já temos tecnologia pra isso

Sou minha própria ciência e religião.

Coleciono gênios guardados em lâmpadas. Não sei quantos livros já deixei que me roubassem.

Temos tecnologia pra criar qualquer alimento a partir do nada. Por sobre toda a Terra correm os nossos cabos, nossos dutos, nossos sentinelas, os olhos de nossos vigias. Temos a tecnologia que nos permite antecipar o mais imprevisível dos imprevistos.

Fui domesticado por minha magia. Estou aprendendo a respirar corretamente.

Sou filho de um obreiro. Acredito no deus que habita em cada um. Queimo incensos para os meus animais de estimação. Se amanhã o sol obscurecer e um manto escuro cobrir os céus, terei como primeira hipótese o juízo final.

Temos tecnologia para diminuir as surpresas. Temos tecnologia de produção de grãos & tecnologia motorizada que faça a distribuição do que quer que se possa fabricar pelo ilimitado poder da inteligência. Temos trens, cargueiros, imensos armazéns, depósitos e estacionamentos.

Em meu prédio instalaram elevadores que andam na horizontal.

Temos tecnologia para diminuir despesas.

Temos tecnologia para produzir mais tecnologia, e tecnologia empregada na intenção de diminuir o tempo de desenvolvimento entre uma tecnologia e outra, de modos que cada vez a tecnologia se desenvolve mais depressa.

Todo o instinto de sobrevivência da espécie tem sido aprimorado com o desenvolvimento de novas tecnologias emocionais conquistadas após séculos de convívio social, ao longo de um imenso empreendimento civilizacional, agora usadas para prevenir os indivíduos dos perigos do contato físico.

Temos tecnologia para interpor escudos de silicone entre os indivíduos, a fim de evitar dolorosas colisões nas vias públicas.

Podemos dirigir por horas e horas sem pegar no sono. Nunca mais esqueceremos dos compromissos marcados, nem nossa memória terá lacunas daqui pra frente. Não encontraremos mais desculpas para as vezes em que tivermos de furar um encontro.

Por isso lembrarei de todas as vezes em que minha tecnologia falhou e eu não tinha um plano B.

Nossos aparelhos de som aprenderam a imitar o canto de pássaros raros e nossos sapatos conseguem se engraxar sozinhos, fazendo isso a cada quinze dias.

Temos tecnologia para produzir as melhores piadas, aquelas que provocarão as gargalhadas mais contagiosas, e tecnologia para aprimorar estas risadas até que sejam elas os verdadeiros motivos para continuarmos fazendo piadas.

Temos homenzinhos pilotando nuvens por aí, provendo o conforto meteorológico necessário às nações que não possuem contas atrasadas com o Tempo. São nuvens carregadas de chuva, às vezes garoas, quando muito tempestades…

Temos tecnologia para reverter desertos, drenar mangues, criar florestas, semear rios, e também máquinas monstruosas que nos permitem represar montanhas, gerar energia com as forças da natureza, e conter a fúria das marés.

Temos tecnologia para começar guerras, mediar conflitos e encerrar polêmicas. Temos computadores trabalhando durante vinte e quatro horas para subtrair o maior número de obstáculos que porventura possam existir no meio do caminho quando vamos de um ponto de observação ao outro.

Temos tecnologia para preencher o carinho que falta às crianças nos orfanatos. Temos a tecnologia da fome, da miséria, dos hospícios e dos desastres naturais.

Temos o cérebro de milhares de inteligências artificiais processando as melhores soluções de trânsito para a malha urbana das grandes cidades. Nossos computadores já calcularam todas as possibilidades da existência, e farão o favor de nos mostrar o melhor caminho, cuidando de preservar-nos o livre-arbítrio para aqueles que optarem por atalhos.

Temos controladores de voo intergalático, robôs comandando granjas cheias de frangos com o peito inflado de hormônio, gêmeos siameses divididos pelo bisturi quântico que uma impressora 3D acrescentou fisicamente a este plano dimensional. Podemos mapear o genoma e transmitir biomassa através dos fluxos de informação.

Tenho em mim a tecnologia que me levaria à altura de visões panorâmicas por sobre o mundo da matéria e dos sentidos e, por isso, vou professando a mais tecnológica das religiões. Temos mandalas secretadas por glândulas.

Aprendi tudo isso com os manuais dos eletrodomésticos, tive aulas com as gravações dos serviços de atendimento, fiz amizade com os mensageiros das respostas automáticas.

Sinto falta de outra figura humana ornamentando minha casa além de mim.

Até o final do século teremos tecnologia para resolver todos os grandes problemas criados por nossa própria espécie.

Temos uma tecnologia planetária suficientemente desenvolvida para que enviemos nossa alma para outros astros e corpos celestes mais distantes onde já sabemos que a vida se abriga, tal e qual aqui na Terra. E também possuímos tecnologia espiritual avançada o bastante para proteger aqueles que acabaram de morrer, cuidando para que procurem novos corpos melhor preparados para recebê-los em outras vidas menos dispendiosas do que aquelas que viveram por último.

O presente se atrasa para o futuro. Não conquistei nada com minhas mãos. Tudo já havia quando aqui cheguei. Apenas tive o mundo como herança, e a sua tecnologia.

Dediquei-me a observar novas formas de vida, desenvolver charadas, decifrar enigmas, e a criar jogos que divertiriam povos de muitas culturas e lugares.

Temos tecnologia para tornar interessantes os passeios de teleférico e pedalinho.

Graduados em muitas competências, dispomos de professores e tradutores que criaram tecnologias capazes de traduzir aquilo que é dito pelos estranhos seres de Sírius, donos de aparelhos bucais tão complexos que são mesmo capazes de pronunciar todas as vogais e consoantes de nosso alfabeto ao mesmo tempo.

Domesticamos espécies inteiras e interferimos no curso natural das coisas. Temos tecnologia para projetar outra natureza, melhorada, e engravidá-la com os últimos embriões da Criação.

Temos animais que nos fazem companhia, e bestas ferozes a quem damos alimento pelo puro prazer de vê-las devorando alguma coisa. Temos a tecnologia do afeto e da empatia, que nos foi ensinada pela própria beleza nascida destes gestos, o carinho exigido pelo rosto de um animal dócil.

Sirvo-me das coisas que chegam até mim. Sou bem-recebido em todos os reinos. O aquecedor de meu apartamento possui opções adaptadas para estilos de vida muito diferentes e exóticos. Minhas empresas organizam a si mesmas, e no final do dia recitam balanços positivos direto em meu cérebro para que eu durma, enquanto um gato geneticamente modificado ronrona em meu peito.

Sonho com um anjo radiante como um sol, com três pares de asas brancas que cobrem metade do céu, e um rosto de três faces mirando direções diferentes.

Um dia adormeci em minha jacuzzi, planejando com isso me matar. Fui acordado pelos alarmes que eu mesmo instalei e que são à prova de suicídio.

Nossa perversão já galgou graus tecnológicos tão insanos & sombrios que nem mesmo parece existir algo que não tenha sido ainda feito ou cogitado.

Temos a sofisticadíssima tecnologia dos orgasmos e dos genitais.

Pensando nas coisas boas, já desfrutamos de todos os benefícios que a tecnologia corporal pode nos oferecer quando nos deitamos nas noites de sexo e acordamos amolecidos pelo calor do sono compartilhado com outro corpo tão ou até mais tecnologicamente avançado que o nosso.

Temos tecnologia para curar doenças e sanar epidemias. Temos tecnologia para explicar os mitos de todas as religiões, e esclarecer todos os enganos perpetrados pelos agentes do senso comum e, por tabela, também inventamos recentemente uma tecnologia capaz de desmentir boatos e cortar pela raiz as falsas notícias antes que elas se espalhem.

Temos tecnologia para escolher os melhores líderes, e contatos e acordos internacionais que os permitam sentar cada um de um lado da mesa e darem início a tratados de cooperação. Temos tecnologia para prender ladrões e coibir o crime. Temos tecnologia de sobra para esvaziar nossas prisões e transformá-las em escolas.

Temos armas que reacenderiam o sol de uma galáxia morta, e uma matemática que nos permite olhar para além do átomo. Aprendemos a minerar asteroides e a manipular a matéria negra. Acostumamo-nos com este mundo de conveniências conquistado pela união de um milhão de objetos práticos, pela edificação de um mobiliário sensível, e por utensílios decorativos e funcionais que poderão elevar ao infinito a produtividade de nossos cidadãos caso estes, depois do trabalho, se permitam levar pelo descanso em meio às almofadas moles, imergidos no som de televisores sintonizados em ondas mais que soníferas, durante as horas previstas para tanto.

Temos a grande dádiva da confeitaria humana, pela qual aprendemos a produzir as melhores coisas para dissolver em nossa língua. Doces portugueses, frutas fibrosas, bolos de muitos andares que seduzem o paladar com suas deliciosas camadas à vista. Temos a alquimia das especiarias e dos condimentos trabalhando em nosso favor. Cultivamos pimentas ardidas e pedimos para que nossos robôs experimentem e nos digam se estão muito picantes ou não.

Temos a tecnologia das horas que podem ser prolongadas ou diminuídas. Temos labirintos que se moldaram pela força dos traumas e das privações, e agulhas pressionando pontos e nervos que desencadeiam reações vorazes e mudanças de comportamento.

Fiquei surpreso quando descobri que ainda trocamos correspondências e esperamos por mais de vinte minutos no ponto de ônibus, mas já temos tecnologia para que ninguém mais precise fazer isso.

Se assim fazemos, é porque queremos.

Temos a tecnologia da tolerância, do respeito mútuo, e dos valores democráticos.

Temos a tecnologia que nos permite mudar de cor, engrossar ou afinar a voz, e estacionar em espaços que nos parecem demasiadamente apertados.

E para todas as dores musculares que a tecnologia do tédio criar em nosso tecido, pílulas mais que eficientes terão efeitos inadiáveis.

Temos a arquitetura das casas nas árvores, temos barragens feitas por supercastores, e no final do dia, quando as horas transmutam-se nessas cores que somente a tecnologia de um sonho consegue imitar, temos a música.

A música. Amigos cientistas me disseram o seguinte:

“A música é a razão pela qual inúmeros espíritos resolveram encarnar na Terra”.

“Foi pra aprender com os humanos”.

“Os seres humanos são os inventores da música no universo. Pelo menos neste quadrante da galáxia, umas tantas outras almas transmigram pra cá na intenção de aprenderem ritmos e melodias que levarão de volta pro reino de onde vieram”.

E para acompanhar a magia ressonante de lugar nenhum, temos a dança, cuja tecnologia já superou até mesmo nossa própria capacidade de explicação.

Meu coração se derrete ao pensar nas dançarinas dos séculos vindouros. Temos a tecnologia dos quadris.

Já contemplei as artes da cerâmica, a modelagem do mármore, pinturas nas quais vemos mundos mais verdadeiros que este nosso, horizontes imaginados pela técnica e nos quais ondulam miragens.

Visitei os laboratórios de meus amigos, trabalhei na oficina de doutores mais inteligentes do que eu, e que cultivavam ecossistemas dentro de provetas. Onde armazenarei aquilo tudo que já me contaram, e aquilo que haverão de me ensinar ainda?

Sou o embaixador de uma família que entrará em extinção. Diplomatas de reinos impossíveis me convidaram para uma festa que está em andamento há muitas décadas.

Enchi a agenda e não receberei visitas. Tenho tecnologia para fazer e desfazer amigos, e aplicativos que me induzem a pegar caronas com cavalos alados que vêm pousar em meu terraço.

Um eclipse é aguardado para esta noite. Tenho tecnologia para fazê-lo durar para sempre.


Imagem: Tishk Barjanzi

 

 

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