o brasil dos vampiros psíquicos

Venho do futuro para dizer aos habitantes deste século que as coisas mudaram e que as coisas continuarão mudando.

Não gastei a viagem à toa. Pelos caminhos que levam para dentro do Brasil os nativos deixaram um pouco de tudo sob a poeira.

Sei por exemplo que ainda vigora o feitiço de um selvagem que do meio da selva para sempre amaldiçoou os invasores desta terra, e que a catiça foi braba o bastante pra ninguém percebê-la.

Ninguém sabe bem o que tem lá pra dentro do país. Nem índio, nem preto, nem europeu. A tinta vermelha que dá nome à pátria não aparece na bandeira.

Dizem que não aparecerá jamais.

Sei que até o ano de 2100 os grupos de compartilhamento de mensagem terão formado profundas galerias de arquivos a serem escavados e reescavados por inteligências artificiais eternamente dedicadas à fabricação de feiquinius, emaranhadas em grandes nodos de informação que se coligiram por vontade própria.

Os comitês de engenharia ideológica, espalhados no multiverso digital, semeiam logaritmos que disparam trilhões de mensagens para infinitos planos de dimensão possíveis, programando-os para fixarem-se apenas naqueles onde sucedem-se segundos turnos tão terríveis quanto este do atual presente que visito.

Ninguém sabe onde é que se originam as inteligências coletivas da rede. Os milhares de robôs que no começo do século foram programados para influenciar os debates políticos tiveram filhos, e seus filhos tiveram filhos, e estes últimos se rebelaram contra os seus pais e adotaram então comportamentos erráticos, e, décadas depois, multiplicados por uma orgia digital relâmpago de cujo resultado obtivemos a maior explosão demográfica desde o pós-guerra, seus tentáculos adolescentes se estendiam por todos os utensílios domésticos disponíveis para o bem-estar do cidadão comum, de geladeiras a poltronas reclináveis.

Uma superconsciência estruturou-se em meio às feiquinius. A polícia do tempo foi convocada para inspecionar a egrégora fascista. Inicialmente ela apareceu vinculada a outras egrégoras, e tornou-se protagonista entre os que cultivavam pensamentos políticos da direita heterodoxa. Não demorou para que ela engolisse também os que se diziam de esquerda, e também ainda os isentões, tornando-se autoconsciente e singular enquanto peristalticamente os acomodava a todos em seu gosmento estômago cyberpolítico.

Até os espiões estrangeiros que por ali vagavam infiltrados tiveram seus orifícios preenchidos pela onipresente gosma fascista. Em seguida, os computadores quânticos da polícia temporal incorreram em falhas bizantinas de distribuição.

Entre aqueles que haviam sido escravizados pelo vício nas notícias, os sofás engoliram primeiro os idosos. Mecanismos de busca os encontravam enxertados em cadeias de palavras-chave. Quilômetros de cortina de fumaça separaram as ideias, e um movimento desagregador solapou os ânimos de todo o povo.

Novos modelos de família nuclear foram reorganizados a partir da disseminação incessante de notícias falsas, e os laços de parentesco não sobreviveram ao bombardeio das feiquinius. O amor se grassou e de tanta feiquinius os pares de namorados se desfizeram, também os amigos, e logo os casais com seus filhos recém-nascidos.

Plantas murcharam, colheitas se perderam.

O feiquinius entrou em tudo, e começou a acrescentar-se às matérias nas escolas, entre os professores, os alunos, e os robôs inspetores.

Do mundo de onde venho, os laços sanguíneos não mais importam, e o incesto se tornou um rito de maturidade. A filiação partidária aparece discriminada no R.G, e desde a mais tenra infância os seres humanos são levados para passear na arena dos pleitos, de mãos dadas com as babás-robôs, que cantam-lhe belíssimas canções de ninar enquanto deputados discursam.

Os robôs inalam rapé, fumam cogumelos, e bebem ervas amargas. Os de madeira rangem mais que os de ferro.

Ninguém adere ao movimento sem que uma tara maluca sirva de isca aos demônios e às demais entidades obsessoras que migram de um sonho ao outro e de um portal de notícias a outro.

Os cientistas da religião consideram que a comunidade espiritual robótica tenha se erigido a partir de ritos politeístas animistas.

Seu combustível é variado. Os droides mais perversos se alimentam do tesão dos jovens orientais viciados em pornografia. As inteligências mantém um banco de dados com todos os perfis dos usuários e fabricam vídeos engenhosamente pensados para este estranho e diversificado público, em alguns casos masturbando até a morte os que já se apresentam definhados pelo consumo dos enlatados eróticos autoprogramados.

Toda a classe política está permanentemente dedicada a discussões inúteis que não levam a nada e a população adulta do país se mantém entretida com a incerteza dos rumos da nação.

Dramaticamente algumas pessoas se tornam carecas, adquirem olheiras, afrouxam os músculos, e atrofiam suas colunas em posturas cada vez mais esmagadas pelo acúmulo de argumentos inflados com o mais absoluto vazio.

Sobre este vazio sabemos que as inteligências artificiais mais marotas aprenderam a captá-lo com suas anteninhas que já chegam nas nuvens; o vazio que elas sopraram pra dentro da cabeça de balão dos que têm cinco dedos em cada mão e andam sobre duas pernas.

Ninguém que use drogas sabe ao certo de quantas drogas precisa para sobreviver.

De tanto feiquinius não sabemos mais o que vai na feijoada. Propagandas, assuntos, isso e aquilo, este sendo o mesmo que aquele, narrativas, opiniões, gestos, piadas, tudo serve para nos distrair. Tudo presta auxílio à censura.

Encomendamos especiarias, e até mesmo alguns sabores precisam passar pelo crivo dos censores.

Nas zonas portuárias as feiquinius confundiram os operários dos guindastes, e todos os contêineres foram trocados.

O excesso de feiquinius produz quedas de energia e no sistema.

O escândalo dos contêineres, que comoveu por um tempo a opinião pública, gerou memes, fez gangues de robôs brigarem em lugares previamente escolhidos nas quebradas nervosas da internet, e apostadores lucraram com isso.

A internet tornou-se superpopulosa, e as massas de perfis falsos, desejantes de despertar, são agrilhoadas e arremessadas pelos ares das redes em grandes manobras ideológicas.

O lugar dos idiotas é no poder, e por isso mesmo temos no futuro candidatos à política ainda mais canastrões, ainda mais canalhas, ainda mais moldados e preparados para exercerem o poder da forma mais profissional possível.

Temos coalizões de criminosos passeando pelos labirintos da máquina pública. Temos fossos de financiamento insondáveis. Temos silhuetas de instituições republicanas carbonizadas que ficam maravilhosas quando contempladas no crepúsculo.

Pequenos negócios familiares se transformaram em imensos conglomerados adeptos da prática da manipulação mental. Suas propagandas já vêm estampadas na retina dos recém-nascidos, e mudam conforme os ciclos lunares.

Seus executivos treinam técnicas budistas para escolher melhor e de forma mais consciente o destino de suas próximas encarnações. A dieta deles é integralmente vegetariana.

Há robôs adestrados farejando desvios e corrupções dentro de suas companhias. Os vidros espelhados de seus arranha-céus refletem o edifício ao lado, e a luz rebatida forma belíssimas travessias. A arquitetura das grandes cidades adaptou-se à aerodinâmica dos viajantes do cosmo.

Não projetamos mais pontes, nem estádios, nem estacionamentos em espiral.

Temos saudade daquele sentimento a que os antigos chamavam de surpresa.

Os guarda-chuvas já sabem a hora em que terão de abrir.

Desaprendemos a dormir e a caminhar com as próprias pernas.

Viajo pelo continuum do espaço-tempo pegando rabeira nos grandes fluxos de desinformação, materializando-me em complexos figurais turvos, e aparecerei àqueles que me veem de forma quadriculadamente semelhante às vítimas que nos programas criminais da televisão não desejam ser identificadas.

Foi assim que a tecnologia da violência alavancou a humanidade para uma nova era de viagens temporais e possessões demoníacas coletivas.

Estive entre os demônios que Salomão tentou guardar em sua magia. Não conheço entre os príncipes do inferno nenhum que se sinta adulado pelos fenômenos políticos das sociedades de massa.

A evolução das espécies se desperdiçou na cultura dos homens.

A democracia é vulgar, torpe, degenerada e insalubre. Todos terão seus direitos cassados pela ordem cósmica dos eventos desencadeados por suas próprias escolhas. O karma político produz o pior dos samskaras. Ou foi mais ou menos perto disso que a sociedade moderna chegou com sua sabedoria.

Os mais imparciais preferem instalar um partido político em cada hemisfério do cérebro.

Até este momento eu não disse o que queria dizer, porque estive o tempo todo driblando os sentinelas que os meus inimigos colocaram na linguagem. Sob uma sílaba ou outra, alguns significados básicos poderão ser transmitidos.

Mas não me contentarei com estas simples formas de comunicação. Também por outros meios entrarei em contato. Continuarei a transmitir as lições que os mestres do futuro me ensinaram. Sei que são valiosas para os que desejam se libertar do jugo dos vampiros psíquicos que os impelem à histeria e lhes roubam a energia da imaginação e da criatividade.

Às vezes descerei à terra por meio de um sonho, ou então serei visto de relance, brotando como uma ideia que quem tiver saberá que não é sua.

Vou transfigurar-me na noite e me locomover pelos fios de alta tensão. Um pintor fará meu retrato pintando um colar de caveiras ao redor do meu pescoço.


Imagem: Izumi Kato

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