o caronavírus

Centro da cidade, mas não lembro bem aonde eu ia. Perambulando no ar, as pendências, as urgências – não, nada disso. Eu ia tranquilo, tranquilo eu ia. Naquela noite, nenhuma novidade. Nenhuma estrela no céu. Ninguém além de mim que fosse e andasse pela calçada. Ninguém atravessando a rua. Ninguém.

O centro da cidade, àquela hora, estranhamente aceso e vazio. Ruas de nomes bem conhecidos. Eu vestia um agasalho velho que herdei de meu avô. Havia frio.

Cada barulho chamava pelo meu nome. Meus passos, enormes intervalos entre eles. Gente conversando do lado de dentro dos restaurantes. Não tinha chovido ainda naquela semana.

Bueiros explodindo.

Até que então notei um carro que vinha vindo pela rua. Íamos, eu e a rua, no mesmo sentido. O carro, era um conversível. Dava pra ver que o carro sorria. Ele vinha sozinho, guiado por nenhum motorista. Devagarzinho, foi chegando perto, e aí eu pude ver melhor que, realmente, ninguém, ninguém dirigia o veículo.

Um trote, uma peça – considerei. Sozinho na rua, hora dessas, e um carro passa por mim, nessa velocidade, sozinho, sem motorista, sem direção?

Como é que ele veio parar aqui?

Corri até o veículo e abri a porta, pensando em impedir um acidente. Montei-me no acento do motorista., como num filme de ação. Estabilizei a condução. Mas, por motivos fossem, resolvi não estacionar o carro.

A chave acionando a ignição, e um chaveiro cheio de detalhes, bonito que só vendo.

Ajustei o acento, que me parecia então muito próximo do volante, e a angulação do encosto, também precisei me acomodar. Alcei o cinto de segurança. Acelerei um pouquinho, mudei de marcha. Câmbio manual. Aquela história de sentir a máquina.

As marchas, elas me pareceram um tanto bem extensas, amplas.

Olhei à minha volta. Um silêncio danado.

Qual era o som da buzina? Fabricação italiana.

Continuei seguindo aquela rua, até parar num semáforo, a três quarteirões dali. Era tarde, ninguém atravessava o cruzamento. No entanto, quis parar pra poder conferir os documentos do automóvel.

Abri o porta-luvas, e não havia nada.

Eu nunca tinha tido um carro. Resolvi que devia entregá-lo as autoridades.

Tomei a direção de casa.

O porteiro do condomínio não me reconheceu. A placa do conversível não estava listada entre aquelas autorizadas a frequentarem o pedaço.

A coisa se resolveu rapidamente, sem problemas. O funcionário ficou fascinado com a máquina.

Nunca nenhum carro havia frequentado a vaga que no estacionamento do condomínio tinha sido destinada a mim. Larguei-o ali, e acionei o alarme. Pude ver melhor, então, os detalhes brilhantes do chaveiro. Uma coisa barroca, ou bizantina. Dei boa noite ao conversível e deixei-o dormindo, ali, no estacionamento do condomínio.

Adormeci rapidamente e sonhei com elefantes. No dia seguinte eu já tinha desistido de entregar o carro a quem quer que fosse.

Será que eu precisava procurar pelos seus donos?

Poderiam localizá-lo pela placa, a qualquer momento, quando assim quisessem. Pensei que talvez fosse o caso de ir atrás da documentação do carro, caso a polícia me parasse um dia.

Tomei o elevador, desci uns andares, até o estacionamento, e fui acordar o conversível. Ele dormia e roncava. Dormindo ainda com aquele sorriso no rosto.

Meu sorriso, tínhamos algo em comum. Olhei em volta, procurei pelo símbolo do fabricante.

Na noite anterior eu tive a certeza de que se tratava de um veículo italiano. Agora, estranhamente, estava tudo em alemão. Talvez eu tivesse me confundido – empolgado que eu estava – tedescos e italiotas.

E os documentos?

Achei que não precisávamos de documentação alguma. Os policiais, hoje em dia, com esses sistemas de informação e segurança, eles podem resolver a situação quando assim quiserem. Se esse carro pertence a mais alguém, forjar novos documentos, duplicá-lo nominalmente…

Perguntei ao carro o que é que ele achava. Qual era a opinião dele sobre isso.

Se ele era capaz de perambular pelas ruas da cidade todo sozinho, talvez, comunicar-se comigo, me dar um sinal do que fazer – se ele queria voltar pra casa, reencontrar seu dono –, não seria tão difícil. Uma buzinada, uma farolada, uma movimentação com o limpador do para-brisa…

Não. Ele não respondeu.

Quem cala consente? – esse ditado nunca me pareceu fazer sentido.

A chave, a ignição.

Chequei a quilometragem no painel, coisa que não havia feito na noite anterior. O bicho era bem rodado.

Será que tinha algum perigo? Levar no posto de gasolina, fazer um check-up. Trocar o óleo, conferir os pneus.

Quando foi que eu havia me entusiasmado desse jeito, com qualquer outra coisa?

Era o carro, e os lugares aonde eu poderia ir com ele.

Rodar o planeta, escalar uma montanha, conhecer os icebergs, parar no meio da ponte mais alta dentre todas as pontes do mundo só pra dar um grito.

Olhei para o relógio. Estava atrasado. Dariam falta no serviço. Achei que era questão de me demitir. Acelerei. O mundo era uma superfície lisa e infinita em todas as direções. A demissão.

O chefe entendeu, sem que eu precisasse explicar. Ele deu uma longa olhada no conversível, andou em volta, fitando-o de cima abaixo, e deu um chute carinhoso no pneu da frente. Estava tudo acertado entre nós. Já tinha uma fila de gente disposta a ocupar o meu cargo. Não sentiriam minha falta.

Despedimos um do outro sem muita formalidade, uma aperto de mão, e ambos tivemos de agradecer, um ao outro, pelas oportunidades aproveitadas.

Um enorme edifício, meus colegas de trabalho sorrindo pra mim, lá de cima, da janela de seus escritórios. Lá de cima, as mãos abanando, um conversível estacionado na frente da firma. Tudo obra do acaso.

Viam de longe que o automóvel tinha o mesmo sorriso que o meu.

Dirigi sem rumo pela cidade – aquela cidade que eu tanto conhecia, e que, durante todos estes anos, eu tinha percorrido a pé, ou então sendo levado de um lado ao outro pelas caronas que a vida me dava.

Decidir, eu mesmo, que caminho fazer. Ir pra qualquer lado, como assim me desse na telha. Não depender dos outros…

Eu olhava pro carro, e ainda não tinha entendido se ele era mesmo alemão ou italiano. Dirigi até uma praça e estacionei ali. Fiquei por um tempo sentado num banco, observando o movimento, até concluir algumas coisas.

Achei que precisava sair por aí me despedindo das pessoas. Sim. Foi o que me ocorreu. Aquelas ideias que a gente sabe que são certas no instante em que acontecem. O estalo de um pensamento – eu finalmente entendi qual era a minha verdadeira natureza. Andando por aí no meu conversível, eu viveria eternamente em despedida.

Resolvi que, logo de cara, pra botar em prática a minha filosofia, eu passaria na casa de grande um amigo pra me despedir dele.

Não me lembro de qual foi o amigo que eu escolhi. Aquele que estava disponível no momento. De todos os meus grandes amigos, aquele que estivesse em casa àquela hora e que pudesse me atender, me dar um abraço, se despedir de mim.

Grandes amigos, estes que sabem do tamanho das despedidas. Grandes amigos, estes que evitam as despedidas. Abraçamos um ao outro. Ele disse que o conversível me deixava mais bonito, realçava o meu sorriso, o meu penteado. Levei-o pra dar uma volta.

Capota removível, e a buzina mais excêntrica de todo o reino dos automóveis.

Ele disse que eu tinha sorte, e que devia aproveitá-la. Pediu-me uma carona.

Até onde? Perguntei.

E ele: até a próxima cidade. Então pegamos a estrada, os dois. Fomos parar na cidade mais próxima, a uns dez ou doze quilômetros dali.

No meio do caminho ele me perguntou se o veículo era um importado. E eu disse que sim. De onde? Não sei. Itália, ou Alemanha.

A estrada foi se imbricando em subidas e descidas, um vale e uns morros. Era um vilarejo no meio das montanhas, várias igrejas espalhadas, colocadas estrategicamente no pico de cada colina.

Despedimos, eu e meu amigo, apenas sorriso, nenhuma lágrima no rosto. Eu disse que demoraria pra voltar. Só daqui alguns anos, quem é que ia saber? Muita gente pra encontrar no meio do caminho, belas paisagens, as melhores estradas.

Deixei meu amigo na frente de uma enorme catedral. Ele tinha uma reunião marcada com o bispo. Coisa séria, assuntos confidenciais. Eu não precisava saber o que era. Segui o caminho, um aceno de mãos.

Ladeira após ladeira, os preparos pra uma festa local. Comer comidas típicas e falar no mesmo dialeto que os nativos.

Continuei dirigindo por aí. Continuei dirigindo até me lembrar de um antigo amor, uma velha namorada que eu tive quando era mais jovem. Os anos se passaram, seguimos caminhos distintos, e agora, por acaso, ela vivia justamente nesta cidade em que agora eu deixava o meu amigo.

Este belo vilarejo nas montanhas, com igrejas no alto de cada pico.

Eu e meu carro, passeando por aí, indo pra longe ou pra perto.

Havíamos aprendido a sorrir juntos, talvez. Ou então, sem saber quem é que tinha nascido primeiro, quem era o descendente de quem, o sorriso sendo a herança que resolvemos deixar um pro outro. Estávamos os dois, eu e o carro, na mesma fase da vida, curtindo a mesma herança, a mesma aposentadoria precoce.

Resolvi, então, visitar esta velha amiga. Amiga, ou amante. Nunca tivemos a intenção de definir os termos da nossa relação – que já era antiga quando nos conhecemos.

Cheguei sem avisar. Ela se espantou. Abriu sorriso, cara de susto, de doce susto.

Ela, como sempre, atarefada com alguma coisa. Disse que estava sem tempo nos últimos dias. Foi toda carinho e amor comigo. Foi pra mim como este sonho mais fugidio que sonhamos pela tarde, quando dormimos no sofá, e não na cama…

Mas havia tempo pra que dessemos uma volta. Uma voltinha pelos quarteirões do bairro, pra que ela também ouvisse a buzina. A buzina excêntrica. O ronco do motor. O brilho do nosso sorriso.

Meu convite, ela achou, cumpria um protocolo. Eu disse que tinha vindo pra me despedir, e que éramos os dois peritos em despedidas. Chamei-a pra ir comigo, pra que fôssemos juntos, mas ela não quis. Uma voltinha pelo bairro, ela se deu por satisfeita. Disse pra mim que a jornada era minha – minha apenas.

O amor é a vontade de não ser sozinho.

Como água dentro da água.

Combustível. Enchi o tanque. Troquei o óleo, calibrei os pneus.

Tomei a estrada que me levava ao norte. Subi até o litoral. Atravessei as montanhas. Vi o sol se pôr enquanto eu ainda dirigia. Parei num hotel à beira da estrada e pernoitei ali. O atendente elogiou o acabamento do veículo, e achei que aquilo se tratava de um elogio bastante peculiar.

Acordei cedo, dispensei o café da manhã. Continuei seguindo meu rumo. Sem mapas, sem direção. Ao meio-dia parei num posto de gasolina e almocei na companhia de uns caminhoneiros que puxaram assunto comigo. Um deles estava há cinco meses sem ver a família, entrega após entrega, trabalhando por temporadas. O outro, também longe de casa, não tinha visto os filhos crescerem, e acostumou-se com isso.

Falavam da vida, mas sem ressentimento, sem reclamações. Falavam dos fatos. Falavam da vida.

Estavam se preparando pra uma greve. Disseram que o país inteiro ia parar, tudo travado. Ninguém indo, ninguém vindo.

Pensei que aquilo era um mau sinal pra mim.

Sugiro que você vá pra outro país. Foi o que me disseram.

Estamos te dando a letra.

Eu queria correr, seguir caminho, tocar viagem. Meu carro queria, tanto quanto eu, cortar o continente, cruzar o globo. Uma greve atrasaria nossos planos. Uma greve, bem agora, bem no começo, seria terrível pros ânimos da tripulação.

Fiz amizade com os caminhoneiros. Expediram pra mim um passe que eu devia apresentar aos grevistas quando me vissem percorrendo as estradas. Eu estava autorizado a cruzar a greve para sair do país. Bastava mostrar aquele documento.

Minha foto, e a foto do conversível. O sorriso de um, o sorriso do outro.

Dias depois, na fronteira com o Paraguai, eu atravessava uma imensa planície quando senti sono e resolvi parar no acostamento e tirar um cochilo. Acordei com um gavião pousado no para-brisa. Ele me viu acordar, me viu bocejar. Espreguicei-me e ele voou, desaparecendo atrás de uma coluna de árvores.

Durante a noite cheguei numa cidadezinha bastante desolada, mergulhada no breu de um pântano. Um riacho lamacento cortava a paisagem.

Pessoas celebravam um feriado numa ponte.

Resolvi que já tinha dirigido o bastante e parei por ali. Soube então que havia uma festa. Convidaram-me pra festa, me deram uma fantasia, fiz amigos, beijei mulheres, dormi bêbado.

No dia seguinte, meu conversível esperava por mim, no meio da ponte.

Antes de partir, os moradores locais me presentearam com iguarias e espécimes de uma fruta exótica que só existe ali.

Joguei tudo no banco de trás do conversível. Então perguntaram pra mim aonde é que eu ia. Apontei a direção de eu onde eu tinha vindo, mas deixei que eles especulassem sobre o meu destino.

Tiraram fotos minhas. Disseram que colocariam aquilo no museu da cidade. Documentos históricos. Uma galeria com as fotos de todos os viajantes misteriosos que haviam passado por ali, desde o ano de 1860.

Os próximos mil quilômetros eu percorri num piscar de olhos. Dei duas caronas no meio do caminho. Um médico e uma policial. Conheceram-se no banco de trás do meu carro, e devem estar se casando no mês que vem.

Parei na capital de um dos nossos países vizinho. Ali, na praça, de frente para o palácio da presidência, meditei sobre a minha infância, os meus namoros, as minhas ambições vencidas, os meus sonhos perdidos. Dei risada ao me lembrar de casos engraçados, e de outras histórias assombrosas que me contaram pela vida.

Eu estava com fome. Parei nalgum lugar pra comer e pedi o prato do dia. Serviram mariscos. Mariscos apimentados. Eu nunca tinha comido uma pimenta tão forte. A ardência era tanto que cheguei a ficar sexualmente excitado.

Voltei pra praça, pra fazer a digestão. Vaivém. Em todos os lugares do mundo as pessoas têm pressa. A qual nação eu pertenço? Existem acordos comerciais, certas fronteiras que posso atravessar tranquilamente. De quais licenças eu precisava pra poder dirigir com o meu carro por aí?

Eu tinha comigo meu passaporte, minha cédula de identidade. Ninguém arranjaria problemas comigo. Carta verde, cartão internacional, de qual carimbo eu precisava?

Meu carro me levaria pra longe dos problemas.

Sentado ali na praça, olhando pro palácio da presidência, vendo tremularem, lá no alto, as bandeiras daquele país, resolvi que viajaria o mundo procurando pelas pimentas mais ardidas. Eu sabia da fama que aquele país, aquele povo, tinha pelas suas pimentas. Coisa tóxica.

Fiquei por lá durante mais uma semana, indo daqui até ali, provando das suas melhores pimentas. Perguntando pra qualquer um que fosse, onde é que eu encontraria as pimentas mais picantes.

Aqueles que ouvem esta história deverão ter se perguntado, até o momento, sobre a origem das minhas riquezas para poder bancar uma viagem tão onerosa, cujo único objetivo fosse este. A saliva, as coisas imediatas. Mas a verdade é bem outra: eu não tinha dinheiro algum, e as pessoas simplesmente se tornavam minhas amigas, ou então se apiedavam de mim, e me pagavam aquilo que eu lhes pedia.

A época era boa, os tempos eram bons. As safras tinham sido as melhores. O comércio internacional estava a mil. Todos os governos do mundo concordavam com a paz.

Todo mundo andava com dinheiro a mais na carteira, preparados, prevenidos contra os viajantes, as carteiras cheias de dinheiro pra quando fosse o caso de talvez cruzarem por aí com pessoas como eu.

Eu dava carona pra elas, em troca. Passeávamos pelos bairros, pelas avenidas, às vezes parávamos pra ver um filme, assistir a um jogo de futebol, comer um peixe ou então dançar nas discotecas. Fiz isso até o final do ano, por toda a América do Sul, conhecendo um monte de gente curiosa pelo caminho: jornalistas, militares, diplomatas, artistas, prostitutas, traficantes, espiões, bispos e cardeais, gurus do oriente, reis de alguma tribo africana, ou então desertores intergaláticos (sim, houve um passageiro meu que se assumia enquanto tal).

No ano seguinte, resolvi trocar de continente. Subi pela América Central, e passei a me envolver então com guerrilheiros, dançarinas, viciados, piratas, arqueólogos e vulcanólogos.

É claro que meus amigos e familiares me telefonaram muitas vezes, perguntaram por mim, propuseram encontros e reencontros. Eu não tinha pressa. Haveria de reencontrá-los a qualquer momento, eu sabia. Eu estava me despedindo – me despedindo deles até hoje.

Quantos acenos de mão, quanta saudade eu aprendi a evitar? O fim do mundo, mas se o mundo é plano, e não redondo… uma planície sem fim, debandar até o infinito, despedir-se pra sempre…

Perigos eu não corria. Às vezes de noite, sob a chuva, perigos não havia. O conversível seguia sempre pelo caminho mais seguro. Pegar no sono, sair da pista, errar o caminho, perder o retorno…

O mundo era uma estrada em festa. Um circuito de festivais de culinária, cidadezinhas preparando banquetes extravagantes para os viajantes que chegam de longe pra visitá-los. As estradas estavam sempre cheias de gente, esse povo do vaivém, com histórias interessantes pra contar. Caravanas!

Mesmo quando eu ia pelas estradas mais perigosas, perigo nenhum. Gente disposta a se ajudar. Aquelas estradas que serpenteiam pela montanha, e numa de suas curvas um grupo de poetas portugueses recitando suas saudades em torno da fogueira. Aqueles ermos sem cerca, com bichos atravessando a pista, o vento soprando, e no fundo de uma estrada interestadual, bem no fundo onde termina a concessão, uma festa. Um churrasco com as brasas ainda acesas. Eu tinha uns óculos escuros e um chapéu que ganhei de alguém em algum lugar, só pra usar nestas situações.

Óculos escuros e um chapéu – minha verdadeira natureza. A realização do meu espírito. E a minha vida? Tão fácil de ver, de enxergar. Tão palpável que dava pra tocá-la. Era a vida do carro. Era o jeitão dele, o estilo dele. Tínhamos nos casado um com o outro, vivíamos juntos, nossa casa. Nenhum ciúme, nenhuma desavença, nenhum desacordo, nada, nenhum drama.

Nunca encontrei um outro modelo como aquele, essa mistura de italianos a alemães.

Pedágios e balsas. Fui parar na América do Norte. Conheci todos os grandes centros da cultura estadunidense, e, naquele país dos yankees, fui capa de pelos menos três revistas e dei entrevistas em sete ou oito programas de televisão. Ganhei dinheiro, muito dinheiro.

O carro também, participou de festas beneficentes e desfilou nos salões do automóvel. Ganhou dinheiro, muito dinheiro.

Não lembro o que foi que fizemos com aquele dinheiro todo, eu e ele. Não lembro nem se chegamos a sacar aquela quantia, a descontar aqueles cheques.

Qual foi o próximo lugar que visitamos? O Caribe ou o Alasca? Achamos que era o caso de desenvolver novas ideias, ou então, melhor, conhecer os lugares antigos da Terra, aprender com os clássicos, visitar as ruínas.

De lá fui à Ásia, China, Índia, todo o Sudeste Asiático. Aprendi a me despedir em outros idiomas, fazendo outros gestos. Comecei a entender os sinais de trânsito dos outros países, outros sentidos. Outras placas, outros alfabetos. Eu entendia tudo. Visitei as cidades antigas do mundo pra me despedir delas – as cidades antigas, que são mesmo tão antigas que parece até que já nos despedimos dela em algum outro momento.

Os anos se passaram, um depois do outro. Eu envelhecia, mas o conversível permanecia jovem. O esquema, sempre o mesmo. Caronas, caronas e depois mais caronas, e então a chance de conversar com tudo que era gente, e me botar no meio do caminho de tudo quanto era gente de tudo quanto era lugar. Filas de espera, congestionamentos, túneis e pontes interditadas, contramão, sempre parando pra pedir informações, sem pressa, levando e trazendo.

Sempre me despedindo.

Os orientais, com seus olhares de despedida.

Paisagens cada vez mais vastas. Estes países em que o trânsito é uma bagunça, um monte de buzinas, tudo travado, animais e pessoas no meio da pista.

Eu não tinha saudade de nada. Não sentia falta de nada. Não esperava mais nada. Nas mesas de baralho, minha presença, praças do mundo, uma aparição nos velhos hotéis. O motorista fantasma, uma gentileza qualquer, no meio da noite, o conversível fantasma, indo de um país pro outro, aprendendo a sorrir em muitos idiomas.

Envelheci. Calejado. Trocando pneus e mudando de marcha. Meu corpo e o acento do motorista, as duas coisas lapidadas pelo tempo, moldadas e modeladas, feitas uma pra outra. Já tínhamos aquela intimidade quase desgraçada, o carro e eu. A quilometragem aumentava, e o seu sorriso lá, brilhando, do mesmo jeito – brilhando como brilhava desde o começo da nossa viagem. Todas as suas funções, perfeitamente operantes. Tudo nos trinques. Mesmo depois daquelas estradas todas, de tanta montanha, no meio de tanto desterro, deserto, buracos dos quais desviei no último segundo, barrancos, derrapagens.

Quando foi que a gente caiu nalgum lugar sem conseguir sair depois?

Uma década inteira, e não tínhamos parado em nenhum momento. Escreveram um livro sobre nós dois, eu e o meu carro. Quiseram negociar comigo os direitos pra uma película, mas, por algum motivo, não achei boa ideia. Os motivos nunca tinham sido aqueles.

Sim, os motivos. Era disso que me perguntavam. Citavam outros heróis, viajantes, gente que corria por ali, que subia montanhas pedalando bicicletas, que atravessava o gelo em veleiros. Pelo visto, o conversível tinha me colocado nesse estranho rol de gente que tinha superado as distâncias, saído por aí, viajado. Gente que viu o mundo, que deu a volta ao mundo.

No fundo dos acentos, o cheiro do estofado, quantas coisas eu não teria perdido ali? O desperdício, às vezes até mesmo uns pensamentos, se eu vasculhasse, conseguiria resgatar de lá de dentro.

As coisas ao mesmo tempo são naturais e muito estranhas. Quando anoiteceu sobre a Europa, eu me vi vagando por entre as ruelas de cidades muito velhas, batendo os dentes de tanto frio que eu sentia, indeciso, muito indeciso a respeito da possibilidade de estacionar o carro e parar em algum lugar pra dormir.

O inverno chegou. Um inverno duro, mais longo do que os outros. Alistei-me num serviço voluntário de entregas. Ajudar na distribuição das riquezas, cumprir com minhas obrigações. Éramos chefiados por um colégio de freiras.

O mundo tinha sido uma festa durante todos aqueles anos. As estradas, todas cheias de gente. Gente com tanta coisa pra contar… e eu continuava conhecendo gente apenas pra me despedir depois.

Prestando serviços aonde eu ia, todo o voluntarismo do mundo. Cada encontro é uma celebração inédita. Cada ser humano é um feriado. Eu me despedi dos feriados. Eu me despedi das instituições filantrópicas. Eu me despedi das freiras. Eu me despedi dos pobres e esfomeados, e me despedi dos imigrantes ilegais e das crianças órfãs.

Não lembro se foi em Londres ou Paris, ou nalguma capital do Leste, Budapeste, realmente não me lembro. Era noite, uma noite muito tranquila, muito pacata. Era uma rua estreita, e não tinha ninguém naquela rua.

Diminuí a velocidade.

Qual é o tamanho dos quarteirões? Quantos habitantes temos aqui nesta cidade? Como é o fuso horário? De onde vieram os primeiros moradores?

O carro se arrastava lentamente pela rua. Uma rua estreita, bem pouco iluminada. Um pouco do frio do inverno tinha se refugiado ali, e se recusado a ir embora com a mudança das estações.

O mundo desacelerou.

Você sabe como é que faz, não sabe? Perguntei pro carro, ou então falei comigo.

Abri as portas do veículo, e deixei a direção firme, rente ao sentido da rua. Dei uma última vasculhada pelo interior do carro, pra ver se esquecia alguma coisa ali – algum amor, talvez, eu deixei por lá. Passeávamos naquela velocidade, bem devagarzinho. Tranquilo, ponto-morto.

Então saltei pra fora do veículo. Firmei os pés no asfalto. Parado no meio da rua, dei adeus ao conversível, que continuou seguindo em frente.

Ele se despediu de mim com uma buzinada. Aquela buzina excêntrica, italiana ou alemã.

Não sei em que altura foi que ele encontrou com outro motorista.

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