ao fim das viagens

Os seres humanos aprenderam a viajar a partir do momento em que abandonaram o nomadismo. A necessidade das viagens nasceu quando as comunidades humanas se sedentarizaram. Sim, porque enquanto vivíamos mudando de um lugar para o outro, viajar era uma impossibilidade. Mas quem foi que empreendeu a primeira viagem, e por quê?

E a partir de que momento da história humana foi que nós começamos a gostar de viajar?

É verdade que nem todos gostam desse negócio de ter de fazer as malas, tomar um ônibus, um avião, passar um tempo num hotel e depois voltar pra casa. Mas essa é só uma das formas contemporâneas de viajar. Quer dizer, empreender uma viagem nem sempre foi a mesma coisa, e nem sempre teve o mesmo significado que tem hoje.

O filósofo Sêneca, em suas Cartas a Lucílio, nos diz o que pensa um estoico sobre a arte de viajar, e faz suas recomendações:

“Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples fato de viajar? Não é isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paixões eróticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. Não faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas detém a atenção momentaneamente pelo atrativo da novidade, como a uma criança que pasma perante algo que nunca viu! Além disso, o contínuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (já de si considerável!) do espírito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, vão-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar nos dá a conhecer novas gentes, mostra-nos formações montanhosas desconhecidas, planícies habitualmente não visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgotáveis; proporciona-nos a observação de algum rio de características invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Verão, o Tigre, que desaparece à nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das elucubrações dos poetas, contorcendo-se em incontáveis sinuosidades, fazendo incessantemente ainda mais um circuito antes de enfim descansar no leito de que se aproxima. Mas viajar não torna ninguém melhor de caráter nem mais são de espírito. Teremos de nos aplicar ao estudo, de frequentar os mestres da filosofia, a fim de assimilarmos os princípios já estabelecidos e investigar o que ainda está por descobrir. Só assim a alma se pode arrancar à mais dura servidão e alcançar a verdadeira liberdade. Enquanto ignorares a distinção entre o evitável e o desejável, o necessário e o supérfluo, o justo e o injusto, o moral e o imoral — nunca serás um viajante, mas apenas um ser à deriva.As tuas deambulações não te trarão qualquer proveito, já que viajas na companhia das tuas paixões, seguido sempre pelos males que te dominam. E bom era que estes males apenas te seguissem! Bom era que eles estivessem longe de ti! O que se passa, porém, é que os levas em cima, e não atrás de ti. Deste modo, onde quer que estejas, eles oprimem-te, destroem-te com a mesma virulência. Como pensar que a sabedoria, a mais importante das artes, se pode adquirir saltando daqui para acolá?! Podes crer que nenhuma viagem te põe ao abrigo do desejo, da ira, do medo; se tal fosse o caso, todo o gênero humano começaria em massa a viajar. Estes males não cessarão de atormentar-te, de desgastar-te ao longo das tuas viagens, terrestres ou marítimas, enquanto tiveres em ti as suas causas. Admiras-te que de nada valha fugir quando tens dentro de ti aquilo de que foges?”

As admoestações do filósofo estoico são uma expressão muito explícita dos princípios tomados como centrais para a arte da vida: as viagens não têm nada a contribuir para a moderação das paixões. Pelo contrário! As viagens não podem possuir qualquer relação com a busca pela felicidade.

Quão impopular essa visão pode parecer hoje em dia, quando viajar se tornou, até mesmo, uma terapia?

O termo Wanderlust (“vontade de viajar”, em inglês, mas de raiz alemã) sintetiza essa vontade em nossos tempos. É um termo de vasto uso na publicidade e nas propagandas de viagem. Pois que se há uma atividade humana que a globalização elevou a um nível que jamais teria sido alcançado em outro momento, é a da viagem – atividade que, uma vez apropriada pelo mercado do consumo, é convertida em turismo.

Para um estoico como Sêneca, que já naquela época parecia estar lidando com o mesmo tipo de argumento que hoje pesa em favor do viajar (conhecer coisas novas e diferentes), a alteridade não é uma questão em jogo. Isso tudo são distrações. Em nada operam para o aperfeiçoamento do espírito, e nem tampouco deixa os indivíduos preparados para os reveses da vida. O que ele diz é claro, e não merece que eu o repita: não há nada que seja mais contrário à apathea (indiferença às coisas externas ao ser) recomendadas pelos estoicos do que viajar segundo seus interesses.

O que é, hoje, empreender uma viagem? Muito mais próximo do hedonismo do que do estoicismo, viajar tornou-se justamente aquilo sobre o qual Sêneca prevenia seus contemporâneos: dar lugar aos prazeres, conhecer coisas novas e interessantes, e procurar por experiências que nos demovam, ainda que minimamente e segundo scripts já estabelecidos, do nosso próprio eixo. Isto não é uma coincidência histórica, contudo, e as semelhanças com o hedonismo se esvanecem na medida em que a coisa se vulgariza. Esse tipo de viagem prazerosa só é possível porque agora dispomos de meios de locomoção extremamente velozes, ao mesmo tempo em que nos encontramos sobrecarregados por nosso próprio trabalho. É só assim que viajar torna-se sinônimo de lazer, porque acontece num tempo separado do tempo comum do dia a dia.

Se antigamente empreender uma viagem levava meses e até mesmo anos, hoje podemos nos dar ao luxo de compactar as viagens. Há um fetiche em testemunhar algo que todos já testemunharam, como o Arco do Triunfo ou as Pirâmides de Guizé. Além disso, a predisposição física que um horário de lazer garante àqueles que o desfrutam é determinante para a experiência que um viajante terá no país que visita: as pessoas tornam-se mais amigáveis, mais interessadas em museus, em igrejas, em livrarias.

Mas o sonho da razão produz monstros. É claro que, após uma profissionalização de tudo aquilo que envolve o viajar, e o surgimento de um mercado e de toda uma estrutura social que dependa disso, encontraremos alguns excessos, deformidades, aberrações. O turismo predatório, o turismo sexual. Gringos vestidos de Indiana Jones pensando que vão explorar ruínas incas com suas máquinas Nikon – é o que faz um peruano vestir-se de Manco Capac para tirar fotos com os turistas que vão conferir de perto a pedra de doze ângulos no muro de Cuzco.

Viajar não é fazer turismo e prazer não é lazer, muito embora essas quatro coisas sejam, hoje, quase sinônimos – pacote nos querem empurrar depois que viajar tornou-se tudo isto, como um convite para fazermos parte de uma rede que vai dos couchsurfings, AirBNB’s, à autoridade do TripAdvisor. A capitalização de todas as relações humanas possíveis.

E o que há de errado nisso, de verdade? É muito melhor que hoje possamos viajar de graça, pegando carona, do que se tivéssemos de levar conosco bens que não fossem apenas dinheiro, para trocar a fim de conseguirmos um pernoite ou uma refeição.

De uma forma ou de outra, sempre viajamos, sozinhos ou em bandos. É algo que fazemos desde há muito tempo: guerrear e viajar. A Ilíada e a Odisseia. À parte a nossa comum ancestralidade seminômade, viagens eram feitas com diferentes propósitos muito antes dos beatniks resolverem cair na estrada com seus carros roubados.

Buda perambulou durante muito tempo antes de alcançar a iluminação (qual foi o messias que não viajou?); peregrinos medievais, depois disso, viajaram com propósitos religiosos em suas caravanas: visitar os santos, como nos Contos da Cantuária; o comércio, o intercâmbio de bens ou de ideias, também sempre dependeu de viagens – a rota da seda, os paebirus, antigos canais de comunicação na nossa cartografia; quantas cidades não nasceram como miseráveis pousos para os viajantes?; Charles Darwin lapidou sua teoria da evolução ao longo da viagem que fez a bordo do HMS Beagle, a partir das evidências que coletou da observação que fez de naturezas singulares, distintas de seu continente; como não se comover com as impressões de Goethe, que alega que a temporada que passou viajando pela Itália alterou profundamente o seu ser?; e os índios tupi-guarani que, entregues à sorte da fartura da natureza pré-colombiana, podiam se dedicar a longas viagens pelo litoral, muitas vezes sem garantia nenhuma de que iriam regressar para suas tribos?

Que sentido, por exemplo, tinha o mar, numa época em que a navegação tornou-se o principal meio de se viajar? As viagens que não se davam por lazer, mas pela sobrevivência dos povos, das dinastias. Sem mecanismos que pudessem manter uma comunicação em tempo real com os nossos parentes e amigos, pessoas despediam-se umas das outras sem saber ao certo quando é que se veriam de novo. O mar, para um jovem que nasceu antes do século XX, guardava ritos de iniciação e amadurecimento. A associação aqui, ainda que seja outra, é semelhante a que fizemos antes: viajar é amadurecer. Diante disso, como não se lembrar do primeiro parágrafo de Moby Dick (talvez o melhor primeiro parágrafo de toda a literatura)?

“Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo -, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar”.

A viagem ventila a vida que o sedentarismo asfixia, mas alguém que viaja o ano todo por serviço talvez queira, no horário de lazer, a tranquilidade do lar no qual pode repousar. Para Ishmael viajar é também rejuvenescer. É como abrir as janelas da casa. Mas é, também, uma fuga. Foge-se de si. Não há conceito de viagem que não signifique também movimento, por mais longa que a viagem seja, ou por mais que esteja atrelada ao próprio trabalho. Não era exatamente à viagem entendida como fuga que Sêneca se referia quando disse: “Admiras-te que de nada valha fugir quando tens dentro de ti aquilo de que foges?”.

Melville escreveu sua principal obra no meio do século mais filosófico de todos, o XIX – o século que assistiu à culminação das viagens científicas. Agora, mais interessante do que deslumbrar-se com os mistérios da natureza, era desvendar esses mistérios. Mais importante do que contemplar a criação de Deus, era medi-la.

As viagens científicas que abundaram nos séculos XVIII e XIX são herdeiras do iluminismo e responsáveis por estabelecer marcos e referências para os viajantes que vieram depois. Mais ainda: consiste em nomear, segundo um padrão, as coisas do mundo: a corrente Humboldt; o estreito de Bering; o monte Fitz Roy. Nomear as coisas com o nome daqueles que as avistou para depois relatá-las aos seus povos é algo comum à história humana, e exemplos não faltam, mas se antes, na Idade Média e Moderna, as viagens financiadas pelos governos eram feitas à procura de especiarias ou de aliados, as viagens científicas, de caráter completamente diferente, se constituição numa relação direta de dominação da natureza por parte dos seres humanos. Mapear o mundo, catalogá-los, explicá-lo. Por isso é necessário acumular viagens. Se a Geografia é um instrumento daqueles que querem deter o poder sobre o Outro, também a História, elaborada com o auxílio de inúmeros viajantes, pode ser acusada de crimes semelhantes.

E o que são os diários de certos viajantes senão incipientes ensaios de antropologia? Heródoto, para escrever suas Histórias, viajou como um etnólogo: conheceu templos, participou de jantares estranhos, entrevistou pessoas – inventou muita coisa. Toda sua investigação, assim como a investigação de qualquer viajante, é mediada por uma relação de alteridade. Viajar é entrar em contato com o Outro.

É também por isso que os diários dos viajantes nos servem como importantes documentos históricos: ao testemunhar e falar sobre as diferenças o viajante nos fornece elementos não só da cultura alheia, mas, e o que é mais notável ainda, de sua própria. Falar sobre o Outro é falar sobre si mesmo. É o que Marco Polo diz para Kublai Khan n’As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino: ao falar das tantas cidades diferentes que conheceu, esteve falando sempre de uma, a sua: Veneza. E por que essas imagens, formadas pelos relatos dos viajantes, não haveriam de se tornar a principal paleta de cores de nosso imaginário? O que se pintou do Brasil, com a ajuda de um Saint-Hilaire, não é tão diferente do que foi pintado depois por Portinari ou pelas novelas de época, que recorreram a estes mesmos materiais textuais para compor as telas nas quais dançariam os arquétipos brasileiros: ilusões de singularidade. A antropologia produzida pelos diários dos viajantes é um documento para os historiadores que a leem séculos depois. Uma disciplina age sobre a outra.

As relações de alteridade são impregnadas de turbulências, e suas ocorrências históricas sempre indicam fracassos(caixa de Pandora do qual saíram tantos problemas, e onde ficou a esperança de haver paz um dia – como Kant dizendo que, por ser redondo o mundo, as gentes estão confinadas e condenadas a tolerarem-se, a aprender a conviver umas com as outras, porque não dispõem da opção de debandarem até o infinito, caso o mundo fosse plano e sem fim), mas se num passado o assombro que um jesuíta teve ao ver semelhanças entre os canais de Veneza e os canais de Tenochtitlán, ou os conquistadores, que viram leões e tigres nos zoológicos de Montezuma, ou rouxinóis na selva Amazônica, o signo da diferença sucumbiu ao da semelhança ao longo deste inexorável processo de desencantamento do mundo.

As viagens científicas do século XIX nos deram um século XX sem terra incognita. A fantasia que povoava os relatos das viagens é o que também possibilitava inúmeras tragédias: a viagem que a corte francesa custeou na tentativa de encontrar o maravilhoso reino do Preste João, que mudou de endereço ao longo da Idade Média; as investidas dos espanhóis na busca pelo El Dorado.

As crônicas de Mandeville falam, por exemplo, de pigmeus que guerreiam contra pássaros gigantes, homens com cabeças de cachorro, com orelhas grandes o suficiente para que fossem usadas como cobertores, além de muitos outros absurdos. Marco Polo, de novo, ao regressar do Oriente, conta para os seus contemporâneos sobre o que viu em sua viagem: pólvora; ilhas voadoras; aves que carregavam elefantes. Eles puderam acreditar nas ilhas voadoras, porque pareciam corresponder melhor à imaginação da época, mas um pó explosivo era incrível demais. Os motivos pelos quais os homens são capazes de acreditar em um, mas não em outro, é o mesmo que os faz inventar tais criaturas maravilhosas: ninguém levaria a sério alguém que viajou para longe sem trazer consigo tais narrativas fantásticas. O fantástico poderia servir mais como critério de veracidade do que o contrário, quase como a contraparte da experiência.

A viagem que sempre tencionou essa margem entre o ceticismo e a credulidade é hoje mesmice, é a certeza, sem assombro nenhum, de que vamos encontrar semelhanças onde deveriam haver diferenças. Ao passo em que isso é um valioso reconhecimento da natureza humana, é também a edificação de um único império, que elimina o Outro sem precisar recorrer às desculpas de antigamente, quando o faziam atrelando-o a certa demonologia cultural.

Quem expande as fronteiras desse império são os próprios viajantes.

É talvez isso que queira dizer o Reverendo Wickys Cherrycoke, numa cena intrigante de Mason & Dixon, de Thomas Pynchon, quando defende a história de um viajante como o Barão de Munchausen em detrimento da de um Edward Gibbon. Se queremos preservar ainda algum mundo encantando, que nos faça querer continuar viajando, então a semelhança não deve predominar sobre a diferença. Para ilustrar meu argumento recorro ao caso dos tehuelches, os nativos da Patagônia, que, antes de se tornarem civilizados, eram descritos como tendo 2,5m e até mesmo 3m de altura. Seu porte encolheu à medida em que foram se adestrando. Isso não quer dizer que eles, de fato, fossem tão maiores que os europeus. À fantasia comum que orna qualquer relato acrescenta-se também a liberdade que sempre impressiona um povo que não a detém. Uma espécie de miopia duplicada. No caso do personagem de Pynchon, sua afirmação é também uma espécie de redenção pela literatura, uma tentativa de manter a História livre do interesse dos governos, que a oficializa. Deve-se dizer a verdade sem dizê-la.

Esta parcela de fantasia parece ter sido capitalizada também pela arte, em nossos tempos. Do contrário, de que maneira ela atua num contexto de globalização irreversível? Viagens também são exílios.

É por isso que viajar continua tendo sua utilidade, muito além do que o de fechar negócios. Talvez seja o exercício que mais tenha contribuído para fundar uma coisa chamada humanidade, enquanto um tipo de expansionismo do espírito.

Não é surpreendente concordarmos com Sêneca no que ele diz sobre a impossibilidade de se conquistar a tranquilidade da alma viajando – simplesmente, porque, em sua hipótese, ele pressupõe um viajante que parte com a alma já inquieta. “Frequentar os grandes filósofos” também não é mais nem menos libertador. Até que ponto tal tranquilidade é mesmo desejável? O viajante não deve partir com a alma inquieta, mas regressar com ela neste estado. Tentados a dizer que tal serenidade tampouco pode ser adquirida mediante apenas o estudo, podemos, por ventura, concluir que viajar é sempre uma jornada relacionada ao conhecimento – uma arte da diplomacia, talvez. Mas como será possível desinteressar-se das coisas do mundo? Qual será o material de nossa reflexão? Confissões – um eterno falar sobre si mesmo.

Penso no romance Los Pasos Perdidos, de Alejo Carpentier.

Ao narrar a viagem que um etnomusicólogo faz para a Venezuela a fim de coletar instrumentos indígenas, o autor cubano nos promove uma profunda reflexão sobre o que é viajar: a exposição de um indivíduo, que carrega os referenciais de uma cultura que se propõe universal, a diferentes temporalidades, rastros do passado de mundos inomináveis que persistem, primitivos, medievais, modernos, a visão de um mundo que, por conta disso, ao tornar-se maior, faz sentir menor aquele que o habita, e o entrega, em sua pequenez, ao assombro proporcionado por formas que escapam de seu conhecimento. O personagem regressa de lá inquieto, apaixonado, deslocado.

A desorientação, da qual falava Sêneca, proporciona lições de humildade – algo que as viagens deveriam fazer. A semelhança não pode deixar de brotar de uma fantasmagoria. A personagem do livro de Carpentier pertence a essa tradição de viajantes que testemunham o inominável, e isso é o principal alimento de sua imaginação.

Uma vez no exílio, decide revisar alguns lugares-comuns de seu próprio pensamento. Sua teoria sobre a origem da música é revista após as experiências que se oferecem para ele na selva. Há sempre um lá versus aqui. A violência é conhecida de todos. Contrário às velhas noções de sublime, pensa, inicialmente, que a música brotou de um senso estético que, despertado no homem primitivo, o fez querer imitar o canto das aves ou o trotar dos quadrúpedes, criando para tanto os primeiros instrumentos musicais. Nem todos os laços se rompem, e após ouvir o choro dos índios nativos que choram a morte de um jovem, o compositor se vê obrigado a abandonar a velha hipótese.

A música nasce dos ritos funerários. A arte, os signos, desde sua gênese, estão manchados de sangue, e assim continuam enquanto vão sendo compartilhados pelos povos – a diferença e a semelhança, ambas se mantém pela violência.

Os indígenas, de uma tribo mais ao sul da Venezuela, assim como Sêneca, também buscaram a Terra sem Males. Ao contrário do filósofo romano, que a procurava dentro de si, numa espécie de percurso espiritual e filosófico onde no final se alcançaria a moderação da alma, a ataraxia, os tupi-guarani procuravam-no em algum lugar perto do oeste, em direção do qual se puseram a andar. O filósofo romano põe-se a meditar; o índio põe-se a andar. Mundos diferentes. O teólogo, em seus tratados, perguntava-se: “tem, o índio, alma?”. Os tupi, na selva, depois de matarem os jesuítas, mantinham-se vigilantes em relação às vítimas. Queriam saber se estes espíritos possuíam corpos.

Há um impasse? Como saber de tudo isso apenas “frequentando os grandes filósofos”? As viagens, servem, ao menos, para que elaboremos formas de comunicação entre nós. Qualquer arcabouço mitopoético também é uma vinculação fundada por caminhos entrecruzados, porque os mitos estão sempre viajando. A sincronicidade, perseguida como os rastros, as pegadas que se escondem na selva, produz visões do kosmo que são aterradoras. Assombros de séculos. Não há filósofo que não persiga essa espécie de logos universal. Aprendemos a navegar no céu noturno, olhando as estrelas, porque estivemos sempre viajando, fosse no mar ou no deserto. Os mitos estão no céu, se repetindo, noite após noite, segundo o tempo da natureza – viajam conosco, comunicando mapas.

A filosofia e a poesia sempre deram as mãos e o pensamento para esses mitos.


Imagem: Desconhecido, 1720.

Um comentário sobre “ao fim das viagens

  1. mucha lucidez leonardo! Seneca tiene razon en el sentido de que la sabiduria no se gana por saltar de aca para alla, no hay merito en sobrevivir como ratas en otras regiones, pero claro que para un alma instruida y abierta a lo nuevo, es un complemento muy grande viajar y ver las cosas, saber como se sacian las mismas necesidades humanas en otras tierras, en otros climas, en otras culturas, entretenerse pensando conclusiones sobre la naturaleza humana, matar el tiempo de una manera que parece que vivifica al alma.
    Me esta re gustando la pagina 😛
    Despues te contesto el mail, para el cual demorare mi tiempo, por lo que si vas a venir a Itacare no lo dudes y avisame por email en caso de encontrar el tiempo y los medios, te prometo borracheras desde las 10 am, jaja besos!

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