a necessidade de narrar os sonhos

A literatura que recorre ao sonho enquanto matéria-prima ou fonte para a elaboração de narrativas é abundante, farta.

O livro que tenho em mãos é o diário de sonhos de Georges Perec, La boutique obscure, traduzido para o espanhol (porque o livro não existe em português) como La cámara oscura [Editora Impedimenta, 2010; tradução de Mercedes Cebrián].

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Em Sonhos


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Sonhei com um mosteiro. Era também um internato. As coisas existiam em seus menores detalhes, como se fossem ilusões de uma outra vida simultânea a essa (e é exatamente isso que são). Eu, e mais alguns de quem não lembro o rosto, éramos estudantes, e perambulávamos pelos corredores do mosteiro. Mas os sonhos brincam com o tempo, e naquilo que foram poucas horas de sono, pude sonhar com semanas e meses. Experimentei o dia-a-dia e a rotina daquele lugar. Dormi e acordei dentro do próprio sonho, e estava calor na cama do mosteiro – lembro-me de que o suor escorria e encharcava os lençóis do pequeno quarto que eu tinha naquele sonho.

Haviam outros personagens. Por exemplo os professores, que humilhavam os alunos. Um impulso me faz desafiá-los.

O mosteiro é enorme, construído pela mais caprichosa das alvenarias. Num grande salão chegavam as escadarias que davam para as alas. Pareço estar muito satisfeito, muito feliz por estar ali, desfrutando de tudo.

De repente acordo deste sonho, mas ainda estou sonhando. É como se fosse um sonho dentro do outro. Tenho consciência de que o que vivi naquele mosteiro foi apenas um sonho, mas ainda estou sonhando sem sabê-lo. Não acordei de fato. De qualquer forma, neste outro sonho, o mosteiro persiste, mas agora estou do lado de fora dele. Quero voltar para lá. Estou triste porque sei que o que vivi ali foi apenas um sonho. Converso com os outros, que também parecem ter experimentado a mesma coisa, tendo sido aquele lugar um sonho ou não, e pergunto como estão as coisas. Em dado momento estou dentro do mosteiro, com minhas malas, escolhendo qual vai ser meu novo quarto, em que ala vou morar.

E então acordo de novo, só que dessa vez de verdade, porque tenho a necessidade de ir ao banheiro. Volto a dormir em pouco tempo, porque estou cansado. Eis que sonho com o mosteiro de novo. Uma cidade cresceu em volta dele, com praças e prédios. Há uma fila para a entrada do mosteiro. Vai acontecer uma festa. É uma festa à fantasia, e eu estou na fila. Verifico meus bolsos e percebo que esqueci os convites. Então acordo.