à sombra do riso

O movimentado Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, às quatro horas da tarde num dia quente de outubro. Não há qualquer descrição que possa acrescentar algo à memória dos que já transitaram por aquele lugar. O fluxo contínuo de gente apressada, e gente de tantos tipos, é algo comum às cenas da metrópole.

Outra coisa convém de naquela hora, no entanto, interromper a rotina do terminal. Um grande círculo se forma ao redor de uma pessoa caída ao chão que ri desesperadamente. Fenômeno mais grave que uma convulsão ou que um ataque de epilepsia, pois que tais reações indicam um método correto de intervir e solucionar o problema, o ataque de gargalhadas deixa a multidão atônita.

É um sujeito negro, de uns cinquenta anos, cabelo e barba grisalhos. Usa roupas comuns, uma calça jeans surrada, e uma camisa verde de trabalhador. Aliança no dedo. Um dos sapatos ainda está calçado, e a outra parte do par deve ter se soltado de seu pé durante o ataque de riso que, dizem, já dura mais de vinte minutos. Enquanto rola pelo chão, se engasga, cospe, tosse, o homem consegue verbalizar algumas coisas sem, entretanto, explicar aos outros o motivo de tanta risada: “é demais! É engraçado demais! Vocês não vêem? Meu Deus! Quem foi? Alguém por favor! Ai ai ai! Para para para! Não pode ser!”

“Ele está sozinho?”, perguntam-se os observadores.

“Como foi que começou?”

“Do que ele está rindo?”

“Não tomou os remédios?”

“Bebeu demais?”

“Não é o caso de chamar os seguranças?”

Mas a gargalhada se intensifica. O homem vai mudando de cor, passando do negro ao roxo, porque lhe falta o ar. Alguns que observam a cena começam a rir também, outros reprimem o riso. Os mais crentes julgam que o homem está possuído, e tentam intervir, apelando para seus conhecidos métodos levados adiante nos exorcismos vulgares que já testemunharam em suas igrejas. Mas as tentativas perdem a seriedade diante da risada do homem, e aquilo que para ele já era engraçado se torna então mais cômico ao perceber que os outros estão assustados com o seu comportamento.

“É demais! Eu não acredito! Não acredito! É demais pra mim! Mas não pode ser! Alguém, por favor! Ai ai ai!”, e a gargalhada continua até perder o som e se tornar um ruído de ar escapando com muito esforço da garganta. Os seus olhos procuram pela vista de algo que não lhe seja tão engraçado, às vezes o céu, ou o teto da rodoviária, pontos mortos em que a visão não se perca com algo ainda mais cômico.

Ao chegar, o segurança pergunta ao público o que é que aconteceu e como foi que tudo começou.

“Eu não sei”.

“Não sei”.

“Nem ideia”.

“Ele estava sentado aqui, e de repente começou a rir”.

“Deve ter pensado em alguma coisa, e começou a rir e não parou mais”.

“Deve ter sido algo muito engraçado mesmo, mas ninguém viu bem como foi que começou”.

“Quando percebemos, já estava rolando pelo chão, gargalhando. E as pessoas correram pra acudir, ou então pra ver o que é que era”.

“Mas ele disse que não precisava de ajuda. Só ficou repetindo isso, de que era tudo muito engraçado, engraçado demais pra ele”.

As mães cobrem os olhos de seus filhos. Não querem que fiquem impressionados.

“Esse daí ou está muito feliz da vida, ou então está desesperado”, comentam.

“Ganhou na loteria!”.

“É preciso uma tragédia muito grande pra que alguém ria dessa forma”.

As autoridades, preocupadas, ficaram satisfeitas em ver que a histeria atingiu um indivíduo apenas, e não se alastrou para o restante da população. Quaisquer tenham sido os motivos da gargalhada, as testemunhas que observaram a cena não foram contaminadas pelo riso, e puderam logo em seguida voltar a seus afazeres, muito embora jamais tenham se esquecido da cena.

Logo em seguida chegaram repórteres e iniciaram uma reportagem ao vivo.

“Acho que ele está encenando”.

“Deve ser uma performance, que nem aquele peladão lá”.

Vários são os que filmam pelo celular.

E ele continuava: “Alguém para com isso! Por favor! É demais pra mim! Para! Pode parar! Mas que que isso…! Ai ai ai minha ursa!”

O homem foi levado para o hospital psiquiátrico, e ainda ria voluptuosamente depois de lhe darem um calmante e o colocarem na ambulância. Seu estado é controlado, mas ainda se encontra em observação. Um riso mais contido ou então alguma gargalhada abrupta ainda pode ser ouvida saindo de seu quarto, e ecoando pelos corredores do hospital vez ou outra.

Afinal, o que é que haveria ser tão engraçado assim? Algo que o homem tirou da lembrança? Uma piada? A cena de um filme? Um vídeo compartilhado pelo celular? Um tropeção? Ou então coisas mais filosóficas tais como o absurdo da existência? O vazio da experiência humana? O acaso ou então alguma perfeita ordem oculta no fundo dos acontecimentos terrestres? Alguma cena banal que expresse todas as verdades jamais ditas? Diz-se, nalgumas doutrinas místicas secretas, que qualquer um que por um átimo de segundo for capaz de vislumbrar a totalidade de todas as coisas, enlouquecerá e passará o restante da vida chorando ou então gargalhando.

Havendo dentre aqueles iluminados que preferem o choro ao riso.

A comicidade de qualquer coisa que seja, estaria, naquele caso rodoviário, disponível a um indivíduo apenas? Como foi que um raio de riso ficou cativo de uma só subjetividade? De um só lapso de lucidez ou de alucinação que o atravessa e o faz cair prostrado, então, tanta graça, ao atingir alguém, também não deveria ricochetear e atingir aos outros que dispõem de semelhante natureza, e são dotados dos mesmos sentidos e pertencem à mesma cultura?

Mal imaginam os transeuntes que, se aquele riso que faz o homem rolar pelo chão sujo da rodoviária se soltar e se espalhar para o restante da população, não restará sociedade, e nenhuma instituição sobreviverá à fúria implacável da comédia sem propósito, mais potente do que as armas revolucionárias, mais inexorável do que toda a nossa confiança no sistema. Será o fim de todos os ídolos, a ruína de todos os acordos que regem e mantêm funcionando isso a que chamamos civilização.

A cena me lembrou dois curiosos casos de histeria coletiva, os quais reproduzo aqui:


Epidemia de riso durou dois anos e meio na África 

Em 30 de janeiro de 1962, três meninas começaram a rir num internato em Kahasha, um vilarejo na então Tanganika, hoje Tanzânia. As risadas logo tomaram 95 das 159 alunas da escola, que fechou as portas para evitar tumultos.

O internato reabriu em 21 de maio e foi novamente fechado um mês depois: o ataque de riso contaminara outras 57 garotas.

Os surtos de gargalhadas duravam várias horas e, em algumas ocasiões, se repetiam quatro vezes. Houve casos em que os sintomas duraram 16 dias.
De Kahasha a epidemia migrou para Nshamba, a vila onde moravam pais de várias meninas do internato. Mais de 200 dos 10 mil habitantes da cidadezinha sofreram ataques de riso.

Em junho, uma outra escola nas imediações também foi contagiada e teve de fechar porque 48 de suas 154 alunas riam sem parar. A praga então se espalhou como fogo na pradaria.

O ataque de riso só parou em junho de 1964, dois anos e meio depois de iniciado. No total, ele atingiu cerca de mil pessoas. Catorze escolas tiveram de ser fechadas temporariamente.

A epidemia foi debelada quando as vilas atacadas foram submetidas a quarentena: ninguém entrava ou saía delas enquanto houvesse gente gargalhando compulsivamente.

A praga se espalhou em ondas. Primeiro afetava as adolescentes que estudavam em escolas cristãs, depois atingia suas mães e parentes do sexo feminino. Pais, policiais e professores não foram contaminados.

Investigou-se a possibilidade de ter ocorrido alguma reação tóxica, ou então um surto de encefalite. Os resultados foram negativos. Conclui-se que a origem da epidemia teve origem psicogênica, histérica.

“Classificar a epidemia de riso em Tanganika como exotismo de uma cultura alienígena é desconsiderar as implicações mais amplas do fenômeno”, escreve o autor de “Laughter: A Scientific Investigation”, perguntando em seguida: “Todos nós já não experimentamos uma forma menor de epidemia de riso?”.

A risada é involuntariamente contagiosa. Segundo Provine, o ataque de riso coletivo “desafia a combalida hipótese de que somos criaturas racionais, no controle pleno e consciente de nosso comportamento”.

O riso descontrolado de um grupo aproxima os seres humanos dos bandos de cães em que, quando um late, todos os outros latem em seguida. Ou dos pássaros, que subitamente imitam um líder, indo todos pousar na mesma árvore.

O bocejo e o choro também são contagiantes, mas num grau muito menor que a risada. Não é por outro motivo que a risada pode ser industrializada.

(Folha de S.Paulo – 04/01/2001 – 04h28)


 

Epidemia de dança de 1518

 

A Epidemia de dança de 1518 foi um caso de dançomania e histeria coletiva ocorrido em Estrasburgo, França (então parte do Sacro Império Romano-Germânico) em julho de 1518. Diversas pessoas dançaram sem descanso por dias a fio e, no período de aproximadamente um mês, a maioria caiu morta em consequência de ataques cardíacos, derrames ou exaustão.

O fenômeno teve início quando uma mulher, Frau Troffea, começou a interpretar passos frenéticos de dança numa rua da cidade de Estrasburgo aparentemente sem qualquer motivo. O fenômeno continuou a manifestar-se em torno de quatro a seis dias e numa semana, outras trinta e quatro pessoas já integravam a dançomania, sendo que, passado um mês, havia aproximadamente quatrocentos dançarinos nas ruas. Muitas dessas pessoas eventualmente pereceram de ataque cardíaco, derrame cerebral ou exaustão.

Documentos históricos, incluindo “observações médicas, sermões catedráticos, crônicas locais e regionais, e mesmo notas divulgadas pelo conselho municipal de Estrasburgo” esclarecem que as vítimas estavam a interpretar passos de dança e não apenas se contorciam de forma aleatória. O motivo de essas pessoas dançarem obstinadamente até a morte nunca foi identificado.

Enquanto a epidemia se espalhava, nobres locais, preocupados com a situação, procuraram o conselho de médicos da região, que descartaram a possibilidade de causas astrológicas ou sobrenaturais, diagnosticando o problema como uma “doença natural” provocada por “sangue quente”. Ao invés de prescrever a sangria, as autoridades no entanto incentivaram as pessoas a continuarem a dançar, abrindo dois salões, um mercado de grãos e até mesmo um palco de madeira no local do fenômeno. Isso foi feito na crença de que os dançarinos só se recuperariam se continuassem a dançar dia e noite. Para aumentar a efetividade da cura, as autoridades chegaram inclusive a contratar músicos para manter os afligidos em movimento. Alguns dos dançarinos foram levados a um santuário, onde se buscou uma cura para o seu problema, que naturalmente não foi alcançada.

(Wikipédia, a enciclopédia livre)

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