Arte e Ciência

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O ‘Demoiselle’ e a ‘Ceia’

“A verdade é que quando a gente vê a locomotiva “Baronesa” ou o avião “Demoiselle” de Santos Dumont (produções recentíssimas da ciência aplicada) tem vontade de rir. São objetos ridículos. A ternura que nos possam infundir vem de pensarmos que homens já confiaram (como Santos Dumont) suas vidas a uma coisa tão precária. Além disto, só há ridículo quando comparamos o “Demoiselle” a um “Constellation”.

Mas as tábuas que Fra Angelico pôs a arder com sua têmpera, aquele leve “primeiro sorriso”, como o chama Malraux, que Giotto abre em suas figuras tão compostas, os faraós de cinco mil anos – esses são produtos jovens de engenho humano, esses encarnam em si o verdadeiro princípio fáustico da vida. No Prado, Portinari teve ímpeto de vir à porta e bradar aos madrilenhos:

– Vocês já viram o que está aqui? Corram!

No entanto, no Museu das Indústrias em Londres a gente ri, primeiro, e acaba por bocejar diante dos monstros desajeitados e que parecem inventados nos tempos em que Leonardo desenhava as máquinas – máquinas que admiramos como índice de sua inteligência mas que jamais nos cortarão o fôlego como sua Sant’Ana ou seu São João Batista ou sua Ceia, para sempre novos, frescos, incapazes de qualquer aperfeiçoamento. Mesmo a mais pura das Ciências tem a mesma sorte passageira dos seus produtos. Manet não derruba Rafael mas Einstein acaba com o universo de Newton. Nada neste mundo fará o Moisés de Michelangelo envelhecer ou as bailarinas de Degas ou os arlequins de Picasso. Passa apenas o que a arte tem de pretensa ciência, os rótulos científicos de pontilhismo, cubismo, surrealismo e que sei eu, mas os produtos da forma artística de interpretação do mundo estes não passam, não envelhecem, não caducam, não deixam jamais de ser válidos.

Luz que agrava a Escuridão

Hegel imaginou que a arte estivesse agonizante. Puramente com seu intelecto é que o homem atingiria as verdades eternas e não tateando com as intuições da arte. Marx observa que, antes de conseguir dominar e governar as forças da natureza, o homem lhes dá uma forma mitológica, imaginária; e quando consegue afinal domar essas forças está automaticamente livre da própria mitologia que criou. Assim, num mundo racional, intelectual, claro e limpo de mistério o homem não precisaria mais da sua função artística, imaginativa, criadora de mitos. Como temer, personificado num vago Vulcano, a eletricidade das noites de tormenta, diante da Hidrelétrica de Paulo Afonso?

O diabo é que o mistério recua e se adensa sempre, à medida que nossas luzes ficam mais poderosas. Imaginávamos bem morta a mitologia e a barbárie de épocas inquisitórias quando ressurgiu na Alemanha um Siegfried perseguidor de judeus. E um dos judeus que fugiram de Siegfried pedindo socorro a Albion acabava de reformar toda a psicologia moderna efetuando algo como uma interiorização da mitologia. Édipo, por exemplo, o infeliz rei de Tebas, estava vivo dentro de nós e sua história é encenada em cada novo menino que vem ao mundo… O sábio judeu perseguido por Siegfried só conseguira dar forma científica a um impulso bárbaro que descobrira nos seus neuróticos e que estendera ao homem normal valendo-se de uma velha obra de arte, de um senhor Sófocles, nascido em Colona no ano de 495 antes de Cristo. O sábio judeu, é bem verdade, era um grande racionalista, mas não se pôde furtar a reinventar a mitologia nos abismos da irracionalidade. Aliás, um outro grande racionalista, Sir James Frazer, na primeira página da sua obra monumental de antropologia vai pedir a síntese do seu título, The Golden Bough, a um quadro do pintor Turner.

O mistério se adensa à medida que avançamos e só a arte nos põe em contato com o mistério. Depois, muito depois, a ciência pode assumir o plantão.

A ciência é precisa e transitória. A arte é vaga e eterna. A primeira nas suas aplicações práticas não merece o menor crédito ao cabo de meio século e mesmo em suas profundezas não resiste a meia dúzia de séculos. A arte se apura, se afirma, e triunfa com a passagem do tempo. É portanto muito mais científica do que a ciência.”

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Antônio Callado, Retrato de Portinari [Paz e Terra, 1978].

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