o deus fisiológico

O traje era mesmo um tanto quente, como havia comentado minha amiga.

“Não são lá muito tropicais na vestimenta”, foi o que ela me disse. “Os ritos são eslavos. O deus não é tão tradicionalista quanto parece, mas eles preferem manter as aparências do que se adaptar ao clima daqui”.

Fazia calor. A luz vinha das velas e de quatro tochas colocadas nas paredes. Mesmo em sendo lenta a música, e ainda mais lento o cântico, eu transpirava.

Dizia-se que naquele momento do ritual todos costumavam transpirar.

Lúcia, minha amiga, já se tinha infiltrado na seita há algum tempo. Graduou-se nos mistérios e havia galgado algumas posições la dentro. Éramos bons amigos, mas em se tratando de ocultismo sempre fui somente um diletante. A curiosidade me levou até ali, e me aceitaram entre os novatos. Fiquei satisfeito em participar do ritual com o papel que me cabia: um observador ou um coadjuvante que não faria falta e nem poderia comprometer os trabalhos da noite.

De alguma forma eu teria de agradecer um bocado à minha amiga, por me ter convidado.

“Não é tão secreto assim, na verdade. Posso te colocar na lista de convidados na próxima sessão aberta”, foi o que ouvi. “Já mencionei o teu nome lá dentro mais de uma vez”.

Não tinham tantos segredos quanto os maçons, nem tanta mística quanto os Rosacruz, é verdade. Mas alguma coisa em minha amiga mudou depois que ela se tornou uma iniciada. Todos tinham percebido a mudança, mas ninguém saberia apontar exatamente o que tinha mudado.

Foi numa mansão no subúrbio, e desconfio que ninguém vivesse ali. Pelo requinte e luxo da coisa toda, não seria tão arriscado dizer que a seita possuía membros importantes e provenientes das classes abastadas. Mesmo que fosse noite e as luzes estivessem quase todas apagadas quando chegamos, não pude deixar de notar a mobília e os objetos caros de decoração.

Castiçais, por exemplo, não poderiam faltar.

Mas lá embaixo era diferente. A noite era quente, sem indício de chuva. Nenhuma corrente de vento tinha permissão pra entrar no subsolo. Sem janelas. Além da porta que levava a uma espécie de antessala preparatória e daí então à casa, pela qual todos nós havíamos passado, o único duto ou abertura que levava para fora do salão em que estávamos agora era um largo fosso ao redor do qual a seita se distribuía, e que ia em direção ao centro da terra.

Era um fosso circular pelo qual um carro passaria. Tenho a impressão de que em seu fundo não havia outra coisa que não fosse a escuridão, mas não cheguei a olhá-la. Aproximar-me de suas bordas foi o bastante para fazer acelerar meu coração e me encher de precauções, físicas, espirituais, sobrenaturais, quais fossem.

Pensando bem, o fosso não levava para fora do salão subterrâneo, mas para dentro. Mais dentro ainda de onde estávamos.

Há quanto tempo tinham perfurado aquela passagem? Quanto tempo levou a empreitada? Quem teria feito a obra? Os próprios membros da seita ou algum grupo de pedreiros contratados para um serviço sobre o qual nunca mais quiseram nem falar a respeito, gente tranquila e trabalhadeira que nem desconfiava da existência de outros deuses além do seu?

Ninguém conversou muito naquela noite do ritual. Se tinham assuntos pendentes, haviam deixado tudo pra outra hora. Mesmo assim, quando um olhar cruzava com outro, demorava pra que se desgarrassem.

A posição de cada um na cerimônia era organizada segundo os graus de iniciação, os mais velhos ficavam nas primeiras fileiras, e todos estavam dispostos segundo a hierarquia, vestidos adequadamente para tanto, de pé e ao redor do fosso.

Os três mais antigos, experientes naqueles mistérios, dois homens e uma mulher, vestiam robes vermelhos, e um colar com uma pedra de jade trazida orgulhosamente no peito de cada um deles.

Os doze membros seguintes, dentre eles a minha amiga, Lúcia, estavam ajoelhados ao redor dos outros três, trajavam robes brancos, e eram os responsáveis pela bela cantoria gutural que se tinha iniciado a pelo menos uns dez minutos.

Lembro-me de quando ela começou a praticar aquela técnica de canto gutural, e eu não podia deixar de me divertir. Mas aqui as coisas eram bem mais sombrias, ou então deveriam ser, e ainda menos propícias ao riso, muito embora, eternamente leal à minha alma de criança levada, era justamente nessas horas que eu sentia vontade de rir, tal e qual a criança que ri no fundo da sala, desfrutando de sua posição numa zona inacessível do campo de visão da professora.

O deus que adorávamos, o que pensaria ele de um riso reprimido?

Os outros dezoito membros, entre os quais eu me encontrava, usávamos todos robes pretos, com o desenho de um pequeno caracol dourado nas costas. Aguardávamos o final da música para que pudéssemos então exercer nossa função ali: estávamos encarregados de assediar e insultar a fêmea que trariam daí a pouco, findados os cânticos.

Seria um momento crucial, depois do qual os ritos previam que os doze membros vestidos de branco defecariam sobre a jovem fêmea, e também ejaculariam e mijariam sobre ela. Necessário dizer que, naquele mesmo dia, os membros responsáveis por esta etapa do ritual haviam ingerido quantidades de alimento e bebida relativamente generosas, o suficiente para que, nesta altura da cerimônia, pudessem estar tão ou até mais desconfortáveis do que eu, segurando a urina na bexiga e as fezes nos portões do esfíncter.

Em seguida, entregariam a jovem fêmea lambuzada aos mestres, e estes membros mais velhos empreenderiam a chamada “ordenhação”, pela qual masturbariam a garota sobre o fosso.

Sabíamos todos que não se tratava de uma virgem, e que aquilo estava ainda um tanto longe de um sacrifício pagão tradicional. O deus que adorávamos, do fundo de suas profundezas, era dono de gostos estranhos, e não partilhava dos mesmos caprichos conhecidos pelos deuses antigos, muito embora também antigo fosse.

Eu não conhecia a garota. Tinham-na escolhido com suas mágicas? Ou melhor, tinha o próprio deus escolhido a ela?

“A comunicação entre o deus e os mestres iniciados é feita a partir da interpretação que eles fazem dos rastros que o deus deixa por onde passa: seus dejetos, suas excreções, secreções, seus arrotos, gestos obscenos, e outras demonstrações de sua grandiosa falta de classe”.

“Por que escolheram adorá-lo?”, perguntei à minha amiga.

“Pela saúde”, ela sorriu, sabendo que não era uma resposta definitiva.

“Pelo bom funcionamento dos aparelhos excretores?”

“É uma certa pragmática divina: acreditamos que, pela exclusividade, temos mais chances de obter os seus prodígios. Se um deus não tem tanta gente pra acudir, ele haverá de concentrar os seus milagres onde mais fiéis puderem testemunhá-los”.

“E quais são os milagres de um deus tão repugnante?”

“O dom do asco, o talento da náusea, o poder do indigesto, a magia da decomposição furibunda e do avesso, o total controle sobre os domínios não acessados pela higiene comum”.

Antes que o aroma do incesso se estabelecesse, senti um forte cheiro de mofo. Era mesmo um tanto úmido ali embaixo.

Recomendado fosse que eu, àquela hora, estivesse bem concentrado nos versos que os de branco entoavam. É que me colocaram num canto desprivilegiado, e a toda hora tinha de limpar o suor da testa, esfregando a manga do robe contra as têmporas e então fungando o nariz que começava a escorrer.

Por força da umidade ou da gravidade, me era bem difícil concentrar. Eu não tinha certeza de minha capacidade em compreender o que cantavam os adeptos. Faltei demais nas aulas de ruteno antigo, o suficiente para que algumas passagens soassem completamente estranhas.

Pelo excesso de movimentos e pela respiração ofegante, considerei que pudesse àquela altura importunar os outros colegas de seita que estavam próximos de mim e, como consequência indesejável, comprometer a egrégora que tanto trabalharam para edificar ali – o que seria uma legítima trapalhada espiritual de minha parte. Olhei ao redor, e não consegui distinguir ninguém. Todos tinham o rosto voltado para baixo, em profunda reverência, como assim mandava o figurino da cerimônia.

Ao reparar na maneira com que respiravam, nas dobras de suas vestes, senti que todos também suavam em bicas, tanto quanto eu, e que aquilo, na verdade, fazia parte do ritual. Era algo que o deus apreciava, e que nos deixava suculentos, cobertos por um malcheiroso verniz.

Minha respiração ficou mais grave, naquele momento. Não era qualquer coisa tranquila imaginar que eu estava preparando meu corpo para entrar em comunhão com uma entidade tão incontrolável e imprevisível.

Ainda que eu atravesse um mar de sebo, não temerei mal algum.

“O deus é um deus subterrâneo, patrono das cavidades, explorador do submundo. Não sabemos ainda o seu nome, mas sabemos de seu apetite pelas coisas mais baixas e vulgares deste plano de existência”, assim me havia alertado Lúcia. “Sabemos também que ele é canhoto”.

“O deus é canhoto?”.

Diante das minhas inquisições, foi então que ela me deu a ideia de comparecer, não sem antes estudar uma pequena bibliografia científica que era selecionada especialmente para os curiosos.

“Na semana que anteceder o ritual, sugiro que use todas as drogas que puder usar, coma tudo que de pior puder comer, McDonalds, fritura, presunto, salsicha, beba tudo que puder beber, Coca-Cola com 51, e transe com o máximo de pessoas que conseguir, pessoas que de preferência tenham transado com outras pessoas em alguma data próxima”.

“Esse último item vai ser um pouco complicado, se é que me entende. De uns tempos pra cá ficou difícil…”

“Infelizmente não posso mais te ajudar nesse quesito”, ela me disse ainda desferindo uma piscadela. “E todo mundo reclama que é mesmo um tanto difícil, porque além de tudo é preciso que você fique sem tomar banho por uma semana”.

A fedentina dominava a sessão. Os corpos mais próximos do fosso logo começaram a se assanhar. Uma onda de peidos, arrotos e escarros se propagou para o restante dos iniciados. Saíam de forma involuntária, e não demorou para que eu também fizesse o mesmo sem precisar de qualquer esforço.

Algo queria sair de dentro de mim.

“O único texto digno de nota em que o deus aparece mencionado é num tratado de demonologia bastante obscuro, escrito em lituano, e datado do século XIX, podendo ser encontrado apenas na biblioteca da própria seita”, me disse Lúcia naquele mesmo dia, quando almoçávamos em uma lanchonete.

“Já te deixaram folheá-lo?”, perguntei a ela.

“Vi um dos mestres manuseando. Não há nenhuma ilustração que represente o deus, e nenhum sigilo que nos descreva seu endereço. Todas as suas formas são abjetas. É um deus sem horário, não vem nem do sul, nem do leste. Diz-se ali que vem de dentro, e que no passado os feiticeiros da Rutênia o teriam evocado uma única vez, para amaldiçoar o sistema endócrino dos cossacos durante a Revolta de Khmelnitski”.

“Isso se dá em razão da falta de asseamento por parte dos cossacos?”

“Costuma-se dizer que do rio Dniepre para o leste os hábitos de higiene deixam um pouco a desejar”.

“O que me espanta não é a falta de higiene dos cossacos, mas saber que uns feiticeiros eslavos entendessem alguma coisa sobre glândulas já naquela época”.

“Engraçado”, ela sorriu. “Foi a mesma questão que eu levantei”.

A semana no trabalho decorreu sem quaisquer novidades. A vida como blogueiro da VICE não era, na verdade, tão estimulante quanto me parecera um dia. Com o passar do tempo, nada de extraordinário ou muito exótico consegue sobreviver à banalidade do mundo virtual, à facilidade de se produzir conteúdo para um público incapaz de qualquer leitura menos superficial. Não dei ao ofício a devida atenção. A ansiedade cresceu ao longo dos dias, na mesma proporção da minha sujeira. Segui as recomendações à risca: não tomei banhos, não escovei meus dentes, nem lavei as mãos em nenhuma das minhas idas ao banheiro, tampouco usei quaisquer métodos para limpar o ânus, nem o papel higiênico, e menos ainda a infame mangueirinha.

Era uma sensação tão desconfortável e incômoda, quer dizer, eu me sentia de alguma forma tão terrível e repugnante que, depois de um tempo, as coisas até se inverteram. Passei e desfrutar daquilo como se fosse um luxo. Senti-me livre, soberano e, em certa medida, perigoso.

Obviamente que um amigo, com quem sempre tive um pouco mais de liberdade, comentou em voz baixa sobre o odor que nos últimos dias meu organismo exalava. Respondi a ele que fazia parte de um tratamento pelo qual estava passando, emendei algumas explicações esotéricas, e acrescentei que tudo havia sido recentemente referendado pela comunidade científica. Julgo que ele foi bem-sucedido em simular interesse, e até pediu por mais detalhes. Eu disse então que traria a ele um artigo sobre o assunto, e não falamos mais nisso.

Dei conta de finalizar, antes do prazo, uma reportagem sobre as festas nas saunas da capital. Tinham passado por uma baixa mas parecia que iam voltar com tudo no próximo inverno. A chefia adiantou minha folga, e fiquei com o fim de semana livre, sem ter de revisar nenhum artigo, nem entrevistar nenhum maluco.

“E por que no Brasil? Por que logo aqui?”, não pude deixar de perguntar à minha amiga, numa conversa que tivemos pelo telefone.

“Dizem eles que o Brasil, nos últimos anos, passou por uma série de transformações que fizeram brotar no país uma certa consciência.”

“O que você quer dizer com ‘uma certa consciência’?”

“Não entenda consciência com o mesmo significado que damos à palavra. Não se trata de lucidez, ou de auto-consciência. Pense nisso como um terreno que foi preparado para servir de moradia a uma entidade com essas dimensões”.

“Preparado por quem?”

“Por ninguém em específico, mas pela mera casualidade de nossa história, pela concatenação dos nossos erros, por nossa preferência pela má educação, pela degeneração da cultura, a perversão dos nossos atributos, a destruição de tudo que era puro, belo, e consagrado pela natureza”.

“Então deus é mesmo brasileiro?”

“Não o Deus cristão que é o sujeito deste jargão, mas certamente alguns deuses se adaptaram muito bem ao clima da nossa civilização”.

Minha participação na seita respondia aos interesses profissionais que durante um tempo alimentei, quando quis divulgar aquela gente estranha ao mundo. Eu vivia mergulhado na leitura de coisas insólitas, religiões estranhas do extremo oriente ou da América Central, ritos culinários excêntricos, músicas impossíveis de se ouvir por mais de dois minutos…

Prestando atenção, todas as minhas últimas movimentações haviam sido feitas na direção daquelas coisas que me pareciam misteriosas ou estranhas. Até as mulheres com quem me relacionei, de uns tempos ŕa cá, tinham sido escolhidas por alguma razão estética quase inconsciente. Eu não as escolhia pela beleza, nem porque fossem simpáticas, mas por serem exóticas, como se me lembrassem especiarias, incensos, a árvore da cabala ou um mapa astral.

Interpretei a minha aceitação entre os membros da seita como uma espécie de prêmio. Lúcia me levou para conhecer o mestre responsável pela iniciação de novos membros, e tentei ser engraçado e parecer interessante e inteligente na medida certa. Ele foi com a minha cara. Ao voltar para casa, depois do nosso encontro em um café movimentado, pensei que escreveria uma matéria ímpar e então seria para sempre elogiado por ela. Foi o próprio ritual, e sequência de eventos que testemunhei, que me levou a mudar de ideia.

À medida que os corpos passaram a se comportar de maneira semelhante, todos peidávamos sem qualquer constrangimento, arrotávamos, cuspíamos no chão, assoávamos o nariz com as mãos e então as limpávamos esfregando na parede. De um jeito muito curioso aquela sucessão de gestos grosseiros começou a fazer nascer em mim a sensação de alguma coisa muito poderosa se acumulando. Começou no intestino e se espalhou pelo corpo. Era bem nítido, e no momento em que a garota entrou, a sensação estava bem na garganta.

Não foi difícil insultar a jovem dama quando ela chegou. Foi quase que uma consequência natural e necessária, por meio da qual libertávamos essa ânsia que se havia acumulado. Ela já estava completamente nua, e era, de fato, uma jovem muito bela. Eu não a conhecia, mas imaginava que, pelo porte e o semblante, fosse de uma família importante e rica, e, ao imaginar aquilo, também pensei na reação de seus pais caso viessem a saber dos lugares que a filha andava frequentando.

Talvez porque fosse muito bela, ou porque seu corpo fosse mesmo deslumbrante e perfeito, a minha vontade em ofendê-la e de dizer-lhe impropérios tornou-se ainda maior. Saiu como se com isso eu libertasse uma grande quantidade de ar dos meus pulmões, e foi assim com todos os outros.

– Vadia! Cadela!

Eu não vi quem foi que gritou primeiro, mas logo todos seguiram:

– Sua puta! Putinha!

– Piranha, bruxa! Vaca!

– Sua branquela! Escrota!

Conforme xingávamos, mais vontade tínhamos em xingar, como uma turba enfurecida. E bastou pouco para que não transformássemos a coisa numa agressão física já àquela altura do ritual.

Por que teria ela escolhido passar por isso? Sua condição naquele instante fazia dela a pessoa mais corajosa de toda a seita, mas por que alguém se dispõe a tamanha humilhação, com o rosto e o corpo à mostra? A fé é um fenômeno complicado, e de fato um tanto inexplicável, mas eu tinha dúvidas se a fé era o bastante para explicar aquilo. Quais seriam os benefícios? Quais os efeitos da adoração? E, aliás, por que escolher uma forma de adoração tão asquerosa?

Minha amiga nunca conseguiu me convencer de fato. Meu intelecto não aceitava, mas o coração já tinha aceitado e se aberto para o deus há muito mais tempo do que eu imaginava.

Talvez por isso tivessem escolhido aquela garota, que, por sua beleza, tornaria o contraste com a imundície ainda mais gritante. Mais aviltante seria o resultado da cerimônia. Assim, eu via naquilo alguma semelhança com a expiação dos pecados pelo bode maçônico, muito embora a relação aqui fosse inversa, e ninguém estivesse interessado em expiar os seus pecados, mas em enaltecê-los.

Ela foi levada por entre nós até que chegasse aos doze que vestiam trajes brancos. Ao chegar, interromperam a cantoria, e então a jovem foi logo recebida por uma saraivada de fezes e urina. Os membros abaixaram as calças, levantaram os trajes, defecaram nas mãos e esparramaram por sobre todo o belíssimo corpo da garota aquela mistura cinzenta. Alguns esfregavam suas bundas cagadas direto no corpo dela. Os homens esfregavam o pênis numa atitude descontrolada e ensandecida O cheirum se tornou incontornável, e já não se podia mais respirar com o nariz e disfarçar a cara feia, tamanha agressividade exalava do volume de dejetos colocados ali. Assim, aos poucos, nossos rostos foram ficando deformados pelo ódio, pelo calor, e pelo mau-cheiro.

Procurei minha amiga entre os de traje branco e me imaginei cumprindo o papel que cabia a ela. Teria, eu, interpretado tão bem? Teria sido eu capaz de dar vazão, abrir fisicamente as comportas do meu ser, e direcionar à outra pessoa tudo aquilo que me era interdito?

Notei que a jovem garota chorava, e pensei por um segundo só que estivessem fazendo aquilo contra à vontade dela. Então as coisas ficaram ainda mais interessantes na minha mente. Sendo sincero comigo mesmo, eu entendia a menor parte do que estava acontecendo, mas minha intuição completava o restante: os riscos, as consequências, mas lágrimas também eram bem-vindas nos ritos do deus abjeto, especialmente se fossem verdadeiras. Ela chorava timidamente enquanto alguns membros mijavam e vomitavam nos seus pés.

Totalmente untada em excrementos, do cabelo até os pés, ela se dirigiu à última etapa da cerimônia. Os anciões colocaram uma armação de ferro sobre o fosso, e a garota subiu ali e ficou suspensa sobre o vazio do buraco. Apoiados na armação, mas com os corpos ainda em terra firme, à beira do fosso, começaram a acariciar a garota. Revezadamente introduziam os seus dedos na vagina da jovem e massageavam o clitóris, enquanto alguns ainda continuavam gritando ofensas.

Ela então se deitou sobre a armação de ferro e a masturbação se tornou mais intensa. Eu não estaria exagerando se dissesse que, daí então, todos os homens no salão tiveram uma ereção e alguns, dentre todos, acharam que estavam livres para se masturbarem também.

Eu, no exato instante em que senti meu membro se intumescer dentro da cueca, fui visitado por um fluxo de imagens e sensações arrepiantes, tamanho asco e constrangimento me provocavam. Era uma sequência alucinante de imagens que me teriam provocado enjoo ao longo de minha existência, do nascimento até o presente:

Vezes em que peidei e não consegui segurar; arrotos com o gosto acre do retrofluxo; pontadas desferidas por bolhas de gás no estômago; uma camisinha usada boiando na água da privada no banheiro de uma rodoviária; um chiclete mastigado e cuspido no ralo de um mictório; os vermes na ferida de um animal; uma verruga de proporções inaceitáveis; o chorume no fundo de um saco de lixo; doenças venéreas; suturas mal executadas; fraldas usadas; enxerto de carne; a saliva de um doente em estado terminal; abortos espontâneos; formas de vida parasitárias; a água da enxurrada lavando as roupas dos mendigos e outras tantas cenas indescritíveis, somadas e multiplicadas pelos sucedâneos mais crus desta terra.

O que me parecia é que aquela perspectiva total das nojeiras presenciadas por mim tinha sido provocada pela aproximação do deus. Ele vagava pelas profundezas, eu ouvia seu suspiro toda vez que dava a descarga, e recebia sua benção em cada digestão. Quantos deuses estamos adorando involuntariamente com a mera função do peristaltismo? Quantas libações vertemos e sacrifícios fazemos para deuses que sequer nos foram mencionados? Agradeci pelo privilégio de observar a simultaneidade de todas essas impurezas que me haviam sido mostradas, como se eu observasse através de um Aleph do nojo, e considerei que havia sido este o fator de mudança no comportamento de minha amiga. Ninguém jamais seria o mesmo depois mergulhar a vista num caleidoscópio desta ordem. Ninguém seria capaz de escrever sobre aquilo. Uma nova humanidade nascia dali.

Como eu contaria isso às outras pessoas? Como eu voltaria a almoçar um dia com os meus pais? Como é que eu ainda desejaria “feliz natal” ou “feliz ano novo” para alguém? Como poderia eu prestar minhas condolências ao familiar de um morto, depois de tudo que testemunhei e senti ali embaixo?

Foi quando aquela torrente de imagens se viu interrompida, e voltei a abrir os olhos. Os gemidos da garota tinham ficado mais altos. O orgasmo estava próximo, mas notei que a armação de ferro vacilava. Minha respiração ficou ainda mais tensa, e meus batimentos se aceleram após aventar uma terrível ideia: os anciões puxariam a armação de ferro, e a garota cairia no fosso.

Neste instante me vi vencido. As coisas eram muito mais sérias do que eu poderia supor. A armação balançava, e a garota continuava ali suspensa, sendo “ordenhada”, com cada ancião dedicado a estimular a boca, os seios, e o clitóris. Ela sabia de seu destino? Não é possível que não soubesse; não é possível que soubesse!

Não consegui entender se eu desejava interromper aquilo, ou se eu queria ver consumada a minha hipótese. De qualquer forma, não pude correr para acudi-la. Reprimi a minha vontade de interceder, porque as consequências me seriam drásticas – tanto para mim quanto para minha amiga – e notei que, diante do perigo, meu pênis ficava ainda mais ereto e mais excitado.

“Não acredito! Eles vão fazer isso mesmo! Vão jogar a garota lá embaixo!”, era mais ou menos isso que eu pensava: “Eles não estão pra brincadeira! Não pode ser! Eu não acredito!”

Então me foi mais fácil acreditar num deus mundano, estranho e sem forma, do que na crueldade da fé humana. E talvez deva ter sido esse raciocínio, brilhante como uma centelha antes de se apagar, que me fez frear meu ímpeto e aproveitar a cena justo de onde eu estava.

Quem eu era? Por que o mundo me sugeriu a ida àquele inferno? Sem que eu encontrasse respostas, a garota deu um último gemido, mais longo do que todos os outros, e acredito que aquele deve ter sido um dos orgasmos mais plenos da raça humana, antes que por fim removessem a armação de ferro e ela caísse, sem ter onde segurar com as mãos.

“É só um truque, não é?” perguntei a um rapaz que estava do meu lado. “É só um truque! Eles devem ter uma rede de proteção, alguma coisa segurando…!” – então ele fez um sinal para que eu me calasse.

Àquilo se sucedeu um único segundo de silêncio, no qual quis que as coisas finalmente chegassem a seu fim. Mas do silêncio ouvi um som, muito mais terrível do que aquela cena, e mais terrível até do que o próprio deus que venerávamos.

Era o choro de uma criança, ecoando do centro da terra, aonde ia dar o fosso.

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