Memórias de um 2013

“Não digo que floresceu, menos ainda que desabrochou, digo que alastrava-se, endêmico, epidêmico, fosse o que fosse, aos trancos e barrancos de um movimento browniano, debatendo-se, o pensamento que mais tarde foi classificado como olavismo, por ser vinculado ao filósofo, guru, ex-astrólogo, Olavo de Carvalho, que, este sim, contrariando aqueles que diziam que Nietzsche foi o primeiro filósofo pop, tornou-se o primeiro pensador realmente conectado às novas mídias. Nem o mais contumaz dos conservadorismos é capaz de impedir a novidade da tecnologia. Claro que envolve um certo abuso dizer que o conservadorismo é contra qualquer tipo de novidade – sendo só contra as mais interessantes, talvez -, mas o olavismo dispunha de um grau de militância virtual muito mais violento que o dos comunistas que vieram antes – não que uma praga pudesse substituir a outra… Na verdade até digo que podem, e que é justamente isso que fazem as pragas – sequer elas tiveram de disputar o espaço virtual, a vitória do olavismo foi decretada de antemão. Também não digo que toda moda teórica, ou acadêmica, seja equivalente a esses comportamentos, se pensarem que comparo o comunismo ao olavismo, e os dois ao pós-estruturalismo, por exemplo. O olavismo é incapaz de elaborar quaisquer reflexões, críticas, que lhe possam garantir o estatuto de teoria. Também não podemos culpar os melhores comunistas tomando como referência a conduta dos piores. Os maiores debates do Olavo eram com verdadeiros intelectuais de ponta do, segundo ele, nefasto cenário da intelligentsia nacional: Drauzio Varella; Tony Bellotto – polêmicas. Ele também ministrava um curso de filosofia via Internet, e, diz-se, ali sim estavam seus pupilos, e sua verdadeira obra e pensamentos, e não o cinismo de um showman do Youtube. Mas não devemos confundir esses comentários que o filósofo fez em relação às celebridades do showbiz com seus verdadeiras obras filosóficas. Quem lia seus trabalhos e participava de seus cursos à distância sabia com quem ele estava conversando.

O Brasil sempre chama a atenção por servir como preocupação para seus intelectuais. Tal preocupação, contudo, quando se vulgariza, deixa de se problematizar. Muitas vezes limitam-se a emitir diagnósticos negativos; outras vezes dão declarações otimistas. Mas nunca deixam de emitir diagnósticos, os quais são, obrigatoriamente, norteados pela ideia daquilo que o Brasil deveria ser, mas que não é. A imagem daquilo que ele deve ser, esse descompassado norte magnético, em nossa tão viciada bússola, sendo, tantas vezes, mediada pelas notícias que vêm de fora… Pensar nisso é incorrer em tautologia, todavia. E esse idealismo provinciano, suas meaculpas verdeamarelistas, é o que condenou os artistas de outro século a procurarem essências de arte nacional, como se a cultura fosse perfume – nos melhores frascos colocamos as fragrâncias das cores locais. Bruno Tolentino, que era amigo do Olavo, dizia que os poetas, artistas em geral, estavam muito preocupados em produzirem uma arte nacional sem pretensões universais. Digo que eles tinham tais pretensões, mas que estas mais estavam submetidas à lógica da vitrine, dos manequins, produtos de exportação, feitos para serem exibidos, tendo de, portanto, vestirem-se com as roupas da moda. O olavismo afirmava-se como de cunho conservador, não entendendo a si mesmo enquanto consequência recente de uma polarização confusa da sociedade, sendo, por isso mesmo, fenômeno da moda. O medo do comunismo, ainda que fosse um tanto retrô, ganhava uma nova roupagem (a roupagem que a farsa herda da tragédia). Um fenômeno da moda que, mais do qualquer outro, emitia diagnósticos verdadeiramente escabrosos a respeito do Brasil. Cito os comunistas porque eram adversários, opositores diretos dos olavistas e, assim como seus antagonistas, eram bem afeitos aos cenários apocalípticos. E, para complicar, ambos levavam muito a sério um ao outro, como quando um paranóide imagina o seu inimigo como muito mais poderoso do que é.

Não entro no mérito de o cenário intelectual brasileiro do início do século XXI ser semelhante a um oásis. Não se pode idealizar o passado. As utopias pertencem ao futuro, não ao passado. O pensamento de Olavo apontava culpados para a suposta miséria do presente. Fornecia respostas fáceis, tal como alguns comunistas fizeram antes dele. A razão dos nossos alunos de hoje não saberem gramática era explicada pela adoção do método construtivista. Paulo Freire era responsabilizado pela decadência da autoridade do professor. As universidades (a Universidade de São Paulo era o principal alvo de seus ataques) não haviam produzido nenhum filósofo, nenhum pensador, nenhum pensamento digno. Estavam, segundo ele, todos condenados pelos anos de hegemonia marxista – uma doutrina que, lentamente, se cristalizara no senso-comum latino-americano, produto de uma revolução passiva que, abrindo mão da violência de uma revolução nos moldes da revolução russa ou francesa, adentrava perniciosamente a estrutura universitária, para dali preparar o terreno para uma ditadura comunista, a qual, no testemunho do Olavo, já estava em curso no Brasil. Se vivíamos uma ditadura comunista então por que ninguém tinha avisado os comunistas? Eu não conseguia entender como é que, em pleno século XX, depois do fracasso da União Soviética, da traumática experiência pela qual a esquerda passou ao longo desses anos, como é que alguém ainda podia ter medo deles? Fosse apenas o Olavo e teríamos dado apenas umas breves risadas, mas o velho não era bobo – também o Pondé e o Jabor diziam coisas semelhantes, mas num grau de sofisticação muito menor, claro. Há mais de uma década Paulo Francis havia proclamado em seu programa:

– O Brasil é o único país do mundo que leva o comunismo a sério. Isso aí é tudo bafo de boca! No primeiro tiro sai todo mundo correndo!

A popularidade alavancada pelo Youtube, a partir de suas polêmicas, fez com que o livro de Olavo de Carvalho, durante algum tempo, um dos mais vendidos, dividindo a estante com seu parceiro virtual, o Lobão. Daí então dizia-se, a plenos pulmões, que o Brasil vivia sob a ameaça iminente de um comunismo, e que os nossos dirigentes, crias de José Dirceu, queriam transformar o Brasil em Cuba. Só que naquela época até Cuba já tinha deixado de ser Cuba. Então, se vamos continuar procurando culpados para tudo, a quem devemos culpar pela metástase do pensamento olavista? Quem ou o quê preparou o terreno?

– São esses anos de militância marxista. As universidades de ciências humanas tiveram de lidar com isso durante tanto tempo que acabaram se apegando à primeira alternativa que apareceu. – dizia o Porpeta, que na época estava começando a falar sério. – Repare que só os alunos é que leem o Olavo. Os professores ainda não se preocuparam muito. Ele não é uma moda acadêmica.

– Você que pensa. Começou na Academia sim. Dizem que na federal de Curitiba tem um pessoal que estuda ele.

– Mas essa conclusão de que é só paranoia é muito pouco. Mesmo porque, pra paranoia se disseminar, tem de haver um terreno preparado. O que preparou o terreno? É possível que a propaganda da ditadura militar tenha deixado herança? A breve experiência democrática que tivemos pareceu traumática pra esse grupo de pessoas? A Esquerda, apesar de não ter a força política da direita, tornou-se culturalmente hegemônica, e isso tudo é uma reação? Todos esses anos em que o pensamento marxista participou militantemente do espaço universitário, sem contar com nenhum rival à altura, deixou um trauma nesse povo?

– Mas entendo que é exatamente esse o ponto: paranoia. E, claro, essa paranoia existe em algumas pessoas da esquerda também. Até por isso acredito que não foram circunstâncias específicas que a provocaram. Acho que a resposta está na própria mente: as pessoas criam uma fantasia que se encaixa nos modelos teóricos que mais satisfazem. Depois disso só têm olhos para os fatos da realidade que comprovam o que acreditam. Os que refutam meio que inconscientemente são ignorados ou pelo menos não ganham tanta importância. Talvez seja um mecanismo de defesa nesse caos contraditório que é mundo, sei lá.

– Mas e esse lance da hegemonia da esquerda?

– Não concordo, não. A militância dela até pode fazer parecer isso, mas acho que fica só na aparência mesmo. Por exemplo, podemos contar quantos professores temos que são verdadeiramente marxistas, ou de esquerda num sentido mais amplo. Os que não são são maioria. Mesmo os alunos, ainda que grande parte tenha opiniões sobre assuntos diversos que são próximas da esquerda, em outros assuntos podem ser vistos como direita. Se formos categorizar numa pesquisa séria mesmo, acho que ou ficam pau a pau ou a direita ganha. Ou então é melhor pensarmos que não dá pra dicotomizar dessa forma.

– Pense no cinema, na música, e na literatura brasileira. Você não acha que a esquerda prevalece um pouco mais?

– Não acho.

– Pensa que os ataques do Olavo são dirigidos justamente a isso: uma das coisas que eles mais dizem é que não há conservadores de verdade no Brasil; que nosso cenário intelectual é um deserto etc. Não acho possível que essa paranoia tenha começado de uma hora pra outra, nem que ela sempre tenha estado aí. Os de esquerda também são paranoicos. E as duas paranoias são semelhantes: os dois tendem a enxergar seus antagonistas como muito mais poderosos como realmente são, como é comum nas paranoias. Só que num caso, no caso da esquerda, a razão disso é que o mundo é capitalista, que a direita praticamente está vencendo a briga e já faz tempo, e que a experiência da esquerda no século XX foi um fracasso, com alguns poucos ganhos – no caso da direita, isso se refere aos âmbitos em que a esquerda é meio hegemônica, tipo na cultura artística e nas universidades. E muitas vezes não interessa se ela realmente é ou não é. Interessa é como eles enxergam a coisa. Aliás, pode até ser que essa paranoia tenha sempre estado aí, como esteve durante a ditadura, ou em algum momento nos anos 80, não sei. Mas em certos momentos ela se encontra hibernada. O que faz ela desibernar e hibernar de novo?

– Acho que um governo que supostamente era pra ser de esquerda e que já dura mais de oito anos acaba pesando mais que tudo isso.

– Os partidos de esquerda menores dizem que o PT não é mais de esquerda, se é que algum dia chegou a ser… Eles entendem que o PT é impuro demais pra ser de esquerda, algo assim.

Certa vez, no bar do Indião, vulneráveis ao som dos carros que passavam pela avenida em alta-velocidade, na tarde de uma sexta-feira de dezembro, aproveitamos a ocasião em que estávamos com o professor, para perguntarmos a ele o que pensava sobre isso.
– Acho que é uma mudança na configuração da cultura. – ele respondeu.

– Como assim? – alguém perguntou.

– É… No tempo dos mimeógrafos, em que não dava tanto dinheiro, a cultura não era um espaço de disputa igual é hoje. – disse, entornando um copo de cerveja. – Olha só como evapora rápido!”

Diário de um futuro próximo…

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