“Yo no estoy completo de la mente…”

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Insensatez, o romance do salvadorenho Horacio Castellanos Moya, é, no mínimo, desconcertante. Escrito em 2004, o movimento que parece ilustrar as poucas páginas do livro (155, ao todo) é um debruçar vertiginoso sobre a violência e as incicatrizáveis feridas da América latina – e consequentemente de sua própria literatura. Mais do que isso, é também um potente testemunho do poder e da responsabilidade da leitura, ao mesmo tempo em que aponta certas tendências literárias do nosso tempo.

A história: narrador, cujo nome nunca é revelado, espécie de alter-ego de Moya, aceita a tarefa de ir a algum país da América Central (Guatemala) revisar certos documentos que tratam do massacre das populações nativas – massacre este perpetrado pelo próprio exército guatemalteca ao longo de mais de vinte anos de genocídio. O trabalho faz parte da iniciativa de uma diocese local interessada em expor a matança para os órgãos internacionais que se dedicam às questões que envolvem os direitos humanos. A recompensa pelo serviço prestado envolve uma quantia de mais ou menos cinco mil dólares. Trata-se, portanto, do romance de uma leitura – a leitura, feita pelo narrador, de um passado sangrento perpetuado em relatos que, muitas vezes, acabam ganhando dimensões ainda maiores nas vozes das próprias vítimas.

Tudo a que tem acesso o narrador, portanto, são estes tristes depoimentos dados pelos indígenas que testemunharam o horror em sua forma mais cabal. A fratura exposta pela violência aparece aqui na forma de uma gramática ilógica (os indígenas mal sabem falar o espanhol). Tal fratura, ao mesmo tempo em que é o testemunho de um holocausto, é também uma obra de inegável lirismo. A violência transparece nesta linguagem fraturada. Neste momento, debruçar-se sobre a história do massacre em questão, é também debruçar-se sobre a própria literatura latino-americana. Digo isso porque é simplesmente impossível não entrelaçar a estética literária do realismo mágico com os deploráveis episódios que mancham de sangue a nossa história enquanto povo, desde o seu início. Estes serviram de inspiração aos tantos autores do continente: Miguel Asturias, Roa Bastos, Alejo Carpentier, García Marquez. Mas seus nomes sequer são mencionados por Moya.

Certa tendência literária contemporânea parece querer misturar os fatos com as ficções. Talvez, conscientes de que tudo é literatura, acabamos borrando as fronteiras. Ainda assim, ninguém está autorizado a afirmar que tais crueldades sejam ficções. O absurdo absoluto é capaz de desencadear, até mesmo, crises epistemológicas. Se todos os clássicos humanistas fracassaram, qual filosofia poderá nos redimir? Theodor Adorno nos pergunta: “como fazer poesia após Auschwitz?” Bruno Tolentino pergunta: “como não fazer?”. Como representar o absurdo, a irracionalidade, a insensatez? Estas não são, contudo, as perguntas feitas por Moya. A pergunta de Insensatez é outra: como LER o absurdo?

É por não ter uma resposta à altura que o personagem principal enfrenta uma vertigem moral crescente. Seu interesse pela poesia que brota da fratura gramatical cometida pelas suas vítimas pode parecer ambígua. Seu comportamento varia entre extremos: bebe muito; deseja as mulheres, mas quando está com elas não consegue suportá-las; torna-se paranoico. A opção pela forma confessional de se contar é compatível também com a literatura que se faz em nossa época. Omitem-se as referências espaciais e temporais, e todos os eventos parecem ter saído de um enorme caldo de memória. Não vivemos a época da autoficção? A impressão inevitável é de que os fatos e eventos não existem fora do texto ou da conturbada memória que os registra e os ressignifica. Também não vivemos uma encruzilhada histórica que, segundo certos críticos literários, nos impede de inventar enredos originais? Escrever é cada vez mais reescrever, é cada vez mais dar cores noves a um texto que já está velho – cores novas extraídas da paleta individual que só existe segundo a experiência subjetiva de cada um. Não concordo com esta perspectiva, mas é difícil negar que a literatura contemporânea contentou-se com este paradigma. É como se Insensatez fosse esse outro capítulo na história de nossa literatura – nossa própria história. Estamos diante de um passado de atrocidades e tudo o que temos feito é falar sobre nós mesmos, sobre experiências banais, triviais – desperdício de papel. Uma literatura que se intitula “autoficção” só pode existir num mundo em que a leitura que as pessoas fazem dos fatos interessa mais do que os próprios fatos. Difícil não ver nessa tendência o sintoma de uma fase terminal (como tantas outras), em que estão todos condenados a falar sobre si mesmos.

Por que há de se ler Moya, então? Por que ler qualquer coisa, afinal? Mais do que nunca, escrever é utilizar ferramentas com os nomes dos donos assinados nelas. Mas quais donos? Autoficção ou não, Insensatez oferece-nos uma interessante reflexão na figura do próprio personagem-narrador. A sua inquietação parece ser, portanto, uma inquietação literária. Sua prosa é rápida e às vezes desemboca em grandes fluxos livres, em longos parágrafos. Não há tempo para que o livro se perca, e encontrar algumas doses de humor em meio a tudo isso chega a ser também surpreendente – o personagem principal é cínico e torpe, e seu cinismo é confrontado pela responsabilidade que seu trabalho exige (o indivíduo confrontado pelo peso insuportável da História). E, no entanto, sem adequá-lo ao estereótipo do anti-herói, ele fica muito longe de ser odiável.

Haverá quem possa dizer que autoficção seja só uma tentativa de manter, o autor, um domínio sobre a própria literatura, sem evitar, com isso, incorrer nos riscos que tal vontade de controle apresenta. Também há quem acredite que tal tendência seja só uma evidência de que nossa literatura é um tipo de afluente daquela feita pelos franceses. Ou então o termo autoficção é apenas a defesa de uma reserva de mercado. Mercado literário. Isso porque, muitas vezes, a melhor coisa a se fazer no mundo das artes, é descobrir uma região nova – há quem diga que no final, é tudo questão de inventar uma. Basta criar um nome (realismo mágico; autoficção; new weird fiction). Assinar seu nome nas ferramentas, nem que as ferramentas sejam as mesmas de sempre. Isso talvez explique porque o subtítulo do primeiro livro de Moya, El Asco (no qual denuncia a miséria intelectual e política de seu país), seja Thomas Bernhard en San Salvador. É um ato de honestidade reconhecer os seus predecessores. No caso de Borges tornou-se um vício. É raro ver escritores bons preocupados com gêneros literários. Eles costumam ter mais vida na boca dos jornalistas e dos especuladores. Cada vez mais comum, contudo, é ver estes mesmos escritores fazerem referências diretas aos seus predecessores em seus próprios livros. Por que não? Há quem ache boa ideia situar romances inteiros nessa área de sombra em que as personas se confundem. Tivemos a chance de descobrir, num intervalo de tempo muito próximo, que o infinito da Mente pode servir como analogia ao infinito do Universo. A obsessão que a literatura de nosso tempo nutre pela memória, e todos os graus de individualização que ela possibilita, não é párea para o desperdício que a espera. O tempo da memória é o mesmo do tédio. O personagem-narrador de Insensatez é um entediado. Ainda que o livro aborde uma temática de cunho absolutamente social, não se trata de um romance social – nada a ver com aquilo que consagrou a literatura latinoamericana que veio antes.

E por mais omissas que sejam as referências, sabemos que tudo se passa na Guatemala, e sabemos que se trata de Moya. Por mais que os países da Mesoamérica sejam parecidos uns com os outros, por mais que os massacres e ditadores sejam semelhantes, as histórias, por mais confusas que nos apresentem, jamais se confundem. Pois é na Guatemala, país que no século XX ganhou algumas ditaduras e dois prêmios Nobel, que a contagem de mortos nativos já ultrapassa os 200.000. Os culpados? São os mesmos que alimentam a paranoia de nosso personagem-narrador, e que o faz fugir. Os militares. Aliás, há de se dizer que a paranoia, neste livro, inicialmente cômica, adquire um sentido muito diferente daquele que tem na obra de Thomas Pynchon, por exemplo. Por que? Aqui ela não é algo estrutural – seus riscos são mais imediatos. Não é estado de coisas que existe para desorientar aqueles personagens que se veem presos em suas teias. Basta lembrar que o próprio Moya, após ter publicado seu primeiro livro, teve de fugir das sérias ameaças que recebeu. Desde então, vive em Pittsburgh, nos Estados Unidos, em um abrigo para escritores exilados.

Da obra do autor, apenas El Asco possui tradução em nosso país.

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