o bom samaritano

Toda vez que vou à Avenida Paulista, me filio a uma ONG diferente.

Nesta última semana, por ocasião de uma visita que fiz a uma loja de artigos religiosos católicos, fui abordado pela patrulha de uma organização ambiental.

Os métodos são absolutamente os mesmos para todos os grupos, não interessa a causa. Eles recrutam jovens que fariam qualquer coisa por uma pequena remuneração, e ensinam a eles técnicas que supõem funcionar. Assim esperam atrair novos contribuintes.

Interpelar pessoas apressadas que andam pela capital não me parece o mais gratificante dos serviços a serem prestados. A coisa começa sempre com uma piada, com alguma observação sobre o modo com que me visto ou ando, o mesmo veredicto sobre o meu chapéu, e que todos julgam estiloso, ou então perguntas inapropriadas sobre como eu faço pra deixar minha barba tão vistosa.

A verdade é que me param porque sou incapaz de desviar o olhar. Vejo-os de longe com seus coletes brilhantes e os transeuntes evitando-lhes o encontro, contornando o grupo, despedindo-se com pedidos de desculpa e justificativas evasivas.

Há estratégias para quem quer evitar o contato. Andar no vácuo, logo atrás de um grupo grande, diminui as probabilidades. Passar ao largo também é uma atitude à qual vejo inúmeros engravatados recorrerem.

Não sei bem o que penso quando recito para eles o número de meu cartão e então soletro o meu nome, causando interjeições que às vezes julgo demasiadamente empolgadas: Aquiles Gombrich.

“É de onde?”, me perguntam.

“Inglaterra”, digo na maior parte das vezes. Mas já cheguei a dar respostas diferentes em outras situações: “é birmanês”, ou “é da República de Fiume, um país que já não existe mais”, ou então digo que “é de Caçapava, lugar perigoso”.

“Cuidado com o calcanhar, eim!”, foi um comentário que já tive a alegria de ouvir certa vez.

Como não faço muito esforço para me lembrar de todas estas filiações, já cheguei a me inscrever duas vezes como contribuinte de uma mesma ONG. Era um grupo internacional que desenvolvia trabalhos com crianças carentes em países periféricos. Eu seguia preenchendo o meu cadastro tranquilamente, citando de cabeça todos os meus dados necessários, quando fui reconhecido por um de seus membros.

“Ei, eu não te conheço?”.

Não fosse por ele, eu teria me cadastrado duas vezes com o mesmo cartão de crédito – cartão que fiz exclusivamente para concentrar nele todos os donativos que faço mês a mês, e que já acumula, desconfio, um total de 16 entidades filantrópicas a quem destino contribuições com valores que vão de R$18,00 a R$49,00.

“É, você não conversou com a gente faz mais ou menos um mês? Eu lembro porque na hora fiquei espantado de ver você lembrar de cabeça o número do seu cartão.”

Não sei qual foi a imagem que passei com essa gafe que cometi. Não consigo saber se com isso me estimavam duplamente, ou se então me julgavam louco, um desvairado, um varrido.

Mas um doido com considerável boa vontade, dinheiro e disponibilidade de sobra para se engajar em causas socioambientais.

Sou um recordista em doações e jamais cancelei um débito automático.

Não sei se configuro um bom exemplo a ser seguido.

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