as crianças que não amavam os museus

Uma sinistra sequência de crimes vem tirando o sono dos detetives de São Paulo. Na última semana dois artistas plásticos foram encontrados mortos ao lado de suas obras no Museu de Arte de São Paulo (MASP), com cortes profundos de faca no abdômen e no pescoço. A comunidade artística em todo o país está chocada. No mês anterior uma artista finlandesa havia sido brutalmente molestada por aquilo que pareceu ser uma horda de crianças descontentes com o conteúdo político da sua performance, que estava programada para acontecer durante as tardes dos dias 16, 17 e 18, no Museu de Arte Moderna (MAM). Ao lado do espaço separado para o evento, picharam com letras garrafais vermelhas: Isto não é Arte & Isto não é um Museu.

As autoridades ainda estão encontrando dificuldades para traçar o perfil dos assassinos e agressores. De acordo com o delegado Sérgio Paiva, trata-se de uma gangue muitíssimo bem organizada de crianças. As câmeras captaram a movimentação dos elementos minutos antes da execução das vítimas. Os membros estão todos na faixa dos 7 aos 14 anos, o que já seria o bastante para enquadrar os mandantes na categoria dos pré-adolescentes. São provenientes de famílias abastadas, de classe média-alta. O comportamento parece ter sido o mesmo em todos os crimes: são capazes de se reunir e dispersar com extrema habilidade, fazendo uso dos dispositivos portáteis e demais aplicativos de comunicação, agem sempre em grupo e atacam com armas brancas depois de bulinarem sexualmente suas vítimas.

Da parte dessas crianças um tanto arteiras além da conta, a motivação para o crime foi algo que chamou a atenção dos criminalistas de plantão. Ao que tudo indica, não se trata de apenas mais uma ocorrência de delinquência juvenil. Nenhum dos identificados possui passagens pela polícia nem quaisquer outras demonstrações de violência nem insubordinação em ambientes familiares ou escolares. Todas as ações do grupo foram premeditadas e levadas adiante num comum acordo de todos os envolvidos, posto que todos os membros da gangue compartilham de um histórico escolar parecido. Incapazes de acessar uma ficha criminal que não existe, os investigadores do caso optaram por entrevistar os seus professores, pais e amigos, e chegaram a conclusões surpreendentes que poderão trazer nova luz sobre os assassinatos. Estão todos trabalhando juntos para prever e antecipar quais serão as próximas movimentações da gangue e suas futuras vítimas. Até lá, todas as exibições de arte programadas para acontecer no mês de outubro foram suspensas. Essa já é por si só uma vitória a ser colocada na conta da facção destes infantes de estranho gosto artístico.

As crianças identificadas estão foragidas. Como alunos matriculados nos colégios mais importantes da cidade, dentre eles Cervantes, Porto Seguro e Dante Alighieri, a hipótese de que estejam envolvidos em  um crime de tamanha barbaridade foi algo que deixou estarrecida a sociedade paulistana. De acordo com os depoimentos, oscilações no comportamento das crianças tornaram-se mais frequentes após visitas que teriam feito a museus de arte e peças de teatro, passeios previstos no cronograma de atividades das escolas, com o aval das orientadoras pedagógicas de cada uma dessas instituições.

Muito embora as excursões tenham sido autorizadas pelos pais, que estavam plenamente cientes do projeto, o efeito das obras e performances a que foram submetidos produziu uma alteração irreversível na conduta daqueles que eram até então os melhores e mais interessados alunos de cada turma. No que começou com perguntas insistentes a respeito dos movimentos artísticos de cada época, seus manifestos, rupturas de paradigma e demais inovações técnicas, logo se transformou numa irresponsável aventura estética. Desde então, foram vistos andando nus ou então deitados de forma cadavérica pelo pátio da escola, cortando os braços com restos de cacos de vidro, desenhando com batom na barriga, ou então pronunciando coisas sem sentido ao som de instrumentos ruidosos naquilo que pareceu ser uma demonstração assustadora de glossolalia artística enquanto ainda gritavam: – É bonito isso?

Os hábitos se tornaram contagiosos e uma rede de informações se espalhou pelas melhores escolas de São Paulo. As crianças se tornaram misteriosas, e passaram a se reunir secretamente nos intervalos, nos cantos mais escondidos do pátio e do parquinho. Sabemos agora que estavam tramando os cruéis assassinatos, e que viram neles uma chance de vingarem-se das sessões de tortura e lavagem cerebral a que foram submetidos.

Alguns pais mais preocupados resolveram colaborar com a polícia, e adiantaram que seus filhos vinham fazendo perguntas estranhas a respeito da política e da arte na civilização brasileira contemporânea, pedindo por nomes e culpados para o atual estado de degeneração da classe artística e da perda total de sua relevância para a sociedade em geral.

Escandalizados, os pais criaram um grupo de ajuda mútua e, na tentativa de recuperarem seus filhos, um comitê municipal foi montado para analisar e deliberar a respeito de todos os projetos e apresentações de arte na região metropolitana de São Paulo. Iniciativas semelhantes estão sendo levadas adiante também no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, depois de recentemente uma criança ter sido vista perambulando pelo Museu de Inhotim, a alguns quilômetros da capital, bradando dizeres apocalípticos.

A arte moderna desde sempre serviu para contestar e trazer reflexões a respeito do mundo em que vivemos, ao mesmo tempo em que traduziu suas ansiedades no questionamento sobre si própria. As inovações das vanguardas artísticas do começo do século ampliaram o leque de possibilidades daquilo que chamamos de “obra de arte”. Colagens, ambiências, improvisos, fotografias, performances construídas com a ajuda do público, obras interativas; em suma, o atual campo artístico tem ido muito além da pintura. No entanto, o público médio brasileiro ainda não parece ter se acostumado com apresentações que já deixaram de ser novidade há pelo menos 60 anos.

Por isso alguns críticos de arte tem visto com otimismo a atuação da gangue das crianças assassinas, projetando em suas ações uma possível renovação artística sem paralelo em toda a história da arte, algo que turvaria as fronteiras entre o espaço artístico e a vida, e os próprios limites que separam a vida da morte. Por estas e outras razões, a colunista Débora Corlucci diz estar muitíssimo entusiasmada com a promessa de um próximo assassinato previsto para dezembro, quando o artista esloveno Silvo Boštjan apresentará no MASP a sua famosa instalação que faz uso de chifres e ossos de animais extintos.

Apesar de ter o público levantado tal hipótese, os investigadores não acreditam que exista qualquer conluio direto entre a gangue das crianças e os artistas em questão.

Estão todos aguardando ansiosamente as próximas notícias, e o debate sobre o que é arte e o que não é, de forma inédita, foi finalmente aberto para a sociedade brasileira.


Imagem: Garry Black

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