Na Arena do Templo

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Denuncie-se o exército da fé. Os Gladiadores do Altar me fazem pensar que talvez não haja nenhum inimigo mais admirável e mais justo do que aquele que encontra na fé a motivação para a guerra. No caso, um tipo de monoteísmo muito bem representado pelos seus líderes expansionistas. Gladiadores, do primeiro ao terceiro milênio, são soldados que lutam entre si, dentro de arenas, para a diversão do público. Tendo fé, terão fé em seus líderes? Seguirão ordens?

Ou serão um exército de reserva, como querem crer alguns? Nada de linha de frente nem autômatos manobráveis. Se a realidade for mais generosa, veremos panelas sendo usadas como capacetes. O vencedor ganhará o direito de dizer quem foi que deu o primeiro disparo, mas isso não importa, por mais que se discuta. Aquilo que se discute é algo inominável e intraduzível que, sendo um Nada, justamente por ser isso, nos obriga ao falatório.

Quais serão os textos e arquivos que nos renderão acusações neste inquisidor futuro dominado pelas religiões de massa? O antagonista religioso só ascende a tal categoria quando começa a querer legislar e governar. É só aí que passa a incomodar. A guerra é latente, há quem acredite. Todo texto sagrado ambiciona a cabeceira dos poderosos. Mas não serão os tipos ideais religiosos, o crente comum, os verdadeiros oponentes; os seus líderes sim. Quem se debruce sobre as hipóteses, não perca a mania sociologizante de olhá-los. A imaginação não é párea. O prejuízo da realidade sem a pureza do conceito. Os mercadores do templo estão muito à frente daqueles que os perseguem conceitualmente.

E quem quiser combatê-los, o fará em nome de qual outra fé? A exigência de uma sociedade voltada para a facilitação do convívio entre diferentes tornou-se um detalhe miúdo no contrato. Ninguém falará disso senão para semear o medo e as ameaças. Uma sociedade que não dê voz nem espaço para os expansionismos? Os Deuses sempre comeram gente. Crianças, mulheres, guerreiros. Os deuses dos espanhóis comiam ouro, assim pensavam os astecas. Ouro com sangue. Tinham fome. Moloque, o touro sumério dentro do qual se ferviam bebês e carneiros, aceitava de tudo.

De quê tem fome o Deus dos Gladiadores do Altar? Deus único, fique claro, do qual todos estão livres para falar. Suas Vontades sejam feitas. Compará-los, os gladiadores, com os nazistas, eis aí algo que irá se repetir bastante. Qualquer exame mais apropriado indicará o óbvio: o despreparo absoluto, juvenil, de um destacamento desses. Não serão eles os que cumpriram as ordens mais duras de seus chefes, portanto. Há soldados bem mais dispostos. Tudo que envolve os Gladiadores do Altar é unicamente simbólico. Os risos, a indisciplina manifesta na sua mais atroz brasilidade não parece ser explícita o bastante, mas basta vê-los marchando. Se alguém tem medo deles, é porque, para alguns, homens uniformizados dão medo já de longe. As cerimônias são feias, quase uma paródia pobre e grosseira das cerimônias de arrebanhamento cristão tradicionais, nas quais são visíveis o apreço pela liturgia, pela música e pela arte. A opção evangélica é uma imitação dos moldes militares. Servem para impressionar, não para celebrar. Criar laços de irmandade entre seus membros e, quando muito, despertar naqueles mais jovens a vontade de pertencer a algo. Nas palavras do bispo, estão dispostos a ajudá-los a “entrar no inferno e ganhar almas”.

Mas e o ISIS? O Boko Haram? A Al-Qaeda? Teria o medo da ameaça religiosa atravessado o Atlântico? Que terreiros e tribos estejam desde há muito ameaçados, a atuação de algumas massas evangélicas não nos deixa esquecer. Queimar livros, destruir bibliotecas e monumentos, são atitudes comuns àqueles que querem edificar impérios. Mas o grau de periculosidade é diferente, e já se discute a possibilidade de ver-lhe subir a temperatura. As Igrejas proliferam-se. Substituíram os bares em algumas quebradas.

A lealdade das massas terá oportunidade para ser testada? Por enquanto os compromissos são eleitoreiros. Interessante notar: o religare está suspenso numa cisão entre os espaços. Os espaços políticos estão aparentemente longe, mas são eles que nos põem em confronto. A religião submete-se às formas do jogo – o fluxo assimétrico no qual se estampa a miséria e a decadência da democracia.

Leonardo Stockler

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