bem-vindo seja quem vier por bem

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I

O relato transcrito abaixo encontra-se presente nos volumes do processo 211/70 e foi redigido por um agente em serviço, infiltrado na célula terrorista em questão, conhecida como MRI-67, e cuja participação foi cabal para o seu desbaratamento. Seu nome permanecerá incógnito. Chama-nos atenção, contudo, a liberdade da qual serviu-se o agente para compor um texto inadequadamente literário. O tom de cuidadosa onisciência que permeia a narrativa, e uma proposital e justificada omissão de seu redator, absolutamente incompatível com palavras que, ao serem empregadas ali, de certa forma denunciam um envolvimento grave e indesejado de sua pessoa com as dos terroristas, acabaram contaminando o funcionamento da máquina de vigilância com ponderações excessivamente subjetivas, além de povoá-la com perniciosas caricaturas. À guisa de uma comparação, segundo o jargão empregado pelos guerrilheiros subversivos, o agente teria aberto inúmeros “pontos” em em seu relato, muito pouco ou quase nada agregando ao andamento das operações, ainda que, como já foi dito, sua participação tenha sido elementar. Sendo um caso único na história da instituição, ademais, este texto terá como garantida a atenção dos superiores.

O revisor fez uso de asteriscos sempre que julgou necessário acrescentar alguma observação.


II

“O aparelho, um apartamento de três quartos na Zona Sul, havia sido decorado com muito carinho por Suzana (verdadeiro nome: Raquel Chalita) na tarde daquele mesmo dia. Pusera um bordado colorido sobre a mesa de centro, e saiu pra comprar na venda da horticultura do Seu Pires dois vasinhos, uma rosa-de-pedra e uns calanchõezinhos, que habitariam o beiral da janela.

Consciente de que a vontade revolucionária e o bom-gosto poderiam conviver sem tanto atrito, fez questão de preparar o cenário deixando-o um pouco mais receptivo para a próxima reunião do movimento, marcada para aquela mesma noite.

Encomendou na pastelaria porções de salgadinhos, empadas e pães-de-queijo, que teriam de ir ao forno pelo menos uns 10 minutinhos antes de darem início às solenidades, aos preâmbulos e protocolares informes de certo sobre a atrapalhada queda de uns companheiros num assalto que coincidiu com um outro assalto, de uma outra célula revolucionária, acontecido no mesmo bairro, pela estúpida ocasião de apenas meia hora antes, o que possibilitou uma ação imediata da polícia e a prisão de dois companheiros, conhecidos como Leandro e Botelho, mas de quem Suzana (ou Raquel) lamentavelmente jamais ouvira falar.

A triste notícia serviria como introdução para a pauta que um dos cabeças da facção, o Camurça, desejava discutir: a hipótese de que a descentralização do combate em prol de uma maior autonomia dos grupos, e a consequente desvinculação dos focos às ordens de uma diretriz geral, estava sendo danosa à atuação, resultando quase sempre em ações desastradas e ineficazes. Os outros consideravam o assunto deveras espinhoso, além de contrariar uma estratégia consentida já a muito custo.

Para tanto, àquela reunião compareceriam membros de organizações irmãs, velhos quadros dissidentes do Partidão, uma guerrilheira tupamaru (admirada por Camurça), loira e de olhos bem claros, chamada Alejandra, e também um já conhecido militar de patente, um velhaco defenestrado num dos primeiros expurgos do novo regime.

Suzana (ou Raquel) sabia da predileção do militar por batidinhas de limão, e, em sua ida à horticultura, aproveitou para adquirir também uma dúzia de limões galegos (verdadeiro capricho de sua parte, se considerarmos a tendência contemporânea de empregar o limão-tahiti).

A cachaça o companheiro Gaudério já providenciara do alambique de seu avô, dono de um sítio em Minas Gerais. A ocasião era motivo para que convidassem ainda um antigo lacerdista, hoje comprometido com a causa revolucionária, mas também muito curioso a respeito da cachaça do avô de Gaudério, ela já de antemão bastante famosa entre os círculos mais alcoólicos dos opositores do governo. *

Ele (Gaudério), aos ouvidos de seus companheiros, advocava em torno da causa de que o envelhecimento do elixir (assim ele se referia à cachaça) poderia prejudicar aquele adocicado quase virginal, tão singular, característico do alambique de seu avô, a Fazenda Santa Isabel.

Preocupado com a possibilidade de, dentro em breve, estimulados pelo álcool, as vozes começarem a se elevar além do tom, Camurça, afim de evitar os problemas que a mesma vizinhança condômina já o obrigara a lidar mais de uma vez no passado por conta de barulho em hora indevida, colocou na vitrola um disco do Edu Lobo, sem poder prever que a música, tornada ambiente, obrigaria os participantes a elevarem ainda mais o volume de suas vozes.

– Já escutou algo assim? – teria perguntado a Alejandra.

Quando reunidos na sala, degustando os primeiros goles nos copinhos americanos (um jogo também comprado por Suzana, [ou Raquel] quando iniciara há duas semanas o surto que lhe fez querer mobiliar o aparelho), o lacerdista fez uma observação delicada, mas pertinente:

– Tem um gosto complexo. Começa adocicado, mas termina de maneira bem violenta na garganta. Seria criminoso fazermos uma caipirinha com uma cachaça tão rica.

Bastante treinado na arte de captar olhares, o namorado (secreto) de Suzana, Juarez (verdadeiro nome: Roberto César Ávila), percebera que, de imediato, aquele pronunciamento despertara uma reação dissimulada e temerária em Suzana. Sabia que viviam todos eles uma época de economias, vacas magras, e que a compra dos limões galegos constituía um certo sacrifício, feito na intenção precipitada e extravagante (ele julgava) de agradarem ao militar de patente, supostamente valioso, uma peça-chave em seus planos, pois que através dele conseguiriam acesso a um limitado arsenal. Um conluio entre eles, portanto, havia sido montado com a finalidade de mimarem o oficial, sem que tivessem informado o restante do grupo a respeito de suas intenções.

Dele, Juarez esperava que viesse uma resposta que negasse a oferta do lacerdista, permitindo assim que dessem continuidade ao plano original: as batidinhas de limão. Mas não ouviram nada. Ele ainda saboreava os primeiros goles da cachaça, afundado no sofá, entediado pela demora em tratarem de assuntos tão urgentes, naquela escura hora dos tempos.

Um dos convocados para a reunião comparecera com uma bandeira do Brasil. Camurça sabia que algo semelhante já rendera conflitos ideológicos bem graves em reuniões de partidos, em subsolos ou apartamentos fechados donde se tramam conspirações revolucionárias internacionalistas. Preferiu ausentar-se.

Juarez, rapidamente e sem chamar muita atenção, colocou-a na mesa de centro, onde outrora se encontrava o bordado que Suzana (ou Raquel) pusera ali.

Sua amante secreta, sabendo de sua perícia na arte de captar a intenção nos olhares alheios, desviou o tom de reprovação que naquele momento pensou em dirigir a ele, e concentrou-se nos sapatos caramelos de um dos companheiros.

Quando logo em seguida teria vindo do próprio Juarez a conclamação para que se fizessem as batidinhas de limão o lacerdista protestou, sugerindo que a quantidade empregada não fosse tão alta, para que ainda pudessem desfrutar do produto em seu estado puro aqueles que estavam realmente interessados na delicadeza de uma cachaça de ótima procedência.

Suzana, empenhada em trabalhar junto com seu amante secreto na defesa do projeto inicial, declarou-se de acordo, voluntariando-se para a tarefa, tendo logo em seguida se deslocado à cozinha, onde deu início aos preparativos.

Juarez, permanecendo na sala, percebeu que com os olhos o lacerdista exigia de Gaudério, entendido como proprietário legítimo da cachaça, um pronunciamento ou um ultimato, o que deu a entender aos mais perspicazes que observavam a cena a arriscada manutenção de certos valores tradicionais de propriedade individual, ainda não de todo superados pela comunhão geral dos bens prevista pela consciência comunista. A cachaça, se quisessem ser justos consigo mesmos, era de todos. Somente a maioria poderia deliberar qualquer coisa. E as possibilidades, aventadas mentalmente por Camurça, sem a menor vontade de levá-la à assembleia, podiam ser organizadas em três:

  1. Todos tomam cachaça pura e ninguém toma caipirinha;
  2. Todos tomam caipirinha e ninguém toma cachaça pura;
  3. Alguns tomam cachaça pura e alguns tomam caipirinha – estipulamos a porcentagem de cada grupo e calculamos as doses.

Havia uma porção de gente que já começava a se sentar no chão, sobre o tapete. No sofá cabia o militar, os braços do militar, e mais alguma alma bem magrinha. Os outros estavam ou de pé, ou sentados no semicírculo dos tamboretes, de costas pra vitrola. Por motivos de sobrevivência, as janelas deveriam ser abertas.

O oficial ainda não havia levantado a voz. Desde o começo da noite formulara apenas duas frases:

– Até que horas está estipulado o teto?

E:

– Quanto foi que terminou o jogo do Flamengo e Bangu, ontem?

Tendo obtido, não sem demora, as respostas que o deixariam insatisfeito:

– Até pelo menos às duas.

E:

– Três a um pro Bangu.

Da cozinha, Suzana (ou Raquel) praguejava mentalmente contra a inexistente demonstração de interesse de Juarez pelos vasinhos, e da opção em substituir o bordado, ideologicamente neutro, pela bandeira nacional, reacionária e imperialista. Mas o pior de tudo era a rosa-de-pedra, que, imaginava, tanto deveria tê-lo agradado.

Camurça, tentando a retomar a liderança do semi-círculo disperso, levado a se posicionar, conseguiu dizer sem tropeções:

– Quem é que vai tomar a caipirinha?

Nem um pio no semicírculo dos tamboretes, nem nada da turma que estava sentada ao chão. Ninguém tendo se manifestado, é verdade que se podia ouvir os companheiros mastigando os mini-pastéis e as empadas que acabavam de servir. O militar, ao ver aquilo, foi levado a lembrar-se com carinho e nostalgia de seus antigos companheiros de balcão, o radinho de pilha sempre no ombro, e como quão desanimadoras poderiam ser as novas almas revolucionárias, carolas que dispensavam o dito combustível para noites como essa assim, sem a menor hesitação. Ou eram um bando de caxias, ou estavam com vergonha de começarem a beber e não pararem mais.

– Vou esperar o pão-de-queijo. – Gaudério também teria dito, antes de pedir a Juarez que fosse dizer pra Suzana (ou Raquel) sobre a desnecessidade de espremer os limões, e que a tarefa deveria ser deixada apenas àqueles que estivessem interessados diretamente em beber da batidinha.

– Acho que ela (Suzana) vai tomar. – disse Juarez, com a voz baixa. – Ninguém mais quer?

– Faça o favor de não desperdiçar muita cachaça, então.

Camurça, a essa altura, já inquieto e com a voz falhando de nervoso, enchia a mão com uma porção de coxinhas:

– Cadê aquele molhinho de pimenta que a Suzana tinha comprado? – mas ninguém soube responder.

Em passos um tanto intrépidos Juarez se dirigiu à cozinha, onde Suzana (ou Raquel) o esperava para o confronto:

– Você nem reparou na rosa-de-pedra que comprei pra ti!

– É claro que reparei. Não é só porque eu não disse nada que eu não reparei. – ele tossiu, e ao vê-la despejar uma quantidade generosa de líquido dentro do recipiente, agregou – Ninguém vai tomar a batidinha… – ele diminuiu a voz – mas como tu tá aqui, aproveita pra fazer dois copos, um pra você, e um pro Ribeira (esse era o nome do oficial).

– Qual é a prioridade, Juarez?

– E tu não sabe? Não se ganha nada adulando lacerdistas. E não quero ver esse caboclo embebedado. Pode encher o caneco do milico.

Mesmo não sendo exatamente essa a resposta que ele devia dar à pergunta que fizera Suzana (ou Raquel), ela concordou.

Na sala, reunidos, o lacerdista tergiversava sobre algum tema metafísico assaz confuso, mas que teria como conclusão a tese de que o regime ditatorial brasileiro transformara-se na caricatura ou na paródia de uma ordem que falhavam vituperavelmente em igualar, produzindo como resultado um governo exótico, fruto de um acidente de percurso, muito mais interessado em enobrecer o próprio discurso, exigindo de seus cidadãos uma ética e uma moral que eles mesmos não estavam preparados ou dispostos para fazer valer, mas tornando esse mesmo discurso pronto para ser reproduzido pelas senhoras das classes médias e altas do Rio de Janeiro, em suas rodas de fofoca.

Foi quando um militante do Partidão, já calejado pelas repetitivas cobranças que recebia de todos os lados da esquerda, interveio:

– Onde é que você vai expor essas suas teorias sociológicas abrangentes, agora que lhe retiraram sua coluna e fecharam o jornal?

– Ora, não foi por isso que me convidaram? – e, depois de uma risada que ninguém acompanhou, achou por bem acrescentar – Estou me desligando de meu passado jornalístico. Renascerei como um guerrilheiro.

O militar balbuciou ou resmungou alguma coisa, mas mudou completamente de fisionomia assim que Suzana (ou Raquel) retornou à sala com um enorme copo de batida de limão e lhe entregou, perguntando:

– O senhor está servido?

– Como não?! Obrigado. – teria dito, e logo após dar o primeiro gole, quis sanar a dúvida que tão subitamente havia surgido – Vocês não costumam usar gim?

Suzana e Juarez entreolharam-se, inconvenientemente sabendo e pensando que a resposta era “não, porque nenhum de nós sequer considerou o gim, porque nunca nenhum de nós jamais tomou batidinha de limão com gim, porque nenhum de nós tampouco sabia que era essa a verdadeira receita”. **

– Não. Acha que faz falta? – Juarez tentou consertar.

– Não carece. Se a cachaça é muito boa, o gim fica sobrando. – disse, e dirigiu um olhar final à figura do lacerdista, que não retrucou.

Na verdade, fingiu que não era com ele.

E Juarez e Raquel (ou Suzana) sorriram mentalmente um para o outro. A guerrilheira tupamaru pediu a ela um gole, e daí então passaram a compartilhar o mesmo copo de batidinha.

Camurça sentiu uma vontade ignominiosa de pedir um copo pra si, mas conseguiu reprimir o desejo. Mas aos poucos, outros pareceram se interessar no drink, requisitando novas levas produtivas. Juarez prontificou-se sem hesitação. Foi quando Camurça achou que não soaria indevido fazer o seu pedido.

Depois o lacerdista resolveu enveredar-se em outro palavrório. Uma vez interrompido pela necessidade de ir ao banheiro, quando regressou, Camurça e Gaudério estavam dando início oficial à reunião. Durante 3 horas e 37 minutos todos os presentes estiveram discutindo calorosamente as pautas e estratégias a serem adotadas para as suas próximas ações. Gravitaram ao redor dos seguintes temas (não exatamente nessa ordem):

  • Um plano mirabolante de sequestro do embaixador da Itália;
  • A necessidade de uma rede de comunicações mais coesa;
  • A escalada da tortura e dos aparelhos repressivos;
  • O justiçamento de um suposto envolvido no sequestro e tortura de camaradas;
  • A necessidade de quadros provenientes das fileiras do exército;
  • Uma bomba de panfletos a ser explodida no Cine Odeon (conteúdo a ser resolvido);
  • O traslado de um mimeógrafo que deveria ser transportado do Rio de Janeiro até Juiz de Fora;
  • Aspectos da queda do Movimento Revolucionário Tiradentes.

Quando chegaram ao quinto tema, depois de muitos confrontos, argumentos, contra-opiniões, observações metalinguísticas e explanações tautológicas***, o oficial já se encontrava em seu quarto copo de batidinha (a garrafa havia sido monopolizada pelo casal Juarez e Suzana em idas revesadas à cozinha) quando resolvera se pronunciar:

– Fico cabriocaricamente entusiasmado quando vejo jovens como vocês dedicando-se à ação com tamanha lucidez, conscientes de que a teoria e as filosofias são realmente muito preciosas ao intelecto, na maneira com que nos apercebemos das coisas e nos aproximamos da experiência, pois que é justamente isso que nos leva a ela, mas que urgente aos desdobramentos da nossa revolução que se coloca, na guerra revolucionária em que nos encontramos, é justamente essa imperiosa ação que nos coloca aqui pra discutirmos até a calada da noite. Vivemos um tempo conturbado, sinistro, como tão bem cantou aquele poeta espanhol San Juan de la Cruz, mas não devemos ter medo do que trama o inimigo se estivermos nós também nos preparando para suas tirânicas machadadas, à luz do dia, nas ruas, com as mães e com os seus filhos, que serão os nossos futuros revolucionários, se não estivermos nos armando, escondidos nas trevas, nos becos, esperando pela oportunidade de cortarmos as suas comunicações, de inserirmos nossas ideias revolucionárias na mente daqueles que nos apoiarão.

Impelido pelos seus ouvintes a continuar o discurso, seguiu em frente:

– Se estamos certos em estabelecer essa aliança entre todos aqueles que se encontram descontentes com o governo, mas que antes dele chegar a esse estado se encontravam em eixos opostos e equidistantes, então julgo que também atuemos em conjunto, pois que nos é provocada tanto a dignidade quanto a honra e a inteligência, e que nossos exércitos ocupem tanto o campo quanto as cidades! O interesse é de todos! E que o nosso lema diga: “bem-vindo seja quem vier por bem!” – e finalizou, deliciando-se logo em seguida com os aplausos que saíram da área da sala onde se encontravam Juarez e Suzana. ****

Mas Camurça, um pouco indelicadamente, interveio:

– Não sei se entendi o sentido do lema.

– É uma música que está na minha cabeça desde manhã cedo. ***** – teria dito, e aproveitou a embriaguez até o resto da noite, levando adiante poucas e econômicas frases mal-articuladas, até que estivessem todos os companheiros esgotados, a garrafa de cachaça vazia, os comes-e-bebes todos raspados até o último grão e forrando o estômago dos revolucionários, o disco do Edu Lobo terminado há muito tempo e não mais substituído ou retirado dali até que alguém percebesse o incômodo barulhinho da agulha raspando no disco havia meia hora porque o silêncio crescente e circulante chegara sem que ninguém percebesse porque estavam todos falando tão sério, tão apaixonadamente envolvidos nos detalhes e nos pormenores de tudo aquilo que discutiam, que ultrapassaram em muito o horário previsto, e o tédio do oficial, depois de ouvir a guerrilheira uruguaia recitar um corrido, ao ir embora, ele sentira, era breve (quase um átimo), mas de uma duração detestavelmente pior que a morte que ele encontraria na mata, abandonado e sozinho, meses depois, três tiros no peito disparados pelas carabinas de uma emboscada.

******


* E até mesmo entre o dos apoiadores, desconfio, o bastante para que servisse aos encarregados da investigação como principal pista para o desbaratamento de toda a célula, dois meses após daquela reunião, uma vez que através do sobrenome do avô puderam localizar o perfil de seu neto subversivo, e seu verdadeiro nome, José Carlos Noiva. Àquela altura já haviam, inclusive, convocado para uma degustação o major-aviador ao qual eram subordinados, na oportunidade de localizarem umas garrafas a mais.

** O desejo estabanado do nosso agente em tentar adivinhar o que pensaram os elementos envolvidos não é de todo recomendável.

*** Como já havia uma ata (cf. Anexos I) sendo escrita por um dos participantes, o agente deve ter julgado redundante o registro do conteúdo total da reunião, preferindo assim relatar apenas os insólitos detalhes que lhe captaram a atenção.

**** O discurso do oficial é contraditório, e parece um tanto afetado e inverossímil, até mesmo para um bêbado. Sabemos do ceticismo com que o Capitão Ribeira dedicou-se à luta e temos razões de sobra para imaginar que todo esse discurso foi inventado pelo agente que redigiu o relato, uma vez que não consta nada semelhante na ata oficial da reunião.

***** Trata-se de um verso da canção do compositor e intérprete português José Afonso, “Traz outro amigo também”.

****** A narrativa interrompeu-se ali, a partir de onde, e de maneira um pouco arbitrária, o agente considerou irrelevantes todos os acontecimentos subsequentes. A morte do Capitão Ribeira, surpreendentemente, ocorreu de maneira bastante semelhante ao que havia sido imaginado e escrito pelo agente.


Imagem: Neo Rauch

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