O que é uma pergunta?
Por mais que se diga que a Filosofia não exista desacompanhada do ato de formular perguntas, e que alguém como Descartes tenha reconhecido que a dúvida é o princípio da existência, ninguém se dedicou a uma tentativa sistemática de definir o que é uma pergunta e no que consiste a dúvida. Considerações a seu respeito floresceram no campo da filosofia analítica e da lógica, com alguns comentários também no campo da fenomenologia.
Sem querer me dedicar a um raciocínio mais pormenorizado, acho que essa questão, inicialmente, poderia ser desdobrada em diferentes níveis. Certamente poderíamos desdobrá-la num nível linguístico-gramatical, e talvez também num nível neurológico. Mas minha abordagem aqui é outra, e está de fato um tanto mais próxima da metafísica e da fenomenologia – com algumas necessárias incursões no campo da biologia evolutiva.
Dito de outra forma: o que é que a consciência precisa ter diante de si para que possa formular uma pergunta?
Para que a questão possa ser situada, colocada de uma tal forma, talvez seja necessário arriscar uma breve definição de consciência. Existiria algum empreendimento filosófico mais difícil? Talvez ambas as questões estejam interrelacionadas, e quando encontrarmos respostas para uma, encontraremos respostas para outra.
A depender de qual tradição ou corrente filosófica seguimos, a definição será diferente. Se igualamos consciência e alma, as respostas se multiplicam. Aristóteles: alma é percepção, apetite e movimento. Dois milênios depois, e o que encontramos na Filosofia da Mente? David Chalmers: a consciência é experiência. Que assim seja: a consciência é um fenômeno que envolve percepção, sensação e memória. Não precisamos ir além disso; não precisamos afirmar que ela está alocada no cérebro, nem que ela é uma faculdade da alma. Podemos estendê-la à realidade psicofísica de outros reinos, dos animais e até das plantas. Teremos de diferenciar mente e consciência? Talvez a mente seja o seu estado transitivo, ao passo em que a consciência é o terminal que garante tanto a percepção quanto outras capacidades, como memorizar, raciocinar e deliberar.
E em qual dessas instâncias se encontra a capacidade para formular perguntas? Neurocientistas, apoiados em um paradigma fisicalista, dirão que a capacidade está situada num lugar específico do cérebro. Seguindo um exercício filosófico mais arriscado, e subscrevendo a uma perspectiva bergsoniana, alguém poderia dizer que, pelo contrário, é porque a capacidade de formular perguntas se apresenta como uma faculdade necessária para a aventura da consciência, a natureza ampliou essa capacidade na medida em que a articulou a certos ganhos vitais – escolha e liberdade. O cérebro, por consequência, é um produto desse ganho de consciência.
Pensando em termos gramaticais: quais tipo de perguntas existem? Identificamos dois: perguntas abertas e perguntas fechadas. No primeiro caso: “qual é o teu nome?” – não temos um grupo definido de respostas. No segundo caso: “furar fila é certo ou errado”? – aqui há apenas das respostas possíveis.
Dizem os lógicos, contudo, que perguntas podem ser traduzidas em proposições indicativas e imperativas. Assim, “qual é o teu nome” equivale a “diga-me o teu nome” e a “eu gostaria de saber o teu nome”.
Dirão, portanto, que a função básica que define a pergunta é a demanda por informação.
Mas quais experiências produzem na consciência a necessidade de formular perguntas? Os seres humanos são os únicos seres capazes de formular perguntas? Perguntas dependem de uma linguagem verbal para serem formuladas? Qualquer um que já teve um cachorro como animal de estimação e o viu inclinar a cabeça diante de alguma situação, sabe que aquela reação corporal comporta uma dúvida. Nos vídeos em que mágicos fazem seus truques para primatas, a sua reação de espanto e riso também guarda consigo algum tipo de dúvida, que se expressa fisicamente de forma espontânea.
Mas não sabemos exatamente o que é a dúvida? É um estado mental? Seria a dúvida uma atenção voltada para a ausência de informação, ou então para a discrepância de juízos a respeito de um estado de coisas ou de um objeto? Muitas dúvidas não estão diretamente vinculadas a ausência de informação, mas a certos dilemas deliberativos: “qual caminho devo seguir?”.
A pergunta, portanto, é a expressão verbal de uma dúvida, mas muitas são as experiências que produzem dúvidas, questões, e que portanto podem ser traduzidas em perguntas? Pensemos nas experiências mais primitivas que produzem dúvidas às formas mais simples de consciência, também disponíveis para outros animais além do ser humano: “aqui onde deveria haver um objeto, não há mais nada, então para onde ele foi?”; “que barulho é este que eu não conheço”?; “que movimento imprevisível este corpo anda a percorrer?”. Todas essas perguntas depende de linguagem e gramática para se realizar, mas desconfio que essas questões já sejam experimentadas de forma intuitiva para consciências desprovidas de uma cultura verbal. Sob essas condições, as dúvidas são experimentadas e suscitam reações. O que se pode dizer é que a dúvida, afinal, é uma atenção depositada sobre descontinuidades, sobre descobertas, curiosidades, relações de causa e efeito, e sobre experiências e objetos que exigem, de fato, para si, maior atenção. A atenção que sobre eles é depositada assim o faz para que deles possa extrair algum dado – convertido em informação e absorvido dentro de um ambiente cognoscível que possa ser organizado e manipulado. Talvez a dúvida seja uma provocação à consciência: a descontinuidade dos dados sensoriais produz um intervalo na consciência que instaura uma dúvida – e a dúvida é experimentada como um estado diferente dos outros, diretamente vinculado a uma atitude.
Pode a dúvida ser um estado em si mesmo, desfrutado enquanto sensação, ou ela está demasiadamente vinculada a outras emoções? Expectativa? Ansiedade? Deslumbramento?
A capacidade para estabelecer relações de causa e efeito, portanto, fundamental para o desenvolvimento do intelecto racional, não parece ser algo exclusivo da humanidade. É no aprendizado dessas relações, do desejo de explicação, que se produzam as primeiras dúvidas – posteriormente expandidas em direções praticamente infinitas. Mas o que produz, então, o desejo por explicação? Retornamos ao problema: escolha? Liberdade? Movimento? Talvez que este caminho aberto há tanto tempo pela natureza, e avidamente seguido e expandido pelos seres humanos, seja o que caracterize a especificidade de sua profundidade cultural e social perante os outros animais.
Gadamer (Verdade e Método I), ampliando sugestões já colocadas pelo segundo Wittgenstein, teceu palavras bastante cuidadosas a respeito da pergunta no interior do paradigma hermenêutico. É certo que para ele a pergunta toma a dianteira na condução dos problemas próprios ao paradigma, mas, dizendo de forma um tanto óbvia, claro está que “para perguntar é preciso querer saber“. E, pois, por que alguém quer saber de alguma coisa? A demanda mais imediata diz respeito a uma questão de sobrevivência. Somente em realidades muito posteriores a coisa adquire uma gradação própria a um novo campo da vida humana, que é o campo do conhecimento. Nesta nova e tão recente dimensão, a colocação da pergunta depende de sua própria delimitação. Parece-nos, aliás, que o esboço de perguntas que progressivamente vão melhor se desenhando com a ajuda dos instrumentais linguísticos que inventamos e colocamos à sua disposição, contribui para a delimitação que finalmente constitui o campo científico. A pergunta é o impulso que tomamos na direção do desconhecido, algo que media o saber e o não-saber. Só pode formular uma pergunta, afinal, alguém que sabe que não sabe. Toda pergunta, de fato, tem um “sentido de orientação” e, ao fim e ao cabo, “perguntar é mais difícil do que responder“.
Disse Wittgenstein, na nota 24 de suas Invetigações Filosóficas: “Quem não tiver diante dos olhos a multiplicidade dos jogos de linguagem estará talvez inclinado a perguntas como esta: ‘o que é uma pergunta?’. – será ela a constatação de que eu não sei isso e aquilo, ou a constatação de que eu desejo que alguém pudesse me dizer…? Ou será ela a descrição do meu estado anímico de incerteza?“
Quantas outras perguntas a consciência precisou elaborar, por exemplo, antes que pudesse perguntar a si mesma o que é uma pergunta?