pequeno ensaio sobre o homem-formiga

Seria possível realizar mentalmente os poderes do Homem-Formiga?

Imaginemos a sua figura.

Imaginemos o Homem-Formiga tornando-se infinitamente pequeno, reduzindo seu tamanho.

A cada segundo, metade do que era.

Consideremos, então, a pequenez. A pequenez enquanto um delírio. O delírio de alguém que se põe a admirar a sua criação em seus mínimos detalhes. Um artífice, um matemático, um arquiteto, um filósofo. É preciso diminuir o tamanho do pensamento, dobrá-lo sobre si mesmo, reduzi-lo a uma simulação microscópica de si mesmo.

A vontade que cria o superpoder do Homem-Formiga é a da sabotagem e da infiltração. Uma ideia microscópica poderia imiscuir-se no pensamento de alguém. Sem que se perceba. A sabotagem depende de frestas e de falhas que tornam a estrutura vulnerável. O Homem-Formiga tem a possibilidade de verificar de perto a estreiteza, e a espessura de cada fresta de seu próprio pensamento.

Sim, como muralhas erguendo-se do chão. As muralhas de um labirinto que cresce, dobrando de tamanho a cada segundo.

As frestas crescem junto. Tudo está cheio de frestas – todo o mundo é cheio de buracos que crescem conforme diminuímos o nosso tamanho.

Talvez, por uma destas frestas, seja possível entrever a essência das coisas – a menor das partículas que compõem a matéria, o pixel do Universo. Quem busca a essência, por tabela também busca a alma. Entrar na fissura e no vão das coisas é algo que demandaria a habilidade de saber se sujeitar a espaços bem reduzidos, e a perspectivas abismais. Quem reduz o próprio tamanho, aumenta os abismos ao seu redor.

Kant diz que se o nosso mundo é redondo e finito, então estamos condenados a conviver uns com os outros, sem a opção de podermos debandar até o infinito, caso nosso planeta fosse uma planície sem fim, em todas as direções. Um carpete se torna um labirinto. Uma gota d’água se torna um oceano.

O poder de encolher a si mesmo é o poder de aumentar a distância entre os lugares. Quanto menor nosso tamanho, maior o mundo.

Perde-se a referência do próprio tamanho. Seria possível explicar o Universo a partir deste lugar?, a partir de uma visão panorâmica e microscópica do Todo? E se o movimento do Zoom não se interrompesse nunca – podendo sempre aumentar ou diminuir?

Onde começa e onde termina um corpo?

Ficar infinitamente pequeno e ultrapassar os limites da consciência, agachar-se, encolher-se em posição fetal e ficar menor que os átomos, e menor que as ligações entre os átomos, menor que os quarks, e menor ainda do que a espuma quântica que compõe o tecido da realidade, pra ir parar numa outra realidade onde funcionam outras leis da natureza. Outras regras de troca de material e informação, outra física, cinemática – e regras e leis curiosamente integradas neste nosso universo mais amplo, de seres maiúsculos.

Um mundo, provavelmente, muito mais sutil que o nosso, porque nele habitam partículas tão pequenas que sua existência está condicionada a uma pequena duração temporal.

Corpos que nunca pisam em falso. Os sussurros mais breves da matéria.

Mas e fazer o movimento contrário – ou seja, crescer e aumentar de tamanho até o infinito?

Imaginemos um Homem-Formiga dotado com tais poderes, e viajando num sentido contrário. Agigantar-se – um fenômeno de maior densidade. De acúmulo de densidade. Algo cuja transgressão dos limites levaria talvez a um plano mais denso do que a própria matéria sólida tal e qual a conhecemos. Ultrapassar o tamanho de uma galáxia.

Que pensamento chega a ser tão grande assim?

Que pensamento é capaz de conceber sistemas solares, nebulosas e supernovas? Que pensamento é capaz de imaginar cada planeta em sua concretude de detalhes, cada corpo celeste, cada hipótese de vida em potencial aguardando pra ser despertada nestes lugares mais áridos da existência?

Crescer a este ponto, ganhar uma tal densidade. Talvez algo que envolva outros estados da matéria.

No menor, mais sutil. No maior, mais denso.

Com exceção dos buracos negros que concentram massa.

Densidade. E o que quer dizer a sutileza? Estar vulnerável às menores frequências do ambiente. Formas (de vida? de informação? o que é que possível carregar neste nível?) extremamente vulneráveis ao movimento de qualquer corpo, de qualquer vibração. Sabemos que insetos – dentre eles as formigas – captam frequências que os humanos não são capazes de perceber. O comportamento das moléculas e dos átomos também obedecem a forças de atração que não exercem efeito sobre os corpos humanos como um todo, maiores e mais densos. Somos varados por um trilhão destes pequenos fenômenos a cada segundo. Milhares de pequenos processos tomam lugar dentro de nós. Na superfície e abaixo dela. Pois e neste nível subquântico? Que tipo de força sutil só pode ser conhecida neste nível? Sabemos da gravidade, do magnetismo, das afinidades eletivas entre determinados compostos químicos. Qual é a força que agiria neste nível mais mínimo da existência, estabelecendo conexões, participando da enorme cadeia de ações e reações do Cosmos – e obedecendo a que vontade?

Quanto ao poder do Homem-Formiga – poder de imaginação, diga-se: a capacidade de alterar o tamanho das coisas não conferiria ao Homem-Formiga o poder de modificar a dimensão dos outros corpos? Realizar a sua mágica sobre os outros. Encolher um gorila. Mas e quanto a outras coisas mais insólitas? Trazer uma molécula para a escala humana? Uma molécula de água? Um átomo? Um átomo do tamanho de uma lua colocado pra orbitar o sol. Ou então seres microscópicos, como um vírus? Um vírus do tamanho de um edifício, que tal?

No nível do pensamento, é isto que fazemos: situamos a existência dentro de sua escala. Parece assustador encolher até ficar do tamanho de seu próprio pensamento? Chegar perto de ver os contornos de uma ideia ionizada, positiva ou negativa?

E daí voltar com a certeza de um universo infinitamente povoado, porque são infinitas as paisagens e as vizinhanças que parecem brotar de forma espontânea quando passamos por elas.

Alguém diria então que reduzir o próprio tamanho a tal ponto, pelo menos em ideia, é uma prática meditativa budista muito antiga. Sim, uma das estratégias inventadas pelos monges e voltadas para a dissolução do ego. A chance de testemunhar o universo em perspectivas tão espetaculares, reduzindo a si mesmo a uma dimensão microscópica, é algo que possui um efeito devastador sobre o ego, afetando a personalidade e o comportamento dos que passam por isso.

É como ver o planeta do alto.

A célula, o Universo.

Quais são os sons que ouvimos ali?

No nível mais ínfimo da trama do tecido da realidade, tudo aquilo que se vê – mesmo que pareça feito de matéria – é, na verdade, só a passagem do tempo. É neste borrão da passagem do tempo que podemos localizar a essência mais microscopicamente sutil de todas as coisas. E ela se perde numa fração de nanosegundo.

Toda a materialidade, toda a vida prática e concreta que levamos só pode ser alguma coisa dentro desta fração de tempo.

Piscar os olhos é piscá-lo infinitas vezes.

É assim que se olha para as estrelas? É assim que se lê o passado?

Como é a possibilidade de interagir com as coisas quando elas se desfazem pra depois se refazerem em outra escala? Como é então interferir nos processos que acontecem numa tal magnitude?

Imaginemos a precisão linguística necessária para estabelecer uma relação com estas outras formas e descrevê-las para nós mesmos.

Dentro da lente deste hipermicroscópio chamado de imaginação, a mira mais precisa. Desenvolvemos uma delicadeza robótica para manipular o hipermicroscópio. Qualquer movimento desloca a lente pra lonjuras situadas a anos-luz de distância. Um pensamento enganchado em outro.

Em cada um destes universos, o Homem-Formiga realiza uma postura de yoga diferente.

Fazê-lo dançar na superfície do mundo, gerando sons harmoniosos. Cada corpo só pode ter alguma noção sobre o alcance de seus próprios movimentos dentro de uma determinada perspectiva que sempre estará, por sua vez, limitada a um espectro escalar, a um raio, a uma circunferência. Conhecer a própria consciência é tentar entender até onde se estende o seu alcance, o seu raio de ação – conhecer seus próprios limites. Até onde uma escolha produz os seus efeitos. Limites corporais. De si e dos outros. A mente, como parte de um corpo, compartilhando o espaço com outros corpos.

Falo isso porque penso na seguinte pergunta: como será a ética corporal das criaturas sub-atômicas?

Como é que se pede licença pruns seres tão pequenos?

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