palavras de um xamã yanomami a respeito de Stonehenge

“As viagens que fiz para defender nossa floresta contra os garimpeiros acabaram me levando para muito além do Brasil. Assim, certo dia, brancos que tinham escutado meu nome me chamaram de uma terra longínqua, da qual eu não sabia nada, a Inglaterra. Eu aceitei o convite, porque tinha curiosidade de conhecer aquela gente distante que parecia ter amizade por nós. Era a primeira vez que eu deixava nossa casa de Watoriki para voar num avião por tanto tempo. Era tão longe que eu acabei chegando até a terra dos antigos brancos, que eles chamam de Europa. Então, pude ver com meus próprios olhos os vestígios das casas dos primeiros forasteiros de pele clara, os napë kraiwa pë, que Omama criou há muito tempo com o sangue da antiga gente de Hayowari.

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ficção aumentada

I must download several copies of myself and storage them into security areas.

Terence McKenna

 

Num futuro em que a pesquisa com tecnologias de Realidade Aumentada seguiu desimpedida, imaginemos sua conjunção com os ramos da robótica responsáveis pelo desenvolvimento de inteligências artificiais e de equipamentos portáteis para realidades virtuais. Pensemos neste futuro como situado em lugar do final do século XXI, ao mesmo tempo a intersecção entre uma Idade de Ouro da tecnologia e uma Idade das Trevas emocional que obterá como resultados sociais uma enorme confusão entre os distintos níveis de trânsito de informação, até que, claro, devido à incrível plasticidade do cérebro humano, adequemos devidamente nossa linguagem a esse ultra-futuro pós-pós-humano de velocidades simultâneas incomensuráveis por meio de sofisticadíssimos implantes neurobiológicos de aumento de capacidade sensorial e de memória.

Todavia, considerando que nem todas essas maravilhas de ponta serão prontamente disponibilizadas a preços acessíveis para os cidadãos comuns, imaginemos diversões mais sutis, arquitetadas pelos artistas, arquitetos, engenheiros da programação e da informática, todos esses mestres espirituais vindouros que terão às suas mãos tantos e tão fascinantes instrumentos de criação e não hesitarão em exibir ou esconder os seus produtos por aí, nas áreas acessadas por realidades indefinidamente maiores, espalhadas pelos espaços tangíveis aos corpos e às mentes futuras.

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o deus-verme e o impítima

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em conturbérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos

Preparando-se para a maratona televisiva, Maykon, vestido com a usual bermuda de depois do almoço, começa a expelir pelo bóga os primeiros gases que a feijoada de hoje vem forjando desde a ingestão, nos lençóis freáticos do cuecão…

O controle-remoto numa mão e o baseado na outra e o isqueiro na outra, pois que Maykon é um marmanjo com três mãos, ele prolonga um suspiro cansado, de dever cumprido. Sem contestar qualquer arroto, uma sacolejada saborosa, como que couve com farofa, sobe-lhe à garganta só pra ser mandada de volta pelo esôfago.

Há uma maratona televisiva pela frente. Um programa sem intervalos nem comerciais. Sem cortes, com a prometida duração de, pelo menos, oito horas. Sem replays, nem narradores obsoletos. Sem comentaristas folgados, nem ex-atletas sendo salvos do ostracismo.

Maykon acompanha, em tempo real, os comentários e as piadas que seus contatos soltam pela rede e compartilham pela rede. Contatos, porque seria equivocado confundir essa relação com qualquer coisa próxima de uma amizade.

Maykon acredita que está se divertindo muito mais que todos eles. Acredita que está diante do entretenimento mais prenhe de sentido em toda a História do Brasil.

Mais do que a Copa de 70, por exemplo.

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diários oníricos

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A literatura que recorre ao sonho enquanto matéria-prima ou fonte para a elaboração de narrativas é abundante, farta. De início, alguns nomes vêm à mente: tanto Jorge Luis Borges quanto Jack Kerouac possuem um Livro dos Sonhos – o de Kerouac é um diário, o de Borges vale-se daquilo que sonharam figuras e personagens da história humana e sua mostragem já seria numerosa o bastante para que qualquer exercício de recapitulação se fizesse redundante; há o Finnegans Wake de James Joyce, a contraparte onírica do atribulado dia do Ulysses, que levou 16 anos para ser escrita; há o psicodélico Alice in Wonderland, de Lewis Carroll; há a vasta ciência especulativa produzida por Sigmund Freud e por Carl G. Jung; há The Man who was Tuesday, de Chesterton, que tem como argumento um pesadelo, e The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hide, de Stevenson, que parece ter saído de um; há Confessions of an English Opium Eater, de Thomas de Quincey, um intermediário entre estados de delírio e de sonho profundo; La vida es sueño, de Calderón de la Barca, tem no monólogo de Segismundo os versos mais memoráveis sobre o tema (Yo sueño que estoy aquí/ destas prisiones cargado,/ y soñé que en otro estado/ más lisonjero me vi./ ¿Qué es la vida? Un frenesí./ ¿Qué es la vida? Una ilusión,/ una sombra, una ficción,/ y el mayor bien es pequeño:/ que toda la vida es sueño/ y los sueños, sueños son.), mas além dele há outros tantos poetas que versaram sobre o tema: Guilherme de Almeida, em Berceuse das Rimas Riquíssimas (Durma à sombra dos meus olhos/ como de uma árvore, e molhe os/ seus sonhos nas minhas lágrimas), Edgar Allan Poe, e o sonho dentro do sonho (Is all that we see or seem/ But a dream within a dream?); há o infeliz conto de Dostoiévski, O sonho de um homem ridículo; há as paisagens desoladas do Hebdomeros de De Chirico; há o belíssimo Sandman, de Neil Gaiman; e, sem pensarem em estar fazendo literatura, a quantidade de profecias e visões que se deram em sonhos também não deve ser desprezada (há pelo menos 40 sonhos no Velho Testamento, dos pesadelos de Jó ao José adivinho que interpretava os sonhos do Faraó), e não existe religião ou conjunto de mitos que não recorra aos sonhos, assim também o comprovam o Popol Vuh, o Corão, o Bardo Thodol; e há, também, aquilo que poderíamos chamar de sonho latente – uma certa aura presente na literatura que não trata diretamente de sonhos, mas que se vale de artifícios que saíram deles, e aí a quantidade de obras identificadas como tal seria vasta, indo de Kafka a Juan Rulfo, Philip K. Dick, e qualquer outro escritor e poeta identificado como surrealista.

O livro que tenho em mãos, contudo, é o diário de sonhos de Georges Perec, La boutique obscure, traduzido para o espanhol (porque o livro não existe em português) como La cámara oscura [Editora Impedimenta, 2010; tradução de Mercedes Cebrián].

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Em Sonhos


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Sonhei com um mosteiro. Era também um internato. As coisas existiam em seus menores detalhes, como se fossem ilusões de uma outra vida simultânea a essa (e é exatamente isso que são). Eu, e mais alguns de quem não lembro o rosto, éramos estudantes, e perambulávamos pelos corredores do mosteiro. Mas os sonhos brincam com o tempo, e naquilo que foram poucas horas de sono, pude sonhar com semanas e meses. Experimentei o dia-a-dia e a rotina daquele lugar. Dormi e acordei dentro do próprio sonho, e estava calor na cama do mosteiro – lembro-me de que o suor escorria e encharcava os lençóis do pequeno quarto que eu tinha naquele sonho.

Haviam outros personagens. Por exemplo os professores, que humilhavam os alunos. Um impulso me faz desafiá-los.

O mosteiro é enorme, construído pela mais caprichosa das alvenarias. Num grande salão chegavam as escadarias que davam para as alas. Pareço estar muito satisfeito, muito feliz por estar ali, desfrutando de tudo.

De repente acordo deste sonho, mas ainda estou sonhando. É como se fosse um sonho dentro do outro. Tenho consciência de que o que vivi naquele mosteiro foi apenas um sonho, mas ainda estou sonhando sem sabê-lo. Não acordei de fato. De qualquer forma, neste outro sonho, o mosteiro persiste, mas agora estou do lado de fora dele. Quero voltar para lá. Estou triste porque sei que o que vivi ali foi apenas um sonho. Converso com os outros, que também parecem ter experimentado a mesma coisa, tendo sido aquele lugar um sonho ou não, e pergunto como estão as coisas. Em dado momento estou dentro do mosteiro, com minhas malas, escolhendo qual vai ser meu novo quarto, em que ala vou morar.

E então acordo de novo, só que dessa vez de verdade, porque tenho a necessidade de ir ao banheiro. Volto a dormir em pouco tempo, porque estou cansado. Eis que sonho com o mosteiro de novo. Uma cidade cresceu em volta dele, com praças e prédios. Há uma fila para a entrada do mosteiro. Vai acontecer uma festa. É uma festa à fantasia, e eu estou na fila. Verifico meus bolsos e percebo que esqueci os convites. Então acordo.