali a porta nunca se trancava, vieram conhecer e compartilhar do vinho e da maconha. Mas não ficaram muito, e foram embora logo em seguida.

Os inkas nos convidaram para outra noite de diversão, mas Helena e eu queríamos dormir cedo pra pegar o primeiro ônibus pra Lisboa no dia seguinte. Os moradores da casa nos convidaram pra ficar mais um dia e aproveitar a festa de centenário que seria na outra noite, mas não queríamos prolongar nossa estadia ali.

Dormimos cedo e acordamos cedo. Foi uma boa noite de sono. Levantamo-nos e fomos embora enquanto todos os outros da casa dormiam, arrebentados de duas noites consecutivas de drogas e música alta. Fui ao quarto de Lucas me despedir de meu amigo, mas tudo o que ouvi dele foram uns resmungos dos quais ele nem mesmo se lembraria depois.

Fomos embora andando, sem vontade alguma de pegar táxis. A caminhada era só descida. A manhã estava fresca e paramos numa pastelaria antes que fôssemos tomar o ônibus.

Quando embarcamos ainda discutíamos, com certa preocupação, o estado de nosso amigo, e concordamos que ele precisava, com certa urgência, se mudar pra longe dos inkas.

O stalinismo ali era o menor dos males.

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