Diagnósticos

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Se, no passado, a paranoia anticomunista justificou intervenções, hoje tal discurso não deixa de clamar por salvadores. Mas, se o comunismo, num cenário de 50 anos atrás, existia enquanto ameaça real, pertencente a um contexto de Guerra Fria, hoje, aquilo que os seus inimigos temem e atacam não é senão uma farsa. Aqueles que se opõem ao PT recorrem a motivos praticamente simétricos: os que enxergam no partido o germe da vontade comunista estão a ver uma caricatura de feições exageradas; os que o entendem como um veículo burguês que traiu suas bases operárias têm diante de si uma deformidade, uma anomalia.

Agora, arregimentada pelo PSDB, assim como todo o antipetismo que uniu-se sob esta bandeira, a paranoia anticomunista é, como já foi um dia, conveniente. Serve como carta na manga, como manda a tradição: uma intervenção, militar, que seja, com intenções de substituir regimes, só pode ser levada adiante quando há sérias possibilidades de perda de privilégios para as elites econômicas – a banca do jogo. Se o senso-comum é capaz de confiar no diagnóstico elaborado por tal ordem de paranoia, os golpistas não terão muito trabalho para convencer a população caso um dia a intervenção venha a acontecer de fato. O problema é que trata-se de um recurso tão obviamente pueril que chega a ser surpreendente a sua recente difusão.

Mas por quem o terreno está sendo preparado? Seus frutos floresceram porque a terra já havia sido adubada. Só que, como se finalmente tivéssemos nos acostumado a uma briga que já dura alguns séculos, passamos a dispor de certos mecanismos discursivos capazes de nos oferecer uma blindagem ideológica bem sólida, e de, ao mesmo tempo, invalidar qualquer argumento que possa querer perfurá-la. Isso não é exclusividade de um grupo ou de outro – são ferramentas que se encontram disponíveis em nossa cultura. A simples menção a uma opinião contrária parece render faniquitos em certos círculos.

Um dos elementos mais interessantes que tem impulsionado as filiações ao antipetismo é um tipo de clamor por renovações morais e novas guinadas éticas – espécie de sermão muito comum nos períodos de ruína. A alma brasileira tem tendências sérias ao messianismo. E é precisamente em tais momentos históricos que a exigência por renovações morais ganha profusão – a entrópica falação que conduz estes discursos faz com que o apelo seja feito por aqueles que estão menos preparados para defendê-los, exatamente como o fazem os peçonhentos pastores dos incontáveis templos desta terra. O lugar dos idiotas é no poder.

E, assim como os governos petistas podem ser a farsa de qualquer vontade revolucionária que possa ter um dia perambulado por estas paragens (é falta de caráter ou de inteligência confundir as políticas do governo federal que foram feitas nos últimos 12 anos com alguma sorte de socialismo), os seus opositores são uma paródia grotesca daqueles que, neste mesmo passado de nossa história, se puseram a marchar contra a ameaça comunista. É como se vivêssemos, após o fracasso dos dois modelos (tanto o projeto comunista quanto o paraíso liberal), uma tentativa de reencená-los à luz de um século miserável que não parece querer oferecer novos projetos. Serão os tempos vindouros tão sombrios que, tanto a esquerda quanto a direita, têm sido incapazes de compreendê-los, a ponto de preferirem recorrer aos espantalhos que os seus mesmos avós chegaram um dia a atacar?

Não parece anacrônico que um candidato à presidência possa vir em público pedir que uma maioria se una contra a minoria? Tais discursos são cômodos e não oferecem muita resistência àqueles que deles querem se apropriar. Das mesas de bar nascem os líderes – apenas discursos obtusos e violentos têm aparecido na pauta daqueles que querem falar em nome do povo. A cultura e a nação se afirmam na fixação de fronteiras, na escolha de inimigos, de ameaças, e, mais do que nunca, no vislumbramento de suas próprias ruínas e precipícios.

A possível escalada da violência por motivos partidários e políticos já é realidade. O ódio e a insatisfação que no Brasil é capaz de produzir linchamentos todos os dias, quando canalizados para a política, não pode acabar sendo tão diferente. Estamos em modo piloto-automático, e as teorias da conspiração que poderiam nos redimir diante de tão gritante teatro de absurdos tem servido apenas aos boatos eleitoreiros.

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