O Pior Momento da História da Televisão Brasileira

hqdefault Esqueça os domingos tediosos da banheira do Gugu. Esqueça os testes de fidelidade e a risada do João Kléber. Esqueça os exames de DNA do Ratinho. Esqueça o episódio do Edifício Joelma no Linha Direta. Esqueça os barracos nos programas de auditório em que as famílias vão resolver suas diferenças. Esqueça o Esquenta. Esqueça o Big Brother. Esqueça as piadas sem graça do Marco Luque. Esqueça o close nas bundas das panicats. Esqueça o novo programa do Adnet. Esqueça a MTV. Esqueça o show de calouros do Raul Gil. Esqueça o E.T e o Rodolfo acordando as celebridades. Esqueça a Ana Maria Braga. Esqueça a Dança dos Famosos.

O pior momento da televisão brasileira foi protagonizado por ninguém menos que a rainha dos baixinhos, a Sra. Xuxa Meneghel, em 1989, acompanhada por um grupo de varões e crianças indígenas. No ar o programa Xou da Xuxa. A duração da catástrofe é o tempo que ela levou para cantar um de seus sucessos na época: a canção “Vamos Brincar de Índio”. O presente dado pelo Maurício Sherman ao público brasileiro é portador de um cinismo tão atroz que a maioria das pessoas fica simplesmente embasbacada e incrédula ao testemunhar esse registro. Ao término da tortura é quase impossível alguém deixar de se perguntar: “quem teve essa maldita ideia?”.

Não fosse o fato da Xuxa ter sido a rainha dos baixinhos por mais de vinte anos, não fosse o seu sucesso comercial absoluto dentro e fora do Brasil, talvez que, tantos anos depois da tragédia, a coisa teria passado despercebida. Há uma camada de nonsense estampada na cena, além de um incontornável constrangimento. A câmera percorre o rosto dos indígenas, todos eles pintados e vestidos de acordo com aquilo que imaginamos ser um índio, e não há o esboço de um sorriso sequer. Ninguém parece estar entendendo nada. Outra pergunta que irá passar por sua cabeça vendo aquilo: “por que é que trouxeram índios de verdade? Não dava pra contratar meia dúzia de atores?”. Mas debaixo daquela brincadeira, daquela coreografia toda levada adiante pelas paquitas, o caráter de agressão é muito mais que explícito. Não é necessário ser um antropólogo pra conseguir visualizar a enorme carga de agressão embutida ali. É como se a civilização e o espetáculo se unissem naquilo que ambos têm de pior a fim de produzirem uma provocação do vencedor sobre o vencido, do dominador sobre o dominado, pra conservar o índio enquanto categoria exótica, algum ancestral perdido que não se adequou e jamais chegará a ser brasileiro de fato.

A cena me lembrou uma passagem do livro Os Índios e a Civilização, em que Darcy Ribeiro narra o contato dos chefes kaingáng com a civilização. Segue abaixo:

“Os Kaingáng aceitaram facilmente a ideia de embarcar no trem, mesmo porque alguns deles já haviam experimentado andar nos troles e até mesmo nas locomotivas, a convite dos trabalhadores da ferrovia. Mas, até então, só tinham percorrido pequenos trechos, sempre dentro da mata, que conheciam tão bem. Agora deviam fazer a viagem até São Paulo que demoraria um dia inteiro. Entraram no carro e tomaram acento, mostrando-se loquazes e alegres enquanto atravessavam a mata. Ao chegarem à primeira estação, observando o vaivém dos passageiros que embarcavam e desembarcavam, ainda trocaram comentários. As estações foram se sucedendo, cada qual mais cheia de gente, porque já então percorriam regiões mais densamente povoadas. Uma tristeza e um acabrunhamento cada vez maior foi se apossando dos índios; deixaram de falar, já nem respondiam às perguntas do pacificador. Essa experiência operou uma mudança radical na postura de cada um dos chefes, logo transmitida à tribo inteira. Agora conheciam em toda a extensão o quanto eram insignificantes diante da tribo imensa dos brancos. Era o desencanto de um povo tribal diante de uma sociedade nacional, de sua magnitude esmagadora, em relação à sua pequenez. Desde então, o prestígio que atribuíam ao branco passou a ser de tal ordem que nenhum valor tribal pôde persistir. Haviam aprendido que nada podiam diante do branco, senão entregarem-se inermes ao seu domínio. Assim se quebrou o orgulho que tinham pelas danças, pelos cantos, pelos costumes peculiares e passaram a adotar cada elemento cultural que lhes era acessível: as roupas, os alimentos, os modos de comer e tudo o mais que fôsse simbólico da civilização a que se submetiam. […] Muito antes dos primeiros contatos pacíficos, os Kaingáng se preocupavam constantemente com o crescimento do número de brancos. Conservavam longamente sobre o cerco que se fechava cada vez mais em torno deles, estranhando que as mortes que produziam aos invasores não diminuíssem seu número, nem seu ânimo de avançar, enquanto eles próprios ia minguando pelas mortes nas lutas e, sobretudo, nos ataques de bugreiros às suas aldeias. Anos depois da pacificação revelaram ao Dr. Luís Bueno Horta Barbosa as preocupações daqueles tempos e explicaram que costumavam cortar a cabeça e a genitália dos brancos que matavam, por suspeitarem de que voltariam a viver e a procriar se assim não fizessem.”

O contato do índio com o branco produz para o primeiro visões aterradoras capazes de reorganizar toda a sua cosmologia. Para o segundo não é menos complicado. O nativo enquanto Outro é uma das categorias mais caras às ciências humanas, e o seu avistamento possui um peso enorme dentro da história do pensamento ocidental moderno. Como abordá-lo sem que sejamos obrigados a exibi-los como espécimes exóticos em programas de auditório, ou em dias do Índio comemorados em escolas, ou em turnês pelo Brasil? Mas tudo está aí pra ser apropriado, e a realidade, às vezes, é muito mais mesquinha e torpe do que os conceitos e os aparatos teóricos que nos explicam o mundo. Eu, de minha parte, vendo a Xuxa e as paquitas cantarem e dançarem na frente dos índios, imaginava uma situação em que os índios em questão fossem um pouco mais selvagens, apenas para que pudessem escalpelar aquelas branquelas. É como se aquele dia o Xou da Xuxa fosse a síntese do processo de amansamento e apresamento de um povo que experimentou a liberdade de maneira muito mais intensa e viva do que qualquer civilizado jamais chegará a experimentar. Talvez a Xuxa e sua equipe estivessem querendo celebrar alguma coisa. Talvez que suas intenções fossem boas: chamar o índio pra dançar a dança dos auditórios. Mas aí vem o conteúdo da canção, a letra. O resultado é que é terrível. E o paradoxo que o permeia é incrível e precioso: por que que algo tão podre e violento se deu em um programa infantil ? Não dá pra tentar atenuar-lhes a culpa. Em 1989 as denúncias de agressões contra os índios já eram de conhecimento geral. Ainda que haja o esboço de alguma consciência a respeito disso na letra, como é que pode a intenção estar tão distante assim do resultado? Desnecessário dizer, ao vê-los recusando a dança, que por mais que a Xuxa quisesse brincar de índio, nenhum deles jamais quis brincar de branco.

Segue abaixo o vídeo do massacre, e a letra.

Vamos brincar de índio
Mas sem mocinho pra me pegar…
Venha pra minha tribo
Eu sou cacique, você é meu par…
Índio fazer barulho
Índio ter seu orgulho
Vem pintar a pele
Para dança começar

Pego meu arco e flecha
Minha canoa e vou pescar
Vamos fazer fogueira
Comer do fruto que a terra dá
Índio fazer barulho
Índio ter seu orgulho
Índio quer apito mas também
sabe gritar

Índio não faz mais lutas
Índio não faz guerra
Índio já foi um dia
O dono dessa terra
Índio ficou sozinho
Índio querer carinho
Índio querer de volta a sua paz

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