o dia do exame

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O dia do exame

Paralelo 20º 32º 20 sul.

Meridiano 47º 24º 03º oeste.

Terça-feira, 24º, tempo parcialmente nublado.

Hora local 0800

Umidade Alta: 33%.

O cruzamento defronte ao CIRETRAN amanhece preenchido pelos veículos das 68 autoescolas do município. Apoiados às grades, com os pés nos muros, os braços cruzados, um clima perfunctório no humor da maior parte dos candidatos que discutem entre si os macetes da prova da baliza. Os carros populares rebatizados com os nomes de cada companhia, cada um em uma grafia própria – Central; Metrópole; Bom Jesus; Líder; Modelo; Nova; Dois Irmãos; o gentílico do nome da cidade ou do Estado – pastam bovinamente o asfalto das vagas ao redor do quarteirão.

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anatomia de uma obra

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O romance do escritor luso-argelino Aconcágua Mem, intitulado Looping Roliço (Editora Ventre & Vida), de 2011,  tornou-se, há pouco tempo, objeto de culto por uma parte da crítica literária especializada em coisa alguma, três anos após uma estreia que, ninguém discorda, passou-se bem desapercebida. A obra chamou a atenção daqueles que a leram, um grosso volume de 884 páginas, especialmente depois que Aconcágua supostamente deu-se por desaparecido seis semanas após o seu lançamento, tendo sido visto pela última vez em um café, em Medelín, a cidade colombiana em que residia.

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A alma na visão de um imortal

The Lovers' Whirlwind illustrates Hell in Canto V of Dante's Inferno

 

“Já contei como foi que começamos entre nós a ideia de alma? É uma ideia tão antiga que dizemos que nasceu junto com a própria consciência. A consciência de si e do outro, e também todas as variantes daquilo que vieram a chamar de metempsicose, que é a migração das almas. Mas, entre nós, essas ideias só floresceram e criaram vínculos depois de vermos morrer muitos. Da destruição dos vínculos. É que encontrávamos semelhanças demais entre os distantes. Distantes no tempo, separados pela morte. À primeira vista não podíamos aceitar o fato de que eram gentes diferentes, pessoas diferentes, mundos diferentes. Corpos imateriais resolviam bem essa questão da semelhança. Não morríamos nós, os imortais, e entre os outros, os que morriam, acabávamos notando uma continuidade muito grande de espírito. De fluência. Não sei se foi buscando algum consolo, dando vazão a desejos simbólicos inconscientes, reprimindo ceticismos, foi porque éramos uns, poucos, e eles eram outros, muitos. Algumas almas tornavam-se maiores pela frequência com que se perpetuavam nas heranças que deixavam aos gestos. Não se tratava apenas de uma semelhança física, ou da defesa de ideias parecidas. Era algo muito mais profundo (nos termos de hoje daríamos à superfície o nome de fenótipo, e genótipo à profundidade). Essa gestualidade atemporal, compartilhada por gentes que eram estranhas entre si, nos entregava à consulta constante de figuras que só ousavam se pronunciar em circunstâncias muito específicas, quase sempre em sonhos, como ideias permanentes, almas permanentes. Dos dois atributos que competem para a constituição do humano, a vida e a morte, era o segundo que nos faltava, e era precisamente essa ausência que estilhaçava em nós qualquer princípio de humanidade que pudéssemos querer germinar. As almas, partindo e regressando em voos imêmores, nos traziam essas fagulhas de humanidades distintas e distantes. O efeito foi terrível. Liberdade seguida de enclausuramento: nós, imortais, ou não possuíamos alma nenhuma, ou, aquela que tínhamos, estava condenada à prisão perpétua do corpo, sem nunca poder se libertar na hora da morte, e tinha como breve amostra da liberdade somente algumas poucas horas de sono e pesadelo, horas em que se entregavam esvoaçando pelos firmamentos, encontrando outras almas que há muito já tinham se libertado e que bem poderiam regressar quando assim quisessem. Então a alma sempre foi para nós esse secreto grau de parentesco que os descendentes possuíam com os seus ancestrais sem que soubessem. Mas a verdade é que nunca existiu porcaria de alma nenhuma, e, mesmo não existindo, como se fosse permitido a alguma coisa que não existe a faculdade de exceder-se, outra verdade ainda mais dolorosa é a de que, todavia, já há almas demais. E morrer…”

 

 

 

 


Imagem: William Blake.

O que fazer com os restos?

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AVISO IMPORTANTE: por inúmeros motivos, mas principalmente devido ao ritmo e à duração, esse texto foi feito pra ser lido enquanto o leitor acende e fuma sozinho e silenciosamente um cigarro de maconha, preferencialmente pequeno, mas não importando se sativa ou indica.

O que fazer com os restos?

Estávamos numa festa. Bem meia-boca, por sinal. Joel chegou dizendo que tinha uma ideia. Diante das possibilidades, nenhum flerte sendo sustentado naquele momento, nenhuma música dançante rolando, Joel entendeu aquilo como uma deixa.

– É algo que não vai exigir o menor esforço, essa ideia. – disse, encontrando, com algum custo, um pequeno espaço pra se sentar no sofá logo ao meu lado.

Puxei pro meu colo um livro, uma edição em capa dura, bem velha, da antologia poética do Mario de Sá-Carneiro, deixado ali na mesa de centro por algum veterano jamais mencionado, mas que bem poderia estar pensando, quando abandonou o livro ali, em dar àquele exemplar um uso análogo ao das revistas das salas de espera dos consultórios odontológicos. Só que junto com o livro, e sobre ele, vinham um dixavador e uma sedinha Colomi. Comecei a dixavar um pedaço de maconha que Joel retirou do bolso e me entregou.

– É uma ideia. – ele disse. – tem a ver com maconha.

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A TV no Mudo

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A TV no Mudo

Manhã cinzenta na sala da Capadócia. Neblina canábica sobre picos nevados. Lá pelas tantas, Djair diz para Kebab:

– Eu precisava falar com você, um negócio.

– Que negócio? – quis saber Kebab.

– Mas não se ofenda, ok? Eu sei que você sempre se ofende…

– Eu nunca me ofendo.

– E sempre que você se ofende, fica foda, e a gente termina discutindo a própria discussão, e enfim, não é isso, mas não se ofenda, certo? – não era um costume conversarem olhando um no olho do outro. O costume era ficarem sentados em seus respectivos lugares olhando para o teto.

– Quando foi que me ofendi? – perguntou Kebab.

– Não importa, não é sobre isso…

– Porque se você falou pra eu não me ofender, deve estar esperando que eu faça isso.

– Ã? – realmente não havia entendido, assim como também Kebab não entendeu o “Ã?” do amigo e imaginou que aquilo significasse algo como: “não seja idiota, parça”.

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Cérebros Funcionais

Last exit to Babylon

“A vida. Ela não fará sentido se eu não puder, depois de morto, transferir meu cérebro para outra forma de vida. Eles congelam seu corpo até conseguirem ter tecnologia suficiente pra isso. O cérebro, preservado, quero que o coloquem depois num carro. Se não tiver grana suficiente na poupança, me botem num Aspirador-de-Pó viciado em pó. O carro, bem musculoso, apaixonando-se por outros carros, esfregando-se em outros carros, outras traseiras, rabôs-de-peixe ou capôs-de-fusca, os pneus subindo nos capôs encapotados, ou então conversíveis, tudo pra que eu pudesse sentir o que sentiria um carro quando estivesse com tesão, pois que se os carros sentissem tesão uns pelos outros, o orgasmo coletivo das ruas das metrópoles futuras seriam revoluções puerperais de efeitos indeléveis às contas públicas, e isso obrigaria os governos a adotarem meditas proibitivas em relação ao orgasmo dos veículos, criando, para tanto, provavelmente um índice capaz de medir a porcentagem de revolução latente em cada gozo e um órgão público pra fazer valer a lei do índice, e cada esporrada teria de, a partir de então, ser, pelo menos, um pouco mais contida, um pouco mais adequada às regras de convívio impostas pelos orgasmos humanos, muito mais insossos e secos que os lubrificados e equinos orgasmos automobilísticos, só que, e isso há de se levar a sério, sabendo disso tudo, alguns poucos Exploradores de Orgasmo poderiam muito bem começar a fazer isso meio que na clandestinagem, os safardanas, eles bem poderiam começar a criar Clubes de Gozo para os Automóveis mais boêmios, mais subversivos, mais dispostos a chegarem até a quinta ou sexta marcha do Orgasmo, pra depois descansar na banguela em ponto-morto, e depois engatar no tranco de novo, de repente, e isso tudo disponível também para aqueles que, mais reprimidos, quisessem se soltar um pouco mais de vez em quando, eles também montados em pneumáticos, nas lanternas-de-freio e eixos-cardãs alheios, inalando quantidades de fumaça de escapamento que Stuart Angel nenhum botaria defeito. O desempenho, também dependeria muito do combustível. E quem é que consegue pensar em combustível no Brasil sem pensar que o preço da parada só tem aumentado desde que o mundo é mundo? Coloquem-me então num Aspirador-de-Pó, ou num Saca-Rolhas. O orgasmo de cada eletro-doméstico-inteligente do futuro será alcançado toda vez que algum outro humano, ou então o próprio eletro-doméstico-inteligente, executar a função para a qual o eletro-doméstico em questão foi projetado. Um liquidificador-inteligente terá um orgasmo toda vez que destruir os ingredientes que porventura caíam em suas hélices, por exemplo. Imagine o orgasmo de um Saca-Rolhas?”

O Verme dos Rochedos.