o deus que existe

Alguns cientistas tântricos compartilham de uma mesma ideia segundo a qual a criação do cosmo é um adensamento de vontades que até então permaneciam contidas em um eterno estado de sutileza.

Assim, do Nada teria surgido alguma coisa, que é a Matéria – do não-manifesto ao manifestado. Da energia à matéria. Da matéria aos elementos do universo, a natureza, e os animais.

Muitos veem nisso um gesto da Grande Mente Cósmica feito na tentativa de entender a si mesma, produzindo a multiplicidade a partir da unidade.

Este gesto poderia ser descrito de forma circular. Noutras vezes já foi descrito como uma dança. O alcance mais extremo deste gesto é o ponto em que Deus se diferencia de si mesmo. Nesta diferenciação se amplia a distância entre o criador e a criatura, e, por meio dela, é dada à criatura a liberdade de se esquecer do criador, e, portanto, de sua origem divina. Após a ação criativa, há, ainda um movimento de retorno. O que se entende por um movimento de retorno, depois da culminação da multiplicação da vida, da qual resulta, por exemplo, a espécie humana, é uma vontade de regresso ao seio divino.

Um ponto a partir do qual este deus já pode olhar para si mesmo. Talvez como uma flexão divina, ou a percepção de um espelho. Um encontro de si com si ou então já com alguma outra coisa.

Toda esta variedade de vida, incluindo aí os instantes sinistros, profanos, e miseráveis da existência, seriam então a evidência de um certo sucesso no gesto criativo da Mente Cósmica, posto que ela teria sido capaz de diferenciar-se de si mesma. Também a violência, as guerras, e a sensualidade, podem ser interpretadas como um adensamento ainda maior desta vontade transcendental.

Apesar de não figurar entre a última das criaturas nascidas da infinita criatividade divina, mas desfrutando da eterna primavera do mundo material, nonde frutificam os ecossistemas da mente, os seres humanos representam um degrau acima do restante das outras espécies porque, diferentemente de todas as outras, cultivam a religião.

Desta forma, a ansiedade pelas coisas divinas e sagradas, ou, pela união com Deus, sentimentos comuns aos povos de muitas culturas, nada mais é do que a saudade que estas partículas teriam de regressar ao estado original em que se encontravam diluídas no interminável brilho da graça divina, nas camadas mais numinosas e sutis da existência.

Menos aceita entre os cientistas tântricos é uma outra ideia, aparecida na Caxemira durante o século IX, atrelada à figura do mestre Anandasara, e perseguida à semelhança de uma heresia pelos adeptos do shivaísmo.

Trata-se de um interessante e raríssimo caso de ceticismo ateu dentro do tradicional sistema tântrico da região, à época já mais ou menos condensado no darsana das tríades, o Trika, e depois textualizado pelo sábio Abhivanagupta, autor de muitos tratados, dentre eles o Tantraloka.

Anandasara sustentava que a libertação do espírito para além do invólucro do corpo e, consequentemente, a regozijante dissolução da alma individual na grande alma cósmica, nada mais era do que uma perversão, ou, a expressão de uma vontade ilusória, nascida de uma trágica confusão mental: tal vontade funcionando como uma memória dos primeiros momentos da existência individual, a fecundação, e aquilo que hoje entendemos como a penetração do espermatozóide no óvulo, agora gravada como memória no samskara de todos os homens

Assim, a saudade de Deus seria, em tese, uma saudade natural do calor e da bem-aventurança do útero materno.

Os comentários de Anandasara, conservados nos fragmentos de um tratado em sânscrito, demonstram uma sofisticada percepção dos processos anatômicos e biológicos, sendo esta a razão pela qual preservou-se de forma relevante dentro de uma tradição bastante vasta, apesar de ser considerado profano e ateu.

As palavras utilizadas pelos discípulos de Anandasara, responsáveis pelas transcrição de seus ensinamentos orais, corroboram para o imaginário liberado de seus estados de transe e meditação. Termos que podemos traduzir como “imenso ovo brilhante”, “útero divino”, “luz turva e ondulante da gestação”, “líquido indiferenciado e dançante”  são evocados para descrever as visões sem dúvida indescritíveis da mente cósmica. E ainda, “raio gerador”, “atravessar a membrana sutil”, “desfazer-se e refazer-se com outra forma”, “unir-se à contraparte gerando um”, são utilizados para descrever as sensações desfrutadas tanto pela centelha que durante a fecundação geraria o feto, quanto aquelas sentidas pelo espírito ao libertar-se do corpo para integrar a mente divina.

Outros muitos trechos são reservados para enaltecer o orgasmo masculino e o feminino, sublinhando entre eles uma diferença: o imenso prazer obtido pelo prolongamento da ereção e a contenção do gozo entre os homens, e o acúmulo de orgasmos entre as mulheres. Para tanto, algumas técnicas são ensinadas, acompanhadas por mantras devocionais dirigidos ao órgão reprodutor das fêmeas.

Hinos e posições para meditação, massagens, e atos sexuais prolongados estão compilados num volume jamais traduzido para qualquer outro idioma além do sânscrito.

Dentre estas posições, uma que é bastante recomendada é aquela em que o homem medita com o rosto colado ao ventre da mulher, que por sua vez recita um longo mantra de encantamento sexual.

Não sabemos ao certo como a escola de Anandasara chegou a ser de fato perseguida. Sua oposição às ideias abstratas de um deus transcendente lhe renderam a pecha de iconoclasta e sensualista. Sua interpretação erotizada das imagens de Shiva e Shakti  o fizeram ser expulso da região da Caxemira, da qual imagina-se ter migrado então para o sul da Índia.

Pensando em Anandasara, nesta sua forma de comparar os momentos mais extremos e mais significativos da existência, a saber, o nascimento, a morte, e o sexo, me recordo os versos de um antigo e velho e pouco celebrado poeta sem nome:

 

desaparecer sob o teu ventre

voltar para dentro de ti

e mergulhar na luz sanguínea

dos sonhos que terei depois de morto.

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